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Quinta-feira, Setembro 16, 2021

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“Pessoas primeiro que as fronteiras”*, por Helena Pinto

Ensinamos aos nossos filhos e filhas que a vida humana é um valor que deve ser sempre defendido, que se deve ajudar o próximo, que essa ajuda não deve depender de julgamentos prévios ou de qualquer ideia que tenhamos sobre quem necessita dessa ajuda. E vamos mesmo mais longe quando dizemos que todos e todas temos os mesmos direitos. Existem mesmo muitas histórias infantis que trazem esta ideia como “moral da história”. Isto para não falar de quem defende valores religiosos. Se pensarmos nas pessoas que defendem o que atrás disse facilmente chegamos à conclusão que é a maioria da humanidade. Seremos então, maioritariamente, “gente boa”.

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E por muito que queira acreditar que assim é, que maioritariamente somos no mundo inteiro gente boa, há momentos em que tudo se desmorona e parece que a maldade venceu.

A História da Humanidade, incluindo a que se faz neste nosso tempo, está cheia de demonstrações das terríveis práticas de seres humanos contra seres humanos para colonizar, para exterminar os “mais fracos”, para evangelizar, para eliminar quem pensa e vive de maneira diferente, para dominar, por interesses geo-políticos, por interesses económicos. Mas aceitar que em pleno século XXI, na Europa, o Parlamento Europeu, em democracia, reprove uma resolução que se destinava a criar “mecanismos para a defesa de vidas no Mediterrâneo, com reforço das operações de salvamento e criação de mais corredores legais para acolher migrantes” torna-se impossível.

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E saber que essa resolução não foi aprovada por 2 votos e que entre os deputados portugueses dois votaram contra e outro se absteve** – torna-se insustentável não denunciar quem assim trata a vida humana.

Usem os argumentos que quiserem, dos mais estapafúrdios como aqueles que dizem que está em marcha uma invasão da Europa, aos mais cínicos como aquele que Nuno Melo utilizou dizendo que é preciso distinguir entre “migrantes e refugiados”, há uma verdade insofismável – o Mar Mediterrâneo tornou-se um cemitério e os campos de refugiados são a vergonha da Europa, com gente a morrer de frio e sem as mínimas condições de sobrevivência.

Que Europa é esta? O Velho Continente que dá lições ao mundo, as democracias mais antigas, onde estão? Quem governa a Europa prefere dar dinheiro à Turquia para reter as ondas de refugiados, não lhe interessa saber o que se passa, atira com dinheiro. Que inoperância e incompetência é esta de uma União de países desenvolvidos e ricos que é incapaz de acolher quem aqui chega porque é perseguido e corre perigo de vida no seu país ou porque tem fome, ou porque quer um futuro para os seus filhos e filhas? Quem consegue nada fazer contra a criminalização da ajuda humanitária?

A extrema-direita celebrou este resultado efusivamente no fim da votação mas, como diz Marisa Matias “a extrema-direita não tem maioria no Parlamento Europeu, para celebrar efusivamente esta “vitória”, precisou dos votos favoráveis dos que se chamam democratas cristãos, precisou que a direita democrática parlamentar lhe fizesse o favor de poder celebrar a morte.”

A que mais teremos que assistir até que seja possível colocar as pessoas à frente das fronteiras?

*Tradução livre do nome de uma ONG humanitária “Humans before borders” – https://www.facebook.com/hubb.humansbeforeborders/

**Álvaro Amaro (PSD) e Nuno Melo (CDS) votaram contra a resolução e José Manuel Fernandes (PSD) absteve-se.

 

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Tem 58 anos e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda de 2005 a 2015. É atualmente Vereadora na Câmara de Torres Novas.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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