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Sexta-feira, Setembro 24, 2021

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Ponte de Sor | A água canalizada chegou (finalmente) a Ribeira das Vinhas

Ribeira das Vinhas era o último aglomerado populacional do concelho de Ponte de Sor sem rede de abastecimento público de água. O mediotejo.net foi ver como muda a vida de quem até agora não podia contar com este serviço básico no seu dia-a-dia.

“Vem tarde uns 40 anos… E se fez falta!”, critica José António, 59 anos, um dos 38 residentes fixos de Ribeira de Vinhas, na Freguesia de Galveias, em Ponte de Sor. No passado, recorda, o seu pai “bateu-se muito pela água canalizada”. Que se lembre, desde o 25 de Abril que a população reclamava água nas torneiras, e refere a Comissão de Moradores que surgiu na altura e conseguiu “trazer a eletricidade e fazer caminhos”. Mas a água… essa não havia maneira.

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“Esta povoação chegou a ter 330 pessoas… mas a política… A ‘menina bonita’ do concelho é Montargil. É uma pena!”, lamenta este morador, dono de uma oficina ao lado da escola primária da aldeia, lembrando que “havia uma norma da CEE que obrigava a implementar nas povoações água canalizada”, mas que  disso “o presidente da Câmara não quis saber”.

Por isso diz que a povoação “está muito atrasada em relação ao resto do concelho”, notando que Ribeira das Vinhas também é parca em asfalto… “É difícil lidar com as pessoas lá de cima!”

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José António reconhece que a água da rede pública faz muita falta mas diz que chega com 40 anos de atraso. Créditos: mediotejo.net

Casos como o de Ribeira de Vinhas são já raros a nível nacional, onde a cobertura de abastecimento público atinge os 96%, segundos dados do Instituto Nacional de Estatística, relativos a 2019. Ribeira de Vinhas aglomera um conjunto de antigos pequenos montes, como Vale de Junco, Vale das Missas, Vale Formoso, Caniceira, entre outros, e tem a sua população bastante dispersa. E são localidades como esta que foram ficando para trás.

Foi possível terminar esta obra em maio de 2021 porque o Município de Ponte de Sor assumiu em 2018 a gestão da rede de abastecimento público de água da Freguesia de Galveias, “que até essa data era gerida pela própria Freguesia. Houve resistência de alguns dos executivos dessa Junta de Freguesia relativamente à transferência de responsabilidades, em matéria de gestão de água” para o Município, disse ao nosso jornal o presidente da Câmara de Ponte de Sor, Hugo Hilário.

Abastecimento Público de água chega a Ribeira das Vinhas. Créditos: mediotejo.net

“Logo que assumimos essa responsabilidade, comprometemo-nos junto de uma pequena comissão de moradores dessa zona que diligenciaríamos no sentido de levar a rede pública de abastecimento de água a esse lugar”, diz Hugo Hilário.

A rede de distribuição de água da Freguesia de Galveias foi renovada de forma “quase integral” através do furo do Queimado, explica a autarquia, com fundos comunitários obtidos pela empresa intermunicipal de Águas do Alto Alentejo, constituída em setembro de 2020.

Para levar água à aldeia investiram-se 240 mil euros e a conclusão da obra foi celebrada a 22 de maio, junto à antiga escola primária, um edifício que se destaca ao longe dada a altura da sua torre e a alvura das paredes brancas debruadas a azul. 

Inauguração do abastecimento público de água em Ribeira das Vinhas, em Ponte de Sor. Créditos: CMPS

A escola foi perdendo vida ao ritmo a que as pessoas foram abandonando Ribeira das Vinhas. Ao longo das últimas décadas, a falta de água foi levando muita gente a desistir de ali fixar residência. Ficaram os mais velhos, e só ao fins-de-semana o número de pessoas aumenta, umas vindas dos locais onde habitam durante a semana de trabalho para dormir e outras para usufruir de uma segunda habitação ou matar saudades das raízes rurais.

“Há pessoas que vivem na vila de Galveias e têm em Ribeira das Vinhas pequenos terrenos onde fazem a sua horta”, explica ao mediotejo.net a presidente da Junta de Galveias, Fernanda Bacalhau.

No passado, aquele vale é que abastecia, com as suas hortas, o mercado de sábado e toda a freguesia.

A água da rede pública “era uma aspiração e uma necessidade antiga das pessoas”, reconhece Fernanda Bacalhau, embora explique que “muitos residentes tinham já o seu abastecimento através de poços e furos, pois o vale é muito fértil em água”. Mas acrescenta que “a água canalizada é um bem que chega às pessoas, às casas e aos povoados por via da intervenção dos poderes públicos centrais. É uma competência do poder público central que em alguns casos tem feito alguma descentralização ou desconcentração dessa competência. Muitas vezes os municípios assumem por si uma competência que é central”, explicou.

Abastecimento de água em Ribeira das Vinhas fazia-se com recurso aos poços, nascentes e furos. Créditos: mediotejo.net

Independentemente das questões da competência, a chegada do abastecimento público é um momento histórico que não menoriza. “Em pleno século XXI não faz sentido que haja casas de habitação que não tenham os bens essenciais, e esses são: água canalizada, eletricidade e um certo conforto que permita qualidade de vida às pessoas, estejam a viver em espaços populacionais mais condensados ou mais dispersos. Ribeira das Vinhas de facto é um espaço de habitação muito dispersa mas as pessoas não deixam de ter as mesmas necessidades e a mesma aspiração legítima. Finalmente conseguiu-se resolver o problema… Ainda bem!”

A presidente da Junta de Freguesia de Galveias, Fernanda Bacalhau. Créditos: mediotejo.net

Florbela Garcia é uma das residentes que sempre teve água em casa, desde que se lembra – dos poços, dos furos, das fontes. Tem 86 anos e vive em Ribeira das Vinhas desde os dez. Foi o seu marido, Manuel Ferreira, atualmente reformado da sua profissão de motorista de longo curso, que “arranjou tudo” na sua casa, desde uma nascente muito pequenina. “Primeiro foi o meu pai, depois foi o meu marido”, conta.

Mas agradece que finalmente a água da rede pública tenha chegado à sua povoação, porque “é melhor”. A água captada “dos poços que se abrem nas terras nunca bebemos, era só para os gastos da casa. Para beber íamos às fontes de água boa, que ainda há algumas por aí”, explica.

Florbela Garcia já tem a caixa da canalização à entrada de casa mas nem tudo está resolvido. Agora não consegue um canalizador para lhe levar a água para dentro. “Não há! As pessoas não se podiam governar aqui e foram-se embora…”, diz num lamento, vendo a água à porta, como uma miragem, depois de tantos anos de espera.

 

Notícia retificada no dia 13 de agosto de 2021 no sentido de esclarecer sobre as posições e competências das autarquias quando ao abastecimento público de água.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 COMENTÁRIO

  1. Finalmente! Com 40 anos de atraso, é verdade. E já 20 decorridos do séc. Inconcebível!
    É um facto que a dispersão dos habitantes é uma dificuldade, mas como se viu, foi ultrapassada.
    Entretanto há que assinalar que as (algumas) pessoas criticam o presidente da câmara e, como se vê no corpo da notícia, a culpa era da Junta em Galveias, que teve mesmo assim travões até ao fim.
    Contudo ainda subsiste um problema-travão maior: a água à porta, sem canalização no interior por falta de mão de obra. Terão que ser chamados profissionais de fora. Todos terão dinheiro para pagar essa obra, ou o benefício é só para os mais ricos e fica eternamente à porta dos mais pobres????!!!!!

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