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Sexta-feira, Maio 7, 2021

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“Por este (R)io acima”, por Adelino Correia-Pires

São de Fausto, o Bordalo Dias, algumas das mais belas canções da música portuguesa. “O Barco Vai de Saída”, “Se Tu Fores Ver o Mar”, ou “Navegar, Navegar”, têm em comum a aventura, o desafio e o horizonte de vistas largas e perigos vários.

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Ali, tudo parece fazer sentido. Letras buriladas ao pormenor, musicalidade quase perfeita, numa viagem por mares quantas vezes já navegados, “adeus ó cais de alfama… e vai ao fundo sim senhor, que vida boa era a de Lisboa”.

E é ao som de “Rosalinda” que escrevo estas linhas. Tento afinar o tom da escrita pela voz de Fausto, como aconchego de fundo.

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Sem rede, nem diapasão que me valha, confesso que não é fácil. A canção é lindíssima, o tema sempre actual. Concentro-me mais na música dele, que na escrita minha. Não há problema, os leitores perdoam, é por uma boa causa.

Mudo de registo e passo a ouvir “… e assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal”. Cheira-me a revolução, que diabo! Afinal, agora já não é tanto assim. Mas o Fausto insiste: “…segura bem o teu par, que o baile vai terminar”. Mudo de novo. E não me canso de o ouvir. Pouso a caneta que a crónica pode esperar. Aliás, duvido que alguém a leia. No domingo foi a Catalunha. Os catalães são um osso duro de roer. Por lá, só mesmo o regresso impossível de Freddie Mercury e Monserrat Caballé poderia atenuar a coisa.

E houve autárquicas também. A esta hora, ainda se fazem contas de somar e de sumir. Nestes momentos haverá sempre os que se somam e multiplicam em beijos, abraços e cumplicidades. Muitas. E os que se sumissem, pouca falta cá fariam.

Retomo a escrita. Está difícil não falar de futebol, nem de política, depois de um domingo assim. Tento resistir. Afinal, muita gente falará sobre isso.

Volto a Fausto. E, baixinho, assim como quem não quer a coisa, parece-me ouvir lá longe, mas cada vez mais perto: “Por este (R)io acima”. Será?

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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