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Ponte de Sor | Grupo francês produz capacetes de voo e máscaras de oxigénio para pilotos de aviões supersónicos

A U-Aerospace produz em Ponte de Sor máscaras de oxigénio para pilotos de aviões supersónicos de todo o mundo, da Ásia ao Canadá. E está a expandir para a área de capacetes de voo que espera iniciar produção este ano 2021, também em Ponte de Sor, onde o grupo francês Ulmer quer continuar a investir. O mediotejo.net foi conhecer a jovem equipa desta fábrica no Alto Alentejo.

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Em que pensamos quando ouvimos falar de máscaras de oxigénio e de aeronáutica? Provavelmente nas máscaras que podemos encontrar num compartimento acima da nossa cabeça quando viajamos de avião. Daquelas que podem ser ativadas durante um voo e sobre as quais ouvimos explicações da tripulação.

Mas não são essas máscaras de oxigénio que a U-Aerospace produz em Ponte de Sor. É verdade que a fábrica instalada no aeródromo municipal tem o seu modelo de negócio centrado no ar, nas altitudes elevadas e nos níveis de oxigénio muito baixos, contudo os destinatários dessas máscaras de oxigénio são os pilotos de aviões supersónicos.

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De onde? “De todo o mundo menos de Portugal”, diz Rita Velez, diretora financeira da empresa do grupo francês Ulmer Aeronautique justificando que o nosso país “compra atualmente aos norte-americanos”.

U-Aerospace produz em Ponte de Sor máscaras de oxigénio para pilotos de aviões supersónicos de todo o mundo. Créditos: DR

A empresa francesa, com mais de 80 anos, está agora a expandir para a área de capacetes de voo, já contando em Portugal, com 20 capacetes de helicóptero a voar com as tripulações do INEM, e muitos outros no mundo inteiro. Em 2021, espera ver nascer fisicamente em Ponte de Sor a LD Helmet, num investimento superior a um milhão e meio de euros “só em equipamentos”, explica Rita, para fabricar “capacetes de aviação” destinados a pilotos de alta performance “feitos em compósito.

O primeiro capacete totalmente novo, 200 gramas mais leve no caso dos caça” em relação aos existentes no mercado, ou seja, a pesar cerca de um quilograma, diz por sua vez João Barbosa, engenheiro aeronáutico e diretor técnico da U-Aerospace.

Neste momento são fabricados em Itália e Suíça porque a LD Helmet “ainda não tem instalações. Existe apenas no papel”. Inicialmente, “o negócio era para ser instalado aqui [na U-Aerospace] mas cresceu tão rapidamente que já não temos espaço e necessitamos de outra linha, com instalações muito maiores”, refere Rita Velez descrevendo os capacetes como “uma inovação a nível mundial” tendo em conta que “um capacete totalmente novo não existe há 30 anos. O que existem são updates do desenho inicial”, dá conta.

U-Aerospace produz em Ponte de Sor máscaras de oxigénio para pilotos de aviões supersónicos de todo o mundo. Créditos: DR

Por seu lado, João Barbosa acredita que “pelo feedback de ex-pilotos” os capacetes a produzir pela LD Helmet “poderão atingir, pelo menos, o nível dois” como produtor mundial.

As máscaras de oxigénio são então anexadas aos capacetes. Quando a ideia surgiu, “no espaço de um ano meio o protótipo já estava presente em todas as feiras internacionais com os capacetes certificados para aviação de alto desempenho e para pilotos de helicópteros de busca e salvamento. Agora os capacetes têm de passar à industrialização”, afirma João Barbosa.

O engenheiro aeronáutico João Barbosa na fábrica de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Tudo começou em 2016. O saber já existia em Ponte de Sor, estabelecido pela extinta fábrica de aeronáutica Dyn’Aéro Ibérica que entrou em “lay-off” (suspensão do trabalho) parcial a 06 de julho de 2010, tendo sido decretada a sua insolvência pelo tribunal em 2013.

“Foi a génese! Ao ter 70 operários, criou know how, ficou a semente. Existe por isso um espírito industrial em Ponte de Sor. É raro no Alentejo e é muito importante em termos sociológicos” defende Rita Velez justificando a escolha desta cidade do alto Alentejo para a instalação da fábrica, tendo havido uma deslocação industrial, embora não total, de Paris para Ponte de Sor.

Richard Françoise, CEO da U-Aerospace (Ulmer), ex-piloto de caça Jaguar da Força Aérea Francesa, gostou tanto da ideia que se mudou com a família para Portugal.

Em setembro de 2017 decorreu a implementação da fábrica no aeródromo, tendo em conta três variáveis que contribuíram para o investimento como “a existência de pessoas de confiança da região, disponibilidade de mão de obra e a responsabilidade dos trabalhadores – incluindo jovens – e as facilidades municipais”, enumera Rita Velez.

No aeródromo de Ponte de Sor, a empresa U-Aerospace fabrica então máscaras de oxigénio para pilotos de caças, pilotos de transporte e pilotos de helicóptero ou utilizando uma linguagem mais técnica: produtos de proteção fisiológica para tripulação aérea e dispositivos estratosféricos de alta performance, com elevados requisitos de qualidade.

U-Aerospace produz em Ponte de Sor máscaras de oxigénio para pilotos de aviões supersónicos de todo o mundo. Créditos: mediotejo.net

Ou seja, equipamentos técnicos de oxigenação para tripulações de aeronave e paraquedismo a alta altitude, equipamentos de teste para o controlo desses equipamentos, equipamentos de teste de áudio para capacetes e máscaras de oxigénio e todos os equipamentos relacionados com esta atividade, bem como rádios para equipas de porão e de paraquedismo e sistemas de navegação para paraquedistas.

Contrariamente a grande parte das empresas, a covid-19 não enfraqueceu o negócio “apesar dos constrangimentos” e desde o início da pandemia a U-Aerospace aumentou os níveis de produção.

“Porque tivemos de acelerar as transferências de tecnologia, feitas gradualmente de França, e depois pela natureza do trabalho que temos desenvolvido, de muito boa qualidade”, explica João. E aumentou ainda a equipa contratando “mais seis trabalhadores contando neste momento com 19”, revela o responsável.

“Nunca parámos a laboração durante a pandemia, e neste momento temos uma pessoa em teletrabalho”, acrescenta Rita Velez.

As equipas demoram a construir, muito por causa da formação necessária que a empresa tem de providenciar. Encontrar jovens com formação específica na área “é um problema! E por isso temos um limite, duas pessoas no máximo recrutadas de cada vez. Demoram meses até ficarem autónomos. A aeronáutica exige altos níveis de segurança, qualidade e trabalho muito minucioso. A contratação passa muito pelos testes de aptidão da destreza manual que fazemos. A robotização é quase impossível”, explica o engenheiro aeronáutico.

U-Aerospace produz também em Ponte de Sor “bancos de ensaio”. Créditos: mediotejo.net

Segundo João Barbosa, atualmente a U-Aerospace faz “a submontagem de seis componentes (traqueia, cordão de comunicação, concha, a máscara que tem lá dentro um microfone, uma válvula de expiração). Fazemos os subconjuntos da máscara de oxigénio que mantém vivo o piloto em certas condições” num número entre 3 mil a 4 mil por ano, num volume anual de negócios que ultrapassa um milhão de euros, com expectativa de “crescimento”.

O engenheiro indica que a empresa terá também este ano 2021 “uma linha de máscaras para o Airbus A400”, uma máscara mista militar e civil. Além disso fabricam em Ponte de Sor “cordões de comunicação e traqueias confecionadas”, estas últimas para paraquedistas.

Uma das máscaras que montam naquele aeródromo do norte alentejano “é para um caça de 80 milhões de euros, o francês Rafale. É um componente de segurança tão importante quanto todos os outros. Os aviões mais pequenos não são pressurizados e com altitude a pressão e a quantidade de oxigénio na atmosfera começa a descer. Torna-se, a partir de pouco mais de dois quilómetros de altitude, a ser desconfortável respirar e subir cada vez mais torna-se impossível. Gostamos de pensar que contribuímos para a defesa internacional”, acrescenta.

U-Aerospace em Ponte de Sor. Ficha de interface de comunicação para capacete de pilotos Airbus A400. Créditos: DR

Consideram ser “um projeto de sucesso” pelo “nível de trabalho, da mentalidade de grupo que tentamos implementar, da responsabilização e dos operadores encaixarem esse espírito. Tem contribuído para que consigamos avançar dentro do ótimo” afirma João Barbosa dando conta de uma média de idades dos trabalhadores na ordem dos 25 anos.

Curiosamente, a equipa conta com a ajuda da Milu, uma cadela que o engenheiro encontrou abandonada na estrada que liga a cidade de Ponte de Sor à vizinha cidade de Abrantes e que hoje é a mascote, tendo “a função” de apoiar emocionalmente e aliviar os níveis de stress dos trabalhadores.

A equipa da U-Aerospace no aeródromo de Ponte de Sor. Créditos: DR

João Barbosa revela ainda “à vontade” no desenvolvimento de “moldes e gabaritos, apoio à produção” que possam ajudar a melhorar a qualidade do produto. Basicamente são dois os termos chave da produção “não só aeronáutica” garante, isto é, “a repetibilidade, um processo de modo a que seja sempre feito da mesma maneira. E a rastreabilidade para saber de todos os lotes de matéria, dos componentes que montamos. Tudo é registado” cumprindo os requisitos obrigatórios da aeronáutica.

O grupo francês Ulmer Aeronautique tenciona, então, iniciar o novo projeto de produção na área da aeronáutica durante o próximo ano, propondo-se criar “30 postos de trabalho” para a fabricação de capacetes, sendo contudo, essa contratação, “de forma gradual”.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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