Passe pela Biblioteca | “Três homens num bote”, de Jerome K. Jerome

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Três homens num bote”, de Jerome K. Jerome, é a sugestão apresentada por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

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“Recordo-me de um amigo meu ter comprado dois queijos em Liverpool. Eram uns queijos magníficos, macios e saborosos, com um cheiro de duzentos cavalos, que poderia sentir-se a cinco quilómetros de distância, capazes de derrubar um homem a duzentos metros…”
In “Três homens num bote”

Este é um trecho de um dos muitos episódios cómicos que o livro contém. Nele, Jerome, o autor, de visita a Liverpool, quando se preparava para regressar a sua casa, em Londres, encontra o seu amigo Tom, que lhe pede, encarecidamente, o favor de levar, dois queijos que comprara, pois ele só regressaria dois dias depois e receava que, entretanto, os queijos se estragassem. Jerome aceita o pedido com prazer, constatando de imediato que, além dos queijos, teria de levar também um cheiro, digamos, intrigante, que lhes era indissociável. Inicia-se, assim, o que viria a ser uma atribulada viagem.

A carruagem, que o levou à estação, era puxada por uma velha pileca que se arrastava pelo caminho. Inesperadamente, ao contornarem uma esquina, a mudança do sentido do vento levou às narinas do velho animal o peculiar cheiro do embrulho de Jerome, transportado no tejadilho da carruagem. O velho e débil animal, como que espicaçado por afiado aguilhão, disparou a uma velocidade que lhe permitiu, segundo a narrativa, ultrapassar algumas senhoras de idade e outras pessoas com dificuldades de locomoção.  Podemos, deste modo, imaginar a velocidade a que, até ali, o quadrupede se deslocaria.

Chegados à estação ferroviária, foi necessário ao cocheiro solicitar a ajuda de duas pessoas para deter a “desfilada da rejuvenescida pileca”, em fuga do nauseabundo cheiro.

O comboio com destino a Londres estava apinhado, mas Jerome não teve dificuldade em arranjar um compartimento só para ele. Tal, deveu-se aos famigerados queijos, cujo cheiro afuguentou os restantes passageiros do compartimento, que na debandada deixaram um indignado chorrilho de impropérios.

Chegado a casa de Tom, a mulher, perante o odor dos queijos que o marido comprara, sugeriu que os mesmos fossem enterrados num sítio longínquo. Depois de alguma reflexão e a conselho de Jerome, concordou que tal atitude poderia indignar seriamente o marido. Resolve, então, como último recurso, preparar os filhos e ir para uma hospedaria até que os queijos fossem comidos. Os pestilentos sucedâneos do leite ficam à guarda da sua governanta que tinha um olfato tão restrito, que tudo o percecionava na proximidade dos queijos era um vago odor a melão.

Após o regresso a casa, Tom viu-se confrontado entre a despesa da hospedagem da família e o custo dos queijos, acabando por achar economicamente mais rentável abdicar dos queijos. Após várias tentativas de se desfazer dos pomos da discórdia, todas goradas por motivos extremamente caricatos, acabaria por, num golpe de génio, ter a ideia de enterrá-los, bem fundo, no areal de uma pequena cidade à beira-mar.

Pouco tempo depois, descobriu que não se falava de outra coisa que não fosse da tal praia, onde enterrara os malfadados queijos. A fama devia-se, segundo a investigação que fez, ao revigorante ar que a dita praia passara a exalar, ao qual foi reconhecido um efeito terapêutico na cura das mais variadas doenças, principalmente das mais debilitantes e, por isso, a praia passou a ser alvo de enorme procura, principalmente por débeis e tísicos.

Três homens num bote, escrito em 1889, era para ser um roteiro para os navegantes do Tamisa, mas o autor, inspirado na viagem que fizera ao longo do rio na sua lua de mel, dois anos antes, transforma o simples roteiro numa narrativa hilariante, em que descreve a viagem num pequeno barco a remo pelo Tamisa, na companhia de dois amigos, George e Harris. Um quarto elemento, acompanhou-os, um cão, de seu nome Montmorency, também protagonista de várias peripécias.

Esta ideia da viagem surgiu, após acesa discussão, num fim de tarde, em que estes amigos concluíram, ser essa a melhor forma de combater os malefícios da vida enfadonha em que se achavam mergulhados. Os três amigos, não sem pontuais e acaloradas divergências de opinião, preparam os pormenores da que viria a ser uma incrível aventura, plena de episódios cómicos e bizarros.

Assim, nasceu esta novela de humor, em plena época vitoriana, que reflete o típico humor inglês, recheada de sarcasmo, situações ridículas e muito “non sense”, tão caraterísticas do humor em geral e do inglês em particular.

A obra, inicialmente mal acolhida pela crítica de então, que a classificou de simples e vulgar, conquistou o público de tal modo, que tornou o livro num best seller que, até hoje, não parou de ser reeditado em todo o mundo, tornando-se um dos clássicos da literatura humorística do século XX.

Jerome Klapka Jerome (1859-1927), inglês, fica órfão aos catorze anos, situação que aliada à débil situação económica em que se achava, o levou a trabalhar nos caminhos de ferro londrinos, onde permaneceu quatro anos. Posteriormente, depois de concluir estudos na Marylebone Grammar School, trabalha como professor, ator e jornalista. Casou em 1888, e teve uma filha. Foi condutor de ambulâncias na Frente Ocidental, durante a I Grande Guerra, vindo a falecer em 1927.

Em tempos de pandemia, confinamento e não só, ler algo divertido como, por exemplo, este livro que vos sugiro, poderá ser considerada uma decisão muito salutar.

Boas leituras.

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