“Pichel”, por Armando Fernandes

De barro, de faiança, de estanho, o pichel pontificava na maior parte das casas portuguesas. O progresso científico e técnico desferiu enorme estocada nesta operativa medida de capacidade tão útil no dessedentar  miúdos ou graúdos, meninas louçãs a roerem um bocadinho de barro do mesmo (Estremoz, Niza, etc.) a fim de polirem os dentes deixando-os reluzentes provocando invejas e admirações. Os homens preferiam beber vinho deixando às mulheres o encargo de exibirem dentaduras perfeitas e atraentes.

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Os pichéis, por norma, ainda em uso nas casas de comeres, mesmo em restaurantes, servem vinhos regionais de qualidade mediana, água e pouco mais em virtude da grande transformação operada no engarrafamento e transporte de bebidas, no entanto, uma limonada vinda num pichel de barro significa conservar a frescura inicial.

No tempo em que deambulava por todo o lado degustei vinhos generosos (vinho fino) retirados dos tonéis e apresentados em pichéis de estanho finamente trabalhados que apetecia pedia a sua dádiva ao anfitrião.

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A Senhora doutora Carolina Micaélis de Vasconcelos deixou-nos aturado estudo sobre púcaros e pichéis onde destaca as qualidades dos barros alentejanos cujos pichéis recebiam mimosas mordiscadelas em face da fama de serem odontologias naturais.

Escrevo esta crónica no intuito de recordar às leitoras e leitores os ditos pichéis na esperança de quem me lê retirar do baú ou arca de velharias possíveis exemplares de um utensílio de cozinha e mesa varrido do nosso quotidiano substituído por vidros e plásticos.

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O mesmo apagamento está a acontecer ao vasilhame de madeira, não passando de uma saudade as cabaças tão baratas e tão boas transportadoras de vinho nos trabalhos agrícolas.

Estes exemplos de vetusto património que corre sérios riscos de desaparecimento evidencia quão enorme é o prejuízo cultural para as Comunidades o continuado desinteresse de quem devia estar interessado na sua preservação.

Eu sei, muitos de nós sabem, falar em pichéis, cabaças, os copos de madeira, apenas provocam sorrisos trocistas aos burocratas da cultura e filistinistas correlativos preferindo a envernizada pseudo-cultura da moda ou momento. Voltarei ao tema!

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