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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

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“Pilão”, por Armando Fernandes

As conversas são bem mais estimulantes do que as cerejas. De palavra em palavra damos a volta ao Mundo num ápice, ou saltitamos de tema em tema originando considerações inusitadas. Num bate palavras sobre o glorioso Benfica, aludi à sua glória porque digam o que disserem será sempre o glorioso mesmo quando perde de modo miserável surgiu a oportunidade de falar no lendário massagista Mão de Pilão.

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A explanação da destreza de mãos a massacrarem e massajarem os músculos do José Águas (ainda bebi umas cervejas na sua companhia na Sete Mares), do Costa Pereira, do temível Ângelo, do varre terreno Saraiva, do subtil Germano e por aí fora, do brasileiro vindo através do treinador Oto Glória (espero bem que os benfiquistas mais novos deste jornal saibam quem foi este homem, bem como os restantes) acabou no facto do seu nome «artístico» lembrar o ser utensílio de cozinha empregue em almofarizes não versão europeia, e em madeira, bem maiores, no continente africano.

Os almofarizes podem ser produzidos em toda a casta de materiais, na Idade Média prevaleciam os de metal, os de metais preciosos lavrados artisticamente imperavam nas cozinhas do alto clero e nobreza, os de outros metais nas casas menos abonadas, mesmo assim as de rendimentos capazes de suscitarem o uso dos ditos utensílios. Os pobres e os pobres de pedir contentavam-se em usar os molares na trituração dos alimentos, caso fossem muito duros os seixos e outras pedras encontravam-se à mão de semear, como quem diz à mão de baixar e apanhar.

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Em África o pilão de madeira tem o cabo mais comprido, numa das extremidades é composto de duas peças com uma cabeça arredondada e um cabo. É muito utilizado na continuada maceração do sorgo e outros cereais.

Os pilões destramente empregues esmigalham e reduzem produtos de natureza variável caso de alhos, amêndoas, nozes, pinhões, pevides, sementes, até salsa e louro. Como as leitoras conhecem e utilizam pilões para purés de cabo mais comprido terminando numa grande cabeça de madeira bem dura, buxo ou faia, por vezes de metal perfurado. Porque as leitoras conhecem as suas virtudes dispenso-me de as enumerar. As que não sabem façam o favor de estudar.

O dito Mundo deu milhentas voltas, os massagistas continuam a operar no mundilho do futebol só que inseridos numa estrutura complexa e refinada. Olha se os craques dos anos cinquenta e sessenta, a começar pelo maior de todos, o Eusébio, dispusessem das condições de agora?! O Ronaldo perdia no confronto, nada mais, nada menos!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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