Passe pela Biblioteca | “Um homem não chora”, de Luís de Sttau Monteiro

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “Um homem não chora”, de Luís de Sttau Monteiro, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

O título é uma expressão que se usa, cada vez menos, quando se quer apaziguar o choro a uma criança do sexo masculino, motivado por uma causa menor como uma pequena queda, um ferimento ligeiro. Desta maneira, para muitos meninos, rapazes e, mais tarde, homens feitos, essa frase, de tanto repetida, condiciona as suas personalidades e, assim, matam no peito e na alma muitos choros e sentimentos, à força de uma pseudo heroicidade masculina.

Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro, nasceu em Lisboa, em 1926. Foi viver para Londres com 13 anos, acompanhando o seu pai, que aí fora nomeado embaixador. Ainda em Inglaterra, vivenciou a segunda guerra mundial, regressando a Portugal, em 1943, para onde veio cursar Direito. Exerce advocacia durante dois anos, voltando a Inglaterra, onde foi piloto de fórmula 2. Depois de um curto período, volta, de novo, a Portugal, onde acaba a trabalhar como jornalista, depois de ter sido tradutor, colunista de artigos gastronómicos na revista Almanaque entre outros trabalhos. Torna-se, mais tarde, escritor por incentivo de um grupo de amigos, dos quais se destaca José Cardoso Pires, apelo que se concretiza com este seu primeiro livro, que hoje vos sugiro.

Sttau Monteiro tinha uma personalidade corrosiva quando se tratava de criticar o que achava criticável, amava a vida e gostava, como dizia, “de laurear a pevide”. É com o concurso televisivo “A visita da Cornélia”, em 1973, que Luís Sttau Monteiro, enquanto membro do júri, salta para a ribalta, catapultado pela caixinha que mudou o mundo, tornando-o uma figura mediática. “Angústia para o jantar” foi o seu segundo romance, lançado em 1961. Em 1978, dá à estampa a obra “Crónica Aventurosa do Esperançoso Fagundes”, romance aclamado, mas a crítica rendeu-se à escrita dramática, que teve como expoente máximo a peça de teatro “Felizmente há luar”, drama narrativo histórico, que veio a conquistar o Grande Prémio de Teatro, atribuído pela  Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. A sua obra é vasta e muita dela está publicada em diversas línguas e vários países.

Um homem não chora é uma obra que se desenrola pelos meados do século XX, em pleno Estado Novo. O drama rola em volta de uma situação matrimonial de fachada, prolongada pelas dificuldades impostas pelas leis político-sociais e religiosas da sociedade vigente. O divórcio era quase negado pelos cânones religiosos, que dificultavam a anulação do matrimónio de uma forma “airosa”. Sttau Monteiro, nesta e em todas as suas obras, esmiúça a psicologia que está por detrás das atitudes dos personagens e expõe a hipocrisia político-social da época, nas convenções sociais e religiosas, na cretinice do ser humano e do malabarismo que se fazia para manter as aparências. Ao mesmo tempo, e concretizando essa crítica, contrapõe os aparentes bons costumes sociais visíveis, à vida noturna da capital, onde os grandes defensores da moral se deleitam na noite lisboeta em vícios licenciosos.

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O marido de Fernanda, há muito perdera o interesse por esta, ambicionava um divórcio que era difícil de concretizar, a não ser por meios que, as aparências sociais a que se obrigavam, não tornavam viáveis. Assim, para nenhum deles passar por fama que lhes beliscasse  o verniz social, o embuste matrimonial ia-se prolongando. Fernanda, ainda com uma réstia de esperança a morar-lhe no coração, tudo fazia para manter as aparências e, ao mesmo tempo, reconquistar o marido, desdobrando-se em mimos e palavras sensatas e conciliadores. Ao marido, que não lhe esconde a sua frieza, tenta reconquistar-lhe o amor ou, ao menos, um acordo que o faça fingir o que não sente.

A cama conjugal não é partilhada há muito, o que causa um grande vexame em Fernanda, por saber que a empregada doméstica o sabe. Sozinha ainda podia suportar a sua dor, mas ter de partilhá-la com estranhos fá-la sentir olhada como uma inútil sem qualquer uso, uma desprezada. Fernanda ainda nova, quarenta e cinco anos, uma mulher desejosa de amar e ser amada, não se conformava com a vida que levava, mas a sua esperança ainda era que o marido, que percebemos que ama, voltasse a ver nela a mulher que o levára a casar com ela. Ou isso, ou que fingisse tão bem gostar dela que a convencesse, até a ela, que era sincero esse seu amor.

A vida continua, e numa noite em que uma relação íntima acontece, Fernanda fica esperançada que, finalmente, a conjugalidade pudesse recompor-se. Mas depressa se apercebe que o regresso do casal ao leito conjugal não é desejado pelo marido e desmorona-se, quando o marido lhe dá a entender que, da parte dele, aquele momento de intimidade não passou de um ato de piedade para com ela. Fernanda, repito, desmorona como nunca na sua enorme resiliência em reconstruir o casamento. Deixo o resto para o leitor descobrir na leitura. Fernanda ainda viverá momentos inesperados e o marido ainda descobrirá que foi um cretino, sentindo um enorme nojo por si que o faz sentir a necessidade de chorar, mas que recalca com um pensamento que ainda lhe ressoava na cabeça:

Um homem não chora.
Um homem não chora.

Deixo-vos esta breve entrevista concedida pelo autor ao programa “Noite de Teatro”:

Bom trabalho ou boas férias, conforme o caso, mas sempre com Boas Leituras.

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