Ponte de Sor | O lugar de ‘Água de Todo o Ano’ onde água… só mais em baixo

Água de Todo o Ano em Ponte de Sor, lugar que se estende ao lado da EN 2. Créditos: mediotejo.net

No que toca à origem do nome, ignorava Primo Pedro da Conceição Freire d’Andrade e ignoram os habitantes do lugar Água de Todo o Ano, no concelho de Ponte de Sor. Talvez não todos… mas certamente todos com quem o mediotejo.net falou. Nenhum, do mais velho ao mais novo, soube explicar a razão de topónimo daquela terra que um dia foi maior em largueza e extensão, ocupando toda a aldeia de Tramaga. Atualmente Água de Todo o Ano estende-se nas duas beiras da Estrada Nacional 2, logo depois de Domingão e antes de chegar a Montargil.

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Outrora conhecida por Água de Todo o Ano, talvez pela proximidade da ribeira de Sor e do ribeiro do Padrão ou das Ónias, Tramaga dista da sua sede de concelho cerca de três quilómetros, explica o ‘Dicionário Enciclopédico’ na parte referente àquela freguesia do concelho de Ponte de Sor.

“Esta povoação, cuja história está intimamente ligada à história da freguesia de Ponte de Sor, fora certamente povoada no tempo dos romanos, que fundaram uma via militar, mais conhecida por estrada do Alicerce, e estivera subordinada ao poder da Ordem dos Templários”, acrescenta.

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Tramaga em Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Com a denominação de Água de Todo o Ano, existia já no ano de 1864, tendo 11 fogos e 40 pessoas. A pequena aldeia era atravessada pela antiga e movimentada estrada de Montargil. A proximidade com essa via de comunicação e ainda o aforamento e povoamento de terras, que foram divididas em glebas, trouxeram-lhe prosperidade.

Na obra ‘Cinzas do Passado’, Primo Pedro da Conceição Freire d’Andrade diz ignorar “o motivo por que esta outrora minúscula aldeia de Água de Todo o Ano foi brindada com tal topónimo. Nem os muitos Dicionários Geográficos do País que se têm publicado o esclarecem, talvez porque a sua antiguidade tem pouco valor. Depreende que o nome derivava de a povoação estar junto da ribeira do Sor, que lhe corre aos pés, onde as águas são perenes, e por também desaguar junto a ela o ribeiro do Padrão ou das Ónias”, escreve.

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Tramaga viu o seu nome mudar por força da reinvenção popular no séc. XX, portanto uma mudança relativamente recente. Primo Pedro da Conceição Freire d’Andrade explica que “o lavrador do Cansado, António Manuel Roças, passava por ali, quase diariamente, para ir à sua herdade. Um dia, em conversa com um habitante do lugar, apreciavam o desenvolvimento que este estava tomando. O seu interlocutor afirmava que, a continuar assim, a povoação dentro em pouco se tornaria numa aldeia, ao que aquele redarguiu, em tom depreciativo: – Ora, aldeia de Tramaga!”.

O moinho novo em Tramaga. Créditos. mediotejo.net

A razão da mudança de nome, que o povo facilmente aceitou, deveu-se à abundância de tramagas na aldeia. O autor citado refere que as próprias estações oficiais a aceitaram, sem relutância, e “nem sequer esperaram que o Governo sancionasse, como era necessário, a mudança de nome”.

E a povoação foi crescendo apropriando-se de lugares como Caldeirão e Casas Novas. E talvez seja por isso que atualmente, no lugar, mais acima, que permaneceu com o nome Água de Todo o Ano, praticamente contíguo a Tramaga, não haja vestígios de água alguma. É mais abaixo que encontramos os cursos de água que poderão estar na origem do topónimo.

Maria Rosa vive em Água de Todo o Ano, em Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

“Curiosamente em Água de Todo o Ano não há água”, observa ao mediotejo.net Maria Rosa, de 61 anos.

Encontrámos Maria Rosa no quintal da sua casa em funções domésticas. Desde que casou que reside em Água de Todo o Ano e “nunca” ouviu qualquer história que explique a razão do nome. “Talvez os mais idosos”, observa.

Maria saiu dos Montes dos Lavradores onde o seu pai trabalhava nas “searinhas de São Miguel, que terminavam em setembro” teria uns 10 anos, para viver em Tramaga e ir à escola em Ponte de Sor. O pai comprara uma fazenda naquela freguesia mas depois do casamento quis “uma casinha em Água de Todo o Ano. Gostei do lugar por ser mais sossegado. Mas é a mesma aldeia!”, explica. Afinal é em Tramaga que Maria vai ao Posto Médico e as crianças vão à escola.

A freguesia de Tramaga foi fundada por decreto-lei, datado de 11 de junho de 1993. Derivou da freguesia de Ponte de Sor confrontando a norte, com o limite sul do concelho de Abrantes, ao longo da Estrada Nacional 2, a nascente orienta-se em direção ao ribeiro do Zambujinho, que percorre até à foz na ribeira de Sor, a sul estende-se a partir da foz da ribeira de Vale de Boi até ao limite das freguesias de Galveias e Montargil, com esta última confrontando-se ainda a poente com Foros de Arrão.

O moinho novo em Tramaga. Créditos. mediotejo.net

Encontramos a antiga Água de Todo o Ano – hoje Tramaga – envolta pela riqueza natural da ribeira de Sor. É lugar de moinhos e moleiros desde o séc. XIII, como certifica a carta régia de D. Afonso III, de 13 de julho de 1256, referenciando moinhos do seu Chanceler Estêvão Nunes “molendinos quos habetis in Ripa de Soor”. Memórias Paroquiais de 1758 mencionam 3 moinhos de rodízio no leito da ribeira: o Moinho da Sobreira, onde George Robinson se banhava em férias; o Moinho da Pontinha, o mais imponente dos três, do velho moleiro João Marcelino e o Moinho Novo, que permite a travessia de margem numa admirável zona de pesca à cana.

Junto à ribeira de Sor encontrámos João Pascoal, de 89 anos. Toda a vida foi pastor, desde os três anos que guarda gado, primeiramente atrás do irmão mais velho com quem aprendeu a pastorear animais e mais tarde sozinho.

Apesar da provecta idade também o pastor desconhece a origem do topónimo Água de Todo o Ano. Na verdade conhece bem o lugar mas aquela não é a sua terra. Anda por ali atrás de 200 cabras e ovelhas, com a sua cadela Charola que “apesar de novinha já faz o seu trabalho. É o que me vale!”, conta ao mediotejo.net.

João Pascoal e a Charola pastoreiam o gado. Créditos: mediotejo.net

Natural de Ervideira, de onde saiu aos 11 anos, revela-se reformado. “Não preciso disto, mas o rebanho é meu e gosto” do pastoreio, afirma. O gosto que o tira de casa de manhã “devagarinho” de cajado na mão, com uma bucha à cintura para o almoço e um cantil de água para matar a sede, só regressa à noite, ou seja, a Ponte de Sor onde vive a cinco ou seis quilómetros do lugar onde pastoreava o gado.

É entre caminhos de cabras, ovelhas, cães e dias errantes que João Pascoal se sente bem. O único inconveniente daquela nobre função é a falta de liberdade. “Não tenho domingos, nem feriados, nem férias, nem festas”, assegura. Além disso, o trabalho “tenho de ser eu. Já não há quem queira ser pastor”, afirma.

O pastor João Pascoal de 89 anos em Tramaga, Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Sem outras explicações fomos conhecer o moinho novo de Tramaga. Recorda o trabalho de dezenas de gerações de moleiros que outrora, faziam a farinha para os seus fregueses. É um moinho antigo, embora lhe chamem novo, porque fora certamente o último a ser construído na linha de moinhos, localizada a sul, entre Sobreira e Tramaga. Primo Pedro da Conceição Freire d’Andrade refere na mesma obra que no local onde o moinho novo se situa, existia um admirável pego, com grande abundância de peixe, ótimo para a pesca à cana.

Tramaga conta com uma população de 2250 habitantes e tem como atividades económicas a indústria de carvão de lenha, extração de cortiça, indústria de pré-esforçado, agricultura, pequeno comércio e construção civil. Tem duas romarias: a Festa da Páscoa e o Senhor da Fonte Santa, mas a água, ali, não corre mesmo durante todo o ano.

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