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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

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Passe pela Biblioteca | “Um Lugar Dentro de Nós”, de Gonçalo Cadilhe

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “Um Lugar Dentro de Nós”, do escritor Gonçalo Cadilhe, é o livro sugerido esta semana por Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Um lugar dentro de nós, de Gonçalo Cadilhe, apresentado na Biblioteca Municipal António Botto, de Abrantes, a 20 de junho de 2013, é a minha sugestão de leitura de hoje. Recupero-o porque considero o autor, não apenas um dos maiores viajantes do nosso tempo, mas também um bom escritor, o que nem sempre vem no mesmo pacote.

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goncalo-cadilheO livro começa por nos falar da primeira viagem, como a viagem da própria história. Uma viagem no tempo, eventualmente entre avós e netos, passível de se fazer numa mesma época, como viagem de contracultura.

Gonçalo Cadilhe começou nos anos setenta, na sua Figueira da Foz natal, a conhecer os viajantes que vinham a um Portugal que já não existe, isolado e desinformado do exterior. Marcado sobretudo pelos nómadas, surfistas e outros, via na viagem dos que cá vinham uma espécie de solidariedade romântica e humanista.

Possuidor de algumas das grandes qualidades do bom viajante: disponibilidade, abertura, curiosidade, simpatia e capacidade empática inexcedíveis, vê um interlocutor, num destino distante, como alguém que representa uma oportunidade sociológica.

Tornou-se escritor de viagens porque descobriu ser essa uma das melhores formas de as financiar. Desde cedo percebeu que trabalho e poupança “era nos países ricos; hedonismo despreocupado, era nos países pobres” e que o viajante deve deixar-se ir porque foi para isso que veio, para ser mudado e que a “vida leve não precisa de pesar decisões”.

Disto nos fala Um lugar dentro de nós, bem como de lugares espantosos como a Libéria – mais uma viagem pela história – onde a Conferência de Berlim (1885) desenhou países em que os cidadãos não falam a mesma língua, não têm a mesma religião e onde os territórios tribais foram cortados ao meio. Fala-nos de gente como Hilário, o trabalhador viajante, “um homem sem passado, um solitário sem raízes, um marinheiro sem terra”, e de si próprio como um viajante que absorve e regista como um colecionador de paisagens.

Percorre e entende o Afeganistão como o que sobrou da expansão dos impérios fundamentais da humanidade. Descobre que “a razão de existir do Paquistão não está dentro das suas fronteiras, está fora”. Revela que o nosso pão é o que lhe faz mais falta quando viaja.

Depois de conhecer tanta diversidade interroga-se se enquanto seres humanos é mais o que nos une ou o que nos divide. Questiona-se sobre o que é uma pátria. As suas interrogações também nos atravessam, tentando sempre que tal não aconteça com “o olhar condicionado pela sensibilidade de quem reside [… porque] uma coisa é o viajante estabelecer contactos com o autóctone, outra é entregar-se a ele”.

Gonçalo diz-nos que ainda hoje não conhece melhor forma de investir o dinheiro do que gastá-lo a viajar. “Viajar é comparar, adquirir novas perspetivas sobre a nossa realidade. Ganhamos distância sobre nós próprios, aprendemos a relativizar. Crescemos. Melhoramos. Viajar é investir no melhor que cada um traz em si”.

Fala-nos de pequenos prazeres, muitas vezes encontrados nas periferias, em que como no livro de Delerm O primeiro gole de cerveja define a felicidade como “arranjar tempo para o ócio. Cada vez que deixamos de ser eficientes, cumpridores, responsáveis, pontuais, cada vez que reformulamos as prioridades da vida e metemos o tempo à frente do dinheiro, os amigos à frente do patrão, a conversa à frente do negócio, a lentidão à frente da pressa, somos mais felizes. Talvez porque recusamos, nesses momentos, a moral ocidental do trabalho”.

Depois de ter navegado “três oceanos, sete mares, rios que são como mares, estreitos que são como autoestradas marítimas, poderosos navios, velhos cargueiros, iates fretados, boleias fortuitas, passagens pagas, beliches, camarotes, bancos de convés, tarimbas de porão. Um pouco de tudo, um pasmo imenso”, porque os momentos mais transcendentais do seu percurso foram passados a navegar, continua a fruir o mundo como uma emanação transcendente de luz, que quer absorver com uma sofreguidão visível na sua relação com a fotografia, mas em que o que gostava mesmo de fotografar era a sua própria felicidade, feita dessa luz e pureza sobre a paisagem. “Cada fotografia minha era um lugar dentro de mim”.

Acredita que uma das razões do sucesso do café expresso em Portugal é a inveja, porque uma “boa dose de cafeína torna a vigilância mais eficaz”. Da mesma maneira, acha que as massagens são tão comuns no oriente porque não sofreu a influência das “religiões dogmáticas e moralistas” que repudiam o corpo e condenam os contactos corporais.

Na dromomania contemporânea, considera a viagem como um comportamento de massas, um banal ato de consumo à escala global, em que o que se aprende viajando é a diferença cultural, mas em que a massificação traz uma espécie de chantagem sobre as caraterísticas de cada lugar.

Questiona-se então sobre a sustentabilidade da viagem como fenómeno de massas, pois observa que “os ecossistemas vão mudando dos trópicos para os polos da mesma maneira que vão mudando do nível do mar para uma cota elevada”, assim como verifica que “a mudança na flora à medida que a latitude aumenta, com uma altitude constante, é equivalente à mudança na flora à medida que a altitude aumenta, com a latitude constante”.

Para Gonçalo Cadilhe a condição de viajante implica responsabilidade, solidariedade, solidão, curiosidade sobre o que está para além do horizonte, prazer do olhar, “construção de um imaginário, ritual de crescimento e superação”, obstáculo a superar. Mas o que faz de alguém um grande viajante é se durante a viagem encontrou o lugar que estava dentro de si.

Diretor da Biblioteca Municipal de Abrantes

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