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Sábado, Julho 24, 2021

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“Políticos e críticas, maturidade e cansaço”, por Hália Santos

O que pode um político fazer? Mais ainda: o que não pode um político fazer?

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Isso é conversa para durar uma eternidade! Porque o que acontece, quando se discutem essas questões, é que os argumentos apresentados são, eles próprios, política!

Como assim?

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Ora, depende sempre de que lado é que estás! Se o político é dos ‘teus’, defendes o que faz e justificas o que não faz. Se é dos ‘outros’, atacas o que faz e criticas o que não faz.

Isso é extremamente preocupante, essa incapacidade de as pessoas analisarem as coisas com distanciamento.

Na verdade, é uma das coisas que mais me incomoda: os julgamentos que fazemos dos outros, sem querer perceber todo o enquadramento, sem tentar ver as coisas por diferentes ângulos. Somos muito rápidos nos ataques e demasiado lentos na tentativa de compreensão dos outros.

Estás a pensar nas férias do primeiro-ministro quando o país está a ‘arder’, do ministro que assume responsabilidades, mas não se demite, e da ministra que se emociona quando presta contas?…

Às vezes não percebo como é que consegues ler os meus pensamentos!

Lembras-te das irmãs que quando jogavam Pictionary irritavam toda a gente?

Claro que lembro! Uma desenhava um risco e a outra via um crocodilo. Uma levantava a mão acima da cabeça e a outra dizia ‘arranha-céus’. Mais ninguém no mundo conseguiria ver um crocodilo naquele risco nem um arranha-céus naquele gesto. Mas elas viam. E acertavam quase sempre, para desespero dos outros jogadores.

Aqui é ainda mais profundo. Não admira que eu saiba onde queres chegar.

Pois, todo o sururu em volta das atitudes dos nossos governantes leva-me a pensar sobre o que é realmente importante. Bem sei que as pessoas gostam de ver cabeças a rolar, gostam de ver gente a ser bombardeada, gostam de atacar na primeira oportunidade. Mas o que resolve, efetivamente, este tipo de atitude?

Nada! É política…

Eu até acho que é muito mais do que isso. É muito português, esse jeito de estar pronto para a crítica.

Mas a ironia é que, quando devem criticar, denunciar, chamar a atenção ou reclamar, raramente o fazem. Estou a falar daquelas situações do dia a dia.

Engraçado fazeres essa ligação. Acabei de ler uma crónica do Miguel Esteves Cardoso que aborda isso, embora de uma outra forma. Conta o episódio de uma má refeição que lhe foi servida num restaurante: “Não toco mais na caldeirada. Pago a conta e vou à procura doutro sítio para almoçar. Dantes, quando a vida ainda me parecia comprida, queixar-me-ia. Agora, está quieto. Não vale a pena uma pessoa zangar-se. Desabafar só funciona com quem nos entende.”

Serão fases da vida, talvez. Amadurecemos. E com a experiência de vida aprendemos sobretudo a relativizar as coisas. Um mau serviço deve ser criticado. Faz parte dos direitos do consumidor. Por isso há livros de reclamações, por isso os comerciantes honestos tentam repor a situação. Tal como o Miguel Esteves Cardoso, muitas outras pessoas começam a cansar-se de o fazer. Porque parece que quem está do outro lado não pode ou não quer entender.

Talvez as pessoas estejam cada vez mais certas dos seus argumentos e menos tolerantes para sequer ouvir o outro.

Também me parece. Mas, voltando à política, o problema também passa pela memória. É que rapidamente se é apanhado a defender uma coisa e, tempos depois, o seu contrário.

Com tanta aplicação para telemóveis, deveriam criar uma que fosse uma espécie de grilo falante para cada um de nós, político ou não, para nos alertar: “Cuidado, já disseste precisamente o contrário quando estavas noutra posição!”

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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