Ponte de Sor | História, balões de ar quente e outras aventuras pelos ares fizeram a festa dos 100 anos de aviação (c/VIDEO e FOTOS)

Celebração dos 100 anos de aviação em Ponte de Sor. Espetáculo Night Glow. Créditos: Flávio Catarino

O centenário da aviação em Ponte de Sor foi celebrado no sábado, 16 de novembro, envolvendo não só o Festival Internacional de Balões de Ar Quente mas o 1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal. Um evento organizado pelo Município que pretendeu ser “uma festa” mas sobretudo promover o cluster aeronáutico no concelho. Hugo Hilário avançou ao mediotejo.net a data da próxima Portugal Air Summit: em 2020 o evento decorrerá no outono, de 7 a 10 de outubro.

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Centro do cluster aeronáutico português, Ponte de Sor tem crescido fortemente nesta área nos últimos anos, com um conjunto de investimentos e iniciativas que colocam Portugal na rota internacional do sector. 2019 assinala um marco histórico para a região, que culminou num Encontro onde historiadores, investigadores, oficiais da Força Aérea e players do sector que debateram a história e o futuro da aviação na região e no País.

Na abertura do 1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal o presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, entidade organizadora do evento, sublinhou que o objetivo da celebração do centenário da aviação no concelho passa “pela promoção de Ponte de Sor no mundo”.

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1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, em Ponte de Sor. O presidente da Câmara, Hugo Hilário. Créditos: mediotejo.net

Sendo certo que foi “um dia de festa” com outras iniciativas como o Festival Internacional de Balões de Ar Quente, a entrega dos prémios da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA) e ainda a assinatura de um protocolo entre a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e a APPLA, relativo à cedência de espaço no Aeródromo de Ponte de Sor, Hugo Hilário deu ênfase à celebração “da nossa história. Curiosa mas também reveladora”, no fundo, “uma história ainda por contar”.

Celebração dos 100 anos de aviação em Ponte de Sor. Espetáculo Night Glow. Créditos: Flávio Catarino

E tudo começou no dia da inauguração do campus universitário em que “o Carlos [Faísca] e a Ana [Silva] (funcionários do Município) descobriram uma notícia de 1919 que prova” a importância da aviação no concelho. “A partir desse trabalho foi possível construir uma cronologia histórica”, indicou Hugo Hilário.

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O que surgiu depois é público, nomeadamente “o investimento”, falando o presidente das empresas e dos parceiros, e avançando que “nos próximos meses a Reexia irá criar mais 80 postos de trabalho em Ponte de Sor para a fabricação de compósitos para os helicópteros da Airbus”.

Hugo Hilário mencionou ainda uma viagem a Arouca, onde Ponte de Sor venceu o prémio Município do Ano Portugal 2019 pelo Alentejo e Ribatejo, a cargo da UM-Cidades, com o projeto ‘Ponte de Sor Portugal Air Summit’ entregue na passada sexta-feira na gala que distingue os territórios municipais.

OIÇA AQUI AS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE DA CÂMARA:

Ponte de Sor/ Comemorações do Centenário da Aviação em Ponte de Sor. Durante o Primeiro Encontro Nacional de História da Aeronáutica o presidente da câmara municipal, Hugo Hilário, fala dos objetivos da iniciativa e indica que em 2020 a Portugal Air Summit decorrerá no Outono, de 7 a 10 de Outubro.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 16 de novembro de 2019

E 1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, que decorreu no Centro de Artes e Cultura (CAC) de Ponte de Sor, abordou vários assuntos ligados à história da aviação em Portugal. Destaque para a primeira ascensão tripulada sobre solo português e o pioneirismo do capitão Vicenzo Lunardi, pelas explicações de Lourenço-Mateus e Mário Madeira.

Na alvorada da aerostação mundial chegou a Lisboa um aeronauta transalpino, que já deixara o pioneirismo bem sucedido da sua marca por vários lugares europeus, ao ser a primeira pessoa a ascender em Londres e em mais de uma dezena de cidades da Grã-Bretanha, na Península Itália, e em Espanha.

Também entre nós, foi Vicenzo Lunardi o primeiro aeronauta a conquistar o céu, “facto histórico descoberto há pouco tempo”, deu conta ao mediotejo.net o professor Mário Madeira. Num tempo marcado por mudanças profundas e por convulsões sociais generalizadas, às quais Portugal não ficou indiferente e que se refletiram de sobremaneira nesta história, destaque para a do primeiro voo de um balão tripulado sobre solo português, proeza ocorrida na já distante tarde de 24 de agosto de 1794, e que teve a margem sul do Tejo como cenário principal e pano de fundo. Lunardi saiu do Terreiro do Paço (Lisboa) e aterrou no Campo da Silveira (Vendas Novas).

Contam os documentos que afirmava: “quanto mais subo ao céu mais pequenos me parecem os problemas da vida”.

1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, em Ponte de Sor. O professor Mário Madeira. Créditos: mediotejo.net

Vicenzo Lunardi ficou em Vendas Novas (Alentejo) e “o balão foi sem ele parar a Estremoz”, conta Mário Madeira. Sendo certo que foi preso no Limoeiro, por Pina Manique, Intendente Geral da Polícia de 1791 a 1803, que reprimia as novas ideias oriundas da Revolução Francesa. O aeronauta realizou duas ascensões em quatro países: Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal.

Em 2019, nos 225 anos da primeira ascensão “todos os países comemoraram” a efeméride, exceto Portugal, embora tenha sido assinalada em Vendas Novas.

Recuando até 1794 “a razão que encontro, para que não se tenha dado grande ênfase à ascensão do Lunardi, prende-se com a tensão diplomática entre Portugal e França. Estamos em plena Revolução Francesa, havia tensão diplomática entre a França e a Inglaterra, tanto que pouco tempo depois aconteceram as invasões francesas. E os balões [tripulados] tiveram origem nos irmãos Montgolfier, embora tivesse começado com Bartolomeu de Gusmão, o próprio Lunardi vinha do centro da Europa com balões e ainda por cima era maçon, não foi muito bem visto”, explicou ao mediotejo.net.

No início do século XX “aparecem os aviões e aí os balões deixam de ter a importância que tinham anteriormente. Já com o padre Bartolomeu de Gusmão não se deu muita importância, o próprio rei D. João V achou muita graça [à passarola] mas foi entendido como uma brincadeira, mais tarde percebeu-se a importância dos aerostatos. Talvez pela nossa maneira de ser!”, afirmou. “Já Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães… não sei se há este fatalismo de desconfiarmos do que vem de fora ou de algo mais inovador”, brincou.

1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, em Ponte de Sor. A capitão Luísa Abreu. Créditos: mediotejo.net

Quanto ao facto de Portugal desvalorizar a primeira ascensão tripulada sobe solo português Mário Madeira atribui a causa à novidade da descoberta.

“Só recentemente se descobriu que foi a primeira viagem aérea porque no meio aeronáutico muita gente desconhecia que a primeira viagem tivesse sido de Lunardi. Muitos atribuíam a Gago Coutinho, à pequena viagem [com um Blériot XI pilotado pelo francês Julien Mamet, que descolou] do Hipódromo de Belém em 1910, e esta estava completamente esquecida. Viemos dizer que existe há já 225 anos”.

A capitão da Força Aérea Portuguesa, Luísa Abreu, trouxe ao auditório do CAC a participação nacional da aviação militar no teatro de guerra europeu que permitiu colher ensinamentos. Falou da experiência operacional dos 13 aviadores militares portugueses integrados em esquadrilhas de aviação francesa na Primeira Guerra Mundial que contribuíram para a evolução da aeronáutica militar portuguesa, entre eles o tenente Santos Leite, o tenente António Sousa Maya e o capitão Óscar Monteiro Torres.

O fim da Primeira Guerra Mundial marca o nascimento da aviação comercial. O Campo Internacional de Aviação em Alverca foi “o único e primeiro aeródromo que vai servir o tráfego internacional durante 17 anos, até 19362 sendo considerado o primeiro aeroporto internacional português, explicou Luísa Abreu. Lourenço Henriques-Marques também abordou a história daquela infraestrutura aeronáutica em Alverca para falar sobre o Campo Internacional de Aterragem (1919-1936).

1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, em Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Por último, destaque para o projeto “Lusitânia 100 Anos” apresentado por João Moura Ferreira, presidente da direção da associação com o mesmo nome. Um projeto que começou há 8 anos, ou seja 10 anos antes da data que pretende assinalar em 2022: o centenário da travessia aérea do Atlântico Sul por Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

Pretende recordar e homenagear, quer o feito da Travessia, quer as pessoas de Sacadura Cabral e de Gago Coutinho, acreditando que “na base das grandes realizações estão pessoas simples, mas com grande empenho pessoal e com formação adequada. São esses exemplos que queremos divulgar. E queremos inspirar jovens, em Portugal, Cabo Verde e Brasil”, disse.

Celebração dos 100 anos de aviação em Ponte de Sor. Espetáculo Night Glow. Créditos: Flávio Catarino

Em Portugal, o projeto tem três componentes: técnico – projetar e construir uma cópia voável de um dos aviões da Travessia, um Fairey III D, cujo original está no Museu da Marinha, em Lisboa; cultural – ao divulgar a Travessia e a vida de Sacadura Cabral e de Gago Coutinho “passando pela divulgação do projeto em conferências e pela publicação de livros em português e principalmente em inglês. Existem poucas fontes escritas em português e em inglês nenhuma”, referiu o presidente da associação.

E ainda operacional participando, em 2022, nas comemorações do centenário da Travessia, que coincidem com as comemorações do bicentenário da independência do Brasil. O projeto estende-se também a Cabo Verde, com uma equipa local, que divulga e anima esta mensagem nas diversas ilhas.

1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, em Ponte de Sor. A capitão Luísa Abreu. Créditos: mediotejo.net

A execução do desígnio começou em 2012 para ter o seu ponto alto em 2022 no sentido de “dar a conhecer todo o trabalho que foi feito por Sacadura Cabral e por Gago Coutinho, o imenso arrojo que tiveram nessa época e que nós, 100 anos depois, temos uma noção muito clara das dificuldades que tiveram em função das dificuldades que estamos a ter. E divulgar dentro e fora de Portugal. Deixar a toda a comunidade mundial, essencialmente aos jovens, a importância do que conseguiram fazer na época que é praticamente desconhecido”, explicou ao mediotejo.net o presidente da Associação Lusitânia 100 anos.

Durante a palestra, João Moura Ferreira referiu a proeza da viagem, atualmente “muito difícil de replicar”, mesmo com as novas tecnologias, isto porque “a seu favor tiveram várias condicionantes que hoje são desfavoráveis. O avião tecnicamente estava no limite mas outras coisas ajudaram”, designadamente “a baixa velocidade” a que se deslocaram.

“Hoje se tivéssemos que fazer um voo um bocadinho mais longo, a uma velocidade maior, as dificuldades técnicas era incomportáveis. Aliás, ainda é possível fazer essa viagem nos dois extremos. Ou com um avião muito ligeiro, um ultraleve, ou com um avião muito pesado. No meio termo é muito difícil!”, assegura.

“Com um ultraligeiro conseguimos, mas não tem nada a ver com o avião histórico e um avião pesado não está ao nosso alcance. Temos de encontrar uma solução intermédia ou arranjar outra configuração daquilo que gostaríamos de fazer dentro do plano técnico e operacional”, acrescentou.

1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, em Ponte de Sor. O presidente da Associação Lusitânia 100 anos, João Moura Ferreira. Créditos: mediotejo.net

Na Travessia de 1922, tratou-se de uma proposta individual de Sacadura Cabral que a Aviação Naval e a Marinha Portuguesa apoiaram com os seus meios. “Um sonho levado à prática e essa é a grande experiência que temos para transmitir”. Ou seja, “a importância das pessoas sonharem, colocarem os pés no chão e arregaçarem as mangas, trabalharem, e conseguirem chegar mais longe. Este é o grande espírito da viagem”, vincou.

Para a construção do avião há que fazer contas, “técnicas e financeiras. Precisamos de patrocinadores e colaboração humana. Neste momento, o mais crítico é a capacidade técnica aeronáutica. Portugal não tem qualquer tradição. Temos alguns bons exemplos muito recentes mas se olharmos para o número de aviões que foram projetados em Portugal, e até construídos, no último século, os dedos de uma mão chegam e sobram”.

Em causa, para avançar com a construção do avião e terminá-lo em dois anos, está a “conseguir reunir uma equipa de projeto aeronáutico em Portugal”. Financeiramente “vai ser o grande desafio!”. Os custos são “muitos variáveis, mas ao alcance de um País”, garante João Moura Ferreira. Para o projeto cultural “não é necessário um grande investimento”, vincou, sem avançar, no entanto, quaisquer valores.

Almoço comemorativo dos 100 anos da aviação em Ponte de Sor. Orquestra Ligeira da Câmara Municipal de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

A encerrar o 1º Encontro da História da Aeronáutica em Portugal, estiveram Ana Isabel Silva e Carlos Manuel Faísca para falar sobre a criação do Campo de Aviação de Ponte de Sor (ver  ‘Ponte de Sor assinala um século de aviação no concelho’) e a estreia do filme produzido pelo Município, intitulado ‘O Passado e o Futuro, Hoje’ , utilizando personagens e músicas da saga ‘Guerra das Estrelas’.

Seguiu-se depois um almoço comemorativo dos 100 anos da aviação em Ponte de Sor, na sala com o maior mosaico de rolhas de cortiça do mundo, contando com a música da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal de Ponte de Sor.

As condições de segurança obrigaram a cancelar as viagens de balão, devido ao vento, integradas no Festival Internacional de Balões de Ar Quente, durante a tarde, À noite o Campo da Restauração acolheu o espetáculo Night Glow, espetáculo apreciado por muitos visitantes.

Fotogaleria de: Flávio Catarino

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