Quarta-feira, Março 3, 2021

Passe pela Biblioteca | “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, de Mia Couto

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, de Mia Couto, é a sugestão apresentada por Nuno Ferreira, da Biblioteca Municipal Alexandre O’Neill, em Constância. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

A nossa sugestão para os leitores do Médio Tejo é o romance de Mia Couto, publicado em 2008, intitulado “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”. O autor, de seu nome completo António Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira (Moçambique) a 5 de julho de 1953, é um dos maiores escritores de língua portuguesa vivos, tendo desde cedo começado a ter interesse pelas palavras e pela escrita, foi ao longo da sua carreira literária galardoado com inúmeros prémios literários, sendo os mais sonantes o Prémio Camões (2013) e o Prémio Neustadt (o equivalente ao Nobel do Continente Africano, em 2014).

Mia Couto teve um percurso peculiar, após os estudos iniciais na sua terra natal, desloca-se para a capital, a então Lourenço Marques em 1971 para estudar Medicina. Virá a abandoná-la no terceiro ano para se tornar jornalista, que trocará em 1985 para se dedicar aos estudos universitários, na área da biologia. É biólogo e professor de Ecologia na Universidade Eduardo Mondlane.

A sua forma de escrever e de contar histórias e contos é muito peculiar porque tenta recriar a língua portuguesa com influência da cultura moçambicana, recorrendo ao léxico das várias regiões do seu país.

A sua obra inclui poesia, os contos, o romance e crónicas, estando as suas obras traduzidas em mais de 22 países e em várias línguas. À semelhança de outros autores africanos e latino-americanos a sua obra incorpora o realismo mágico/animista, o próprio reconhece muita influência da obra do grande escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001).

A obra que vimos sugerir bebe do seu imaginário africano e desse realismo mágico, a história relata-nos a odisseia do jovem médico português Sidónio Rosa, que se apaixona por Deolinda, uma mulata moçambicana que conheceu num congresso médico em Lisboa. Abandonando tudo, Sidónio desloca-se como cooperante para Vila Cacimba, a terra natal da sua amada. Quando chega a casa dos pais de Deolinda depara-se com a sua ausência, porque supostamente se encontra a realizar um estágio, e enquanto aguarda a sua chegada, surge entre a névoa de Vila Cacimba, uma estranha epidemia que o obriga a tratar dos seus habitantes e que os transforma em “tresandarilhos” segundo o narrador, enquanto decorre a espera, vai comunicando com Deolinda por cartas que lhe chegam às mãos por intermédio de Munda (mãe de Deolinda).

O romance é marcado por temas que sempre interessaram a Mia Couto, a multietnicidade dos personagens, a sua complexidade e a construção de uma identidade, que se confunde com a construção da entidade moçambicana.

Um romance sempre pejado de referências ao imaginário mágico e fantástico e à tradição africana. Boa leitura!

Responsável pela Biblioteca Municipal Alexandre O'Neill em Constância

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).