Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Quarta-feira, Julho 28, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

PASSE PELA BIBLIOTECA: UM DIÁRIO DE LEITURAS, DE ALBERTO MANGUEL

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “Um Diário de Leituras”, de Alberto Manguel, é o livro sugerido por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

- Publicidade -

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

um diario de leituras_alberto manguel
Alberto Manguel | Um Diário de Leituras (edições Asa, 2007)

- Publicidade -

Alberto Manguel nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1948, e, embora seja esse o seu país de origem, muito novo ainda iniciou uma deambulação por moradas e de lugares de vida – Israel, Canadá – que o tornaram num cidadão do mundo, um homem que teve como línguas maternas o espanhol, o inglês e o alemão e que, muito cedo, começou a conviver com os livros e com a literatura.
Aos 16 anos, em Buenos Aires, foi contratado por Jorge Luis Borges (que entretanto cegara) para ser seu leitor.
Esse terá sido, como o próprio Manguel diz, um enorme privilégio, uma das experiencias mais ricas de toda a sua vida.
Alberto Manguel é ensaísta, professor, tradutor, escritor, mas diz-se, sobretudo, um leitor.
Bibliófilo assumido, numa entrevista que deu ao Jornal i, em 2015, disse: “Desde que tenho memória, acredito que a minha biblioteca contém a resposta a qualquer pergunta.” Manguel é proprietário de uma biblioteca que se estima ter entre 35 mil e 40 mil volumes.

Em 2002, entre palestras e leituras que o obrigaram a variadas deslocações durante um ano, propôs-se revisitar leituras, de livros que já lera, fazendo-se acompanhar dessas obras durante as viagens.

Daí nasceu o livro que aqui hoje trago: Um Diário de Leituras (edições Asa, 2007).
Em forma de diário, a narrativa tem o seu começo em junho de 2002 e termina em maio do ano seguinte. O autor apresenta aos seus leitores um livro por mês, uma lista a que chamou um ano de livros: na página 6 desvendam-se os títulos e os autores, logo a seguir à dedicatória.

Na verdade, o que o autor propõe neste diário é uma “(re)leitura”. Um tempo, uma memória, um regresso ao passado, aos cenários, aos autores, em cada mês. Manguel, ele próprio.

Aliás, só um autor como ele consegue a proeza de aliar a doze livros, dezenas de outros livros, dezenas de outros autores. Como se de hiperligações se tratassem. Uma ironia tão intencional e provocatória. Manguel, um avesso à internet e às tecnologias da informação!

Fá-lo exactamente para nos demonstrar que afinal não é preciso haver hiperligações online, podemos fazê-las na nossa cabeça, usando a nossa memória, (re)construindo e reconstituindo as nossas associações e as nossas anotações. Das histórias nascem histórias, afinal.

Este livro é, na verdade, do início ao fim, uma biblioteca pessoal, inserida e arrumada dentro de uma cartografia própria (não tivesse Manguel aprendido com Borges). O autor rasga caminhos, apoiando-se nas suas memórias e nas suas viagens, pontos de encontro num mapa de geografias literárias rememoradas. Traz, desde logo para a linha da narrativa, essa cartografia que os conduz através de lugares e de cenários que o próprio autor percorre, paralelos aos da literatura que, provavelmente, só alguns eruditos leram e conhecem bem, ao ponto de os saberem de cor.
Manguel é assim, um brilhante promotor da leitura. Dos mais brilhantes, na verdade. É aquele que nos conta as histórias dos livros que compõem a sua vida e os seus lugares, os seus percursos pessoais, afectivos e profissionais e que a partir daí só nos traz novidades, conhecimento, partilhando com o leitor outras interpretações, as suas.
Um exemplo para todos os bibliotecários.

Há ainda no livro o estabelecimento dessa relação entre a experiência pessoal de cada um, a de Manguel, no caso, e da ficção contida na literatura. Muitas vezes, observa ele, há uma ligação de coincidências entre a realidade que é nossa e a ficção que um livro nos oferece.

Este diário é, de facto e sobretudo, uma biblioteca condensada em 253 páginas, a partir das quais Manguel nos desafia, portanto, enquanto leitores e também bibliófilos, a acompanhá-lo e a entrar no jogo da memória, entre recordações e falsas recordações, entre lugares no mapa das geografias reais, vividas no presente, recordadas ou desejadas, e os mapas das geografias imaginárias ou imaginadas. Acompanhá-lo nesta viagem e aceder ao desafio proposto é um privilégio de poucos, uma aprendizagem riquíssima.

Um diário de leituras é, a meu ver, uma ode à bibliofilia, ao amor aos escritores e aos livros, aos lugares, aos heróis e aos anti-heróis.

Os aprendizes da arte da leitura têm aqui um manual quase sagrado. Pejado de referências clássicas e de deambulações sábias, de uma erudição que só pertence aqueles que na vida tiveram essa sorte imensa de fazer da bibliofilia, da literatura e da leitura um prazer quotidiano, um modo de vida. E mais, tiveram essa imensa sorte de poder fazer dos livros e das lições, das palestras sobre leitura e das viagens, o seu ganha-pão.

Alberto Manguel é ele próprio essa síntese de sabedoria e de erudição, fruto da sua experiencia de vida. Nele se reflectem os países por onde passou, todos os lugares onde viveu e todos os livros que leu – personagens, géneros e estilos.

Voltando ao livro, de mês para mês, viajamos de carro, de avião ou de comboio — Buenos Aires, Canadá, Paris e Londres — e apreciamos lugares como La Mancha, de Cervantes ou Bombaim, de Kipling, conforme se alude a D. Quixote ou a Kim.

Esta viagem — por entre leituras de outrora, de quem já nos habitou a ter a geografia como elemento sempre presente, reconstruindo em cada paragem ou em cada partida uma memória repleta de outros títulos (tantos!) como se de destinos se tratassem — tem, afortunadamente, Manguel ao comando.
Um mestre que trilha o caminho dos leitores, levando-os ao prazer da rendição no mais íntimo do seus livros, dos seus autores ou dos seus lugares.

Um Diário de Leituras e outros livros de Alberto Manguel estão disponíveis para empréstimo na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

Diretora da Biblioteca Municipal de Torres Novas

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here