Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Julho 31, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Ponto negro num imenso branco”, por Pedro Marques

A minha escrita tornou-se inconstante.

- Publicidade -

De repente foi como se nada mais conseguisse pensar, escrever, verter em letra escritas as emoções, perceções, realidades, experiências vividas.

E a folha vazia que estava ia permanecendo nesse limbo branco, imaculado, num imenso vazio que dia após dia até amarelecia, mas pela força dos dias que envelhecem as coisas e as forçam ao ocaso.

- Publicidade -

Quando uma parede branca tem um ponto negro, tendemos a fixar-nos na imperfeição desse ponto que contrasta com a brancura ferida. Mas o que devemos saber fazer é focarmo-nos no imenso branco que o ponto negro não consegue tingir.

E assim me sinto. Focado no aqui e agora. No bom que tenho, mais do que nas imperfeições que observo. Conheço os pontos negros que se me deparam perante os olhos mas recuso deixar que ganhem dimensão.

A tensão política mitigou-se por uns tempos. A forma como o poder foi tomado é legítima mas não está legitimada – respeita a Constituição mas trai os costumes. Compete agora à história e ao tempo que corre fazer o distanciamento bastante para que, mais tarde, possamos fazer análises de contexto, de atitudes, de procedimentos e de resultados com uma visão menos apaixonada e menos toldada pelas emoções.

Pessoalmente ainda considero a forma como o Governo em funções assumiu funções um ponto negro num céu azul imenso. Quero interiorizar para mim que isso não me aborrece e que a minha vida é feita e condicionada, não por causa do Governo, mas antes apesar do Governo.

A história explica-nos que há muita gente medíocre que atinge o estrelado, à custa de simpatias, blagues, tiradas, exposição mediática favorável, capacidade de influenciar e ser influenciado. Assim como existe muita gente altamente competente, inteligente, empreendedora, com provas da vida dadas e que nunca atinge o estrelato. Muitos nem sequer querem; outros não conseguem vencer a fronteira de caciques que povoa os partidos políticos e impede a emergência de valores, antes impondo a proteção recíproca de personagens fracas.

No mundo empresarial, social, científico e cultural onde me movimento hoje em dia tenho sido privilegiado com o contacto pessoal com figuras verdadeiramente excecionais. E no mundo político sou testemunha de personagens de exceção – um número residual, de personagens grandes – um número pequeno e de personagens fracas ou mesmo medíocres – a larga maioria, quase todos eles sempre em busca do golpe palaciano seguinte.

Mas, nem mesmo por ser assim, eu deixo de acreditar na competência, no rigor, no mérito e na recompensa pelo mérito. Só que, enquanto o mundo profissional, económico, social e científico reconhecem o mérito, a política reconhece mais facilmente o cacique, o controlador de votos, o intermediário das traficâncias, o mestre do amiguismo e o serviçal da espinha curvada, e a todos consegue fazer guindar a posições de destaque.

E é nesta catarse que vejo o atual chefe do Governo (não consigo chamar-lhe Primeiro Ministro, desculpem, pois só o será mesmo quando for legitimado pelo voto dos eleitores, apesar de estar legítimo em funções). Mas logo me recentro e penso de novo: ele é apenas um dos pontos negros que não vai conseguir fazer com que uma parede branca seja tingida nem um céu azul fique nublado.

E é nesta catarse que vejo as popstars da política inscritas no Bloco de Esquerda e que reduzem as suas intervenções a números vazios de conteúdo mas cheios de momentos ao género do Portugal Got Talent.

E é nesta catarse que vejo que também dentro do PSD existem atores que não são melhores nem piores do que a generalidade dos “António Costa” que andam por aí: pessoas sem provas dadas na vida profissional, na vida científica, no tecido social, no meio cultural, na luta pela investigação, no mundo da educação ou em qualquer outro mundo que não seja o pequeno mundo da política bafienta e baseada no truque, na traição, no esquema ou na traficância.

E é nesta catarse que olho para mim e me pergunto se também eu serei algo assim. Mas como nego e quero negar ser também assim entrego-me numa luta sem tréguas ao meu trabalho, ao meu contributo, ao meu aperfeiçoamento, a uma busca incessante pelo rigor, pela disciplina, pelo resultado, pelo desenvolvimento pessoal e profissional de quem trabalha comigo.

Pelo menos tento não ser assim. Não quero ser assim.

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome