Passe pela Biblioteca | “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector, é a sugestão hoje apresentada por Carmen Zita Ferreira, da Biblioteca Municipal de Ourém. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

No centenário do nascimento de Clarice Lispector (10 de dezembro de 1920, Chechelnyk, Ucrânia – 09 de dezembro de 1977, Rio de Janeiro, Brasil) o convite à leitura da Biblioteca Municipal de Ourém recai sobre o livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”.

O livro começa de uma forma muito original, com uma vírgula: “, estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantares prontos, dera vários telefonemas tomando providências (…)”

O narrador fala aqui de Lóri, personagem principal, professora primária, descende de uma família rica, mas que perde parte da fortuna depois da morte da mãe.

No Rio de Janeiro, Lóri conhece Ulisses, professor de filosofia e homem maduro, que lhe oferece boleia enquanto ela esperava por um táxi. O romance narra então o envolvimento amoroso entre os dois.

A obra é considerada um romance intimista, em que Lóri procura a sua individualidade no meio das máscaras usadas pelas pessoas.
Durante a narrativa, Lóri vai evoluindo, mostrando que aprender sobre o amor e o prazer resulta numa aprendizagem sobre si mesma e sobre a vida. A personagem conhece o seu eu, que estava perdido no meio de preconceitos incutidos pela sociedade no que concerne ao amor e ao prazer feminino.

“Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, uma vez que narra o processo de autoconhecimento de Lóri, é considerado por muitos como um romance de formação feminino, já que a personagem para se conhecer teve de colocar de lado a vergonha que tinha sobre o próprio corpo e os preconceitos sobre a proibição do prazer.

Deixamos aqui um pequeno trecho do livro:
“Ali em pé na semiescuridão do terraço, de repente mais suave, veio-lhe outra revelação que durou pois era o resultado intuitivo de coisas que ela pensara antes racionalmente. O que lhe veio foi a levemente assustadora certeza de que os nossos sentimentos e pensamentos são tão sobrenaturais como uma história passada depois da morte. E ela não compreendeu o que queria dizer com isso. Ela o deixou ficar, ao pensamento, porque sabia que ele encobria outro, mais profundo e mais compreensível. Simplesmente, com o copo de água na mão, descobria que pensar não lhe era natural. Depois refletiu um pouco, com a cabeça inclinada para um lado, que não tinha um dia a dia. Era uma vida a vida. E que a vida era sobrenatural.
Naquela hora da noite conhecia esse grande susto de estar viva, tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. A vida era tão forte que se amparava no próprio desamparo.”

Passe pela Biblioteca Municipal de Ourém e leve consigo, através de empréstimo gratuito, este e outros livros de Clarice Lispector. A melhor forma de comemorar o nascimento de um autor é ler a sua obra. Esperamos por si!

Fontes:
LISPECTOR, Clarice, 1920-1977 ; CARVALHO, Anabela Prates, ; DIAS, Michelle Nobre, – Uma aprendizagem : ou o Livro dos Prazeres. 2ª ed. Lisboa : Relógio d’Água, 2013. 127, [8] p.. ISBN 978-972-708-533-0
[em linha] https://relogiodagua.pt/produto/uma-aprendizagem-ou-o-livro-dos-prazeres

Carmen Ferreira
Bibliotecária na Biblioteca Municipal de Ourém. Natural de Ourém, nascida em 1974, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Ainda na FCSH concluiu em 1999 a Pós-graduação no Ramo de Formação Educacional e em 2002 a Pós-graduação em Cultura Portuguesa Contemporânea. É Mestre em Ciências Documentais, na variante de Bibliotecas e Centros de Documentação, pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, com a Dissertação “Biblioterapia aplicada a idosos: um novo desafio para as bibliotecas públicas portuguesas” (2013).

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