- Publicidade -
Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
- Publicidade -

“Polvo”, por Armando Fernandes

Não, nada disso, o leitor não irá ler opiniões e motejos sobre o polvo e seus filhos associados a tramoias e golpes financeiros, prosaicamente trago a terreiro aquele molusco de oito braços, daí ser chamada octópode, enquanto vivo a provocar gritinhos nas meninas casadoiras caso um dos seus braços se enrosque nos seus níveos ou morenos suportes das mãos.

- Publicidade -

Como escrevi numa crónica saída no mês de Agosto passado, polvos monstruosos povoam a literatura, o cinema, as representações pictóricas, na adolescência impressionou-me um polvo gigantesco saído da imaginação de Júlio Verne fecundo escritor praticamente desconhecido nos dias de agora.

A cabeça do polvo possui um bico córneo, os tentáculos as «arrepiantes» ventosas, a sua carne branca e fina enriquece numerosas criações culinárias. É aconselhável a ser previamente bem batida, depois branqueada, a seguir preparada de igual modo à do lavagante, asseguram os grandes chefes. As mulheres Mestras da ruralidade portuguesa afastadas do brilho dos chefes, também assentam violentas batidas nos polvos, a seguir ousam trabalhá-los nas várias cozeduras, desde assados a guisados, implicando-os ainda nas frituras, nos estufados, até nas grelhas, a sós ou em companhia de fungos, frutas, legumes, tubérculos e raízes.

- Publicidade -

No Norte os polvos fritos em polme delicado deram e dão fama as múltiplas casas de comeres, no Centro e Sul assados e em caldeiradas, no Sul as suas ovas são muito apreciadas, nos Açores é grande a fama de polvo guisado em vinho de cheiro (morangueiro), pessoalmente, nada tenho contra uma das sete cozeduras, apenas me interessa se chega à mesa bem preparado.

Em Cabo Verde, na ilha de Santiago, ganhei graves momentos de prazer ao degustar rabos de polvo estufados num molho de magníficos aromas e sabores na companhia de arroz branco. No Gabão impera a cozinha de estirpe francesa, por isso o polvo à Provençal é iguaria nos restaurantes de maior categoria da capital. Mais perto, sugiro uma escapa até à Galiza, nessa região o polvo é marca comestível emblemática. Álvaro Cunqueiro e Pepe Iglésias salientam-se como autores de obras onde o polvo é elogiado na qualidade de alimento de pobres e ricos, especialmente na sua fórmula mais prosaica, o polvo à moda da feira.

Nesses ajuntamentos de pessoas com o intuito de comerciarem, o polvo aparecia sobre as mesas de ocasião cortado às rodelas, a ressumar alguma água em escudelas de madeira, tenro, polvilhado com grãos de sal e pitadas de colorau. Uma pitança de primeira grandeza a suscitar vinho seivoso procedente dos parrais galegos. Por cá encontramos o polvo à moda da feira nos restaurantes especializados em comida espanhola e casas de tapas. É tudo uma questão de procurar.

Deixo de lado outras peregrinações polveiras, vou degustar filetes de polvo frito em amigável casamento com arroz e com feijão vermelho. Antes, uma salada de pontas de polvo em vinagreta. E espero que me aproveite.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome