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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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“Pessoas”, por Berta Silva Lopes

Guilherme, Adriana, Elisa, Diamantino, Tomásia, Silvestre. Já partiram todos, mas nenhum deles morreu em mim. Foi por isso que fui inscrevendo os seus nomes nesta folha, aberta quase todas as semanas, para sobre eles poder ir preenchendo os espaços da memória até que surgissem, por fim, as histórias.

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Outros há que aqui viriam parar, naturalmente, trazidos por uma qualquer lembrança de outros tempos ou simplesmente por razões que só o coração consegue explicar, não fosse ter hoje decidido terminar esta crónica, correndo ainda assim o risco de a saber injusta e incompleta.

Elisa
Aprendeu a ler e a escrever. Perante o infortúnio de perder uma irmã, e para que o investimento das duas famílias não se perdesse, foi levada a casar com o noivo desta. Da tragédia de uma morte nasceu o esboço da sua vida. Pariu e criou uma dezena de filhos e deu colo a mais de 30 netos. Foi a principal impulsionadora da construção da única capela da aldeia, da qual foi zeladora durante muitos anos.

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Guilherme
Ficaram célebres as queimadas que deixou escapar para o pinhal e o levaram várias vezes à presença das autoridades. Mais famosas são as audiências no tribunal de Mação, das quais fugia sem grande manha, para se meter a aviar copos de 3 no Mansinho. Foi negociante de gado toda a vida, sendo uma figura ímpar desta aldeia.

Adriana
Vestia quase sempre de amarelo torrado e cinza e usava lenço e saia comprida. Caminhava sozinha e desenvolta pelas ruas e carreiros da aldeia apesar da sua condição. Foi ama de várias crianças, não apenas as da sua família, e dizem que cuidava da casa com primor, o que pode causar algum espanto já que era cega.

Diamantino e Tomásia
Certo dia, não teria eu mais de 8 anos, pediu-me o meu pai que fosse às Barreirinhas levar um saco com peixe do rio ao referido casal. Foi a mulher que veio ao portão e mo abriu, expondo um grau de inconcebível (suposta) pobreza. Nesse dia voltei para casa com uma nota de 500 escudos na mão e uma forma de olhar para a dignidade humana que só mais tarde compreenderia.

Silvestre
Foi polícia em Lisboa e dono de uma venda em Queixoperra. Vendia a granel, a metro e fiado. Lojas como a dele já não há, com chitas e popelinas, tachos, panelas, enxovais completos e mercearia a disputarem o espaço e o dinheiro das jornas. Era ali que funcionava o telefone público da aldeia e não deixa de ser curioso que ali se mantenha, em frente à porta agora fechada, o banco dos velhos.

Foi a minha bisavó Elisa que me inspirou a escrever sobre todos eles, cada um por sua vez, sobre a sua manifesta normalidade, simplicidade, humildade. São histórias de gente simples, às quais, juro, não acrescentei o ponto de quem conta um conto.

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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