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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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“Pelas estórias de muitos taxistas pagam todos”, por Hália Santos

Carros de praça. Para o meu avô, os táxis eram carros de praça. Apesar de não ter carro nem carta de condução, não me parece que o meu avô tenha precisado muito deles, independentemente do nome que lhes dava. Primeiro porque raramente precisava de ir a algum lado. Depois, porque quando precisava os autocarros resolviam o problema. Que me lembre, os meus pais também nunca recorreram a táxis. Ambos tinham carta e carro, num tempo em que era relativamente fácil estacionar em todo o lado. Portanto, o carro era o transporte de eleição. Era também o carro que transportava a miudagem, quando era preciso levar a algum lado, sobretudo quando começaram a surgir as saídas noturnas. Portanto, os táxis, no meu universo de miúda eram apenas uns carros pretos com tejadilho verde, bem bonitos por sinal. Feios ficaram quando veio a mania de que teriam que ser daquele amarelo sem graça. Que bom que foi voltar a vê-los pretos e verdes, mesmo que raramente entrasse num deles.

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Os táxis passaram a fazer parte da minha vida quando, numa grande cidade, tinha que me deslocar em serviço. Era, de facto, um descanso. Quase tão bom como o carro da mãe ou do pai que me levavam aonde queria sempre que precisava. Tinha, aliás, um colega de trabalho que dizia que o melhor meio de transporte era o táxi. Transporte sem problemas, que passa nos corredores bus enquanto os restantes carros – incluindo, agora, os uber e afins – ficam a vê-los passar. Dependendo dos motoristas, a corrida podia até dar origem a uma agradável conversa. A política e o futebol, o trânsito e a vida em geral, tudo servia para discutir ideias. Eram quase sempre homens, que ouviam muita rádio e que, por isso, estavam bem informados. De vez em quando, eram eles a notícia. Como qualquer grupo profissional, também os taxistas sempre tentaram chamar a atenção da opinião pública para os seus problemas.

Problemas têm todas as classes profissionais. Só que uns têm mais capacidade de se fazer ouvir, até pelos estragos que os seus protestos fazem na vida dos outros, quase sempre de quem não tem culpa nenhuma. Mas todos, ao longo destes anos, fomos ouvindo estórias pouco abonatórias de muitos taxistas. Sabendo que uma árvore não faz a floresta, a verdade é que, sobretudo nas grandes cidades, foram-se multiplicando os episódios de taxistas que nada contribuem para valorizar a classe. Desde os que recusavam corridas pequenas, até aos que davam voltas de uma hora quando podiam chegar em dez minutos, passando pelos que fumavam nos carros sem pedir autorização, pelos que tinham o rádio aos berros e pelos que nem respondiam ao bom dia do cliente. Talvez uma coletânea de estórias destas ao longo de décadas esteja agora a ter um efeito indesejado.

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Há uns vinte e tal anos, um professor dinamarquês veio a Portugal apresentar o seu trabalho no campo do ensino profissional. O maior espanto que levou deste país foi relacionado com os taxistas: o taxista que o transportou do aeroporto até ao hotel não sabia falar inglês. Nem qualquer outra língua que não fosse português. O professor dinamarquês quis acreditar que era uma exceção. Quando percebeu que não era, ficou em estado de choque. Portugal ainda não era tão turístico como é hoje, mas, para ele, era inconcebível que alguém que recolhe passageiros num aeroporto não soubesse falar uma língua estrangeira. Já naquela altura, os taxistas dinamarqueses tinham formação que incluía Línguas Estrangeiras e História e Cultura dinamarquesas. Para aquele professor, esta necessidade de formação era tão evidente que nem concebia que um país europeu, mesmo que na cauda de tudo, não estivesse a trabalhar no mesmo sentido.

Aliás, é, provavelmente, nos aeroportos que se encontram as ‘melhores’ estórias com taxistas, desde as mais famosas, como as recusas em transportar portugueses (porque os estrangeiros, antes do Google Maps e outras aplicações, eram fáceis de enganar), até às mais elaboradas (em que levavam dois clientes de uma vez para o primeiro pagar a primeira parte da corrida e o segundo pagar a corrida toda, duplicando a cobrança sobre a primeira parte). Se sabemos destas estórias como passageiros, também sabemos de outras como condutores. Em geral, já todos os simples condutores devem ter tido pelo menos um episódio menos simpático com taxistas, como se eles fossem os únicos a saber conduzir e os únicos a ter direito às estradas.

Dito isto, convém que se diga que há taxistas que, muito antes destas polémicas com as plataformas eletrónicas de transporte de passageiros, já eram profissionais exemplares, com carros irrepreensivelmente limpos, que perguntavam ao cliente se tinha preferência por algum percurso, que não ligavam o rádio sem pedir autorização e que passavam recibo mesmo que o cliente não o pedisse. São estes em que eu penso quando chamo um uber. Gostava de chamar um desses taxistas. Mas não chamo um táxi porque nunca sei o que me vai calhar. O que sei é que em cada uber em que ando – e vou no lugar do passageiro da frente para, deliberadamente, não chamar a atenção dos taxistas – o motorista tem sempre estórias de intolerância e até de violência para contar. Disto eu não gosto. Lamento, por todos os taxistas que são excelentes profissionais, mesmo que não saibam falar inglês, mas eu não sei se voltarei a andar de táxi.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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