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Terça-feira, Agosto 3, 2021

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PASSE PELA BIBLIOTECA: SOBRE A MORTE E O MORRER, DE WALTER OSSWALD

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “Sobre a Morte e o Morrer”, de Walter Osswald, é o livro sugerido por Amílcar Correia, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

 

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Walter Osswald foi professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde ensinou e investigou Farmacologia, Terapêutica e Bioética. Como escritor publicou mais de 500 trabalhos em revistas nacionais e internacionais, três livros e foi coautor de outras cinco obras.  Distinguido com o título de Doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra, galardoado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada e o grau de comendador da Ordem de São Gregório Magno é, também, detentor da Cátedra UNESCO de Bioética.

“Sobre a morte e o morrer”, é título do ensaio publicado pela livro-sobre-a-morte-e-o-morrer (Foto DR)Fundação Francisco Manuel dos Santos (2013). O autor, Walter Osswald, aborda temas de crescente importância no espaço do debate público nacional, como o envelhecimento, o sofrimento, a morte, a eutanásia e outros relacionados.

A sociedade portuguesa já começou a debater o tema e é previsível que venhamos, num futuro próximo, a ser chamados a participar em referendo sobre esta matéria. Torna-se, por isso, importante efetuarmos uma ponderada reflexão de forma a prepararmo-nos com responsabilidade para tomar a mais lúcida decisão sobre tão delicado tema, ou não estivesse em jogo a sensibilidade da sociedade na abordagem de uma questão de vida ou morte como o foi, aliás, o referendo sobre o aborto.

O livro aborda as várias problemáticas sobre a velhice, o sofrimento e a morte, tanto do ponto de vista humano como clínico.

O ensaio principia com uma visão histórica da morte e do seu enquadramento social nas diferentes épocas e movimentos culturais. Há uma análise à repercussão que a morte de alguém pode ter no seu meio social citando, a propósito, Fernando Pessoa e o poema Cruz da Porta (“a cidade está diferente... morreu o Alves da Tabacaria”). Esta afirmação de Fernando Pessoa reflete aquilo que constatamos quando perdemos alguém que nos é próximo, que a morte não é só para quem morre mas, em muitos casos, um drama para quem fica.

O autor continua, analisando os dados estatísticos sobre a mudança de local da ocorrência dos óbitos em Portugal, desde a década de oitenta até aos dias de hoje. Atualmente, morre-se maioritariamente nos hospitais, ao contrário do que acontecia até meados da década de oitenta, em que a maioria dos óbitos ocorria em casa.  A integração da mulher na vida laboral veio mudar os costumes sociais. A indisponibilidade de filhas e noras para cuidarem dos pais e sogros nos seus lares levaram os idosos para os lares e, numa fase terminal, para o internamento nos serviços hospitalares.

Uma nova realidade, que em crescendo se constata, é a assistência prestada pelos cuidadores informais, que podem ou não ser familiares, e que em casa do idoso lhe prestam os cuidados necessários. Alguns cuidadores são pessoas contratadas que podem chegar a viver, praticamente, a tempo inteiro com o seu “paciente”. Serviço desgastante pelo que este trabalho tem de exigência tanto física, como psicológica. Para descanso dos cuidadores,  promovem-se internamentos temporários dos idosos. O próprio cuidador pode, em muitos casos, necessitar de acompanhamento psicológico pelo desgaste e especificidade do trabalho. O alerta é deixado por Ossawald “e quem cuida dos cuidadores?”.

Os hospitais, por sua vez, não estavam nem estão preparados para serem lugares onde se morre. Foram concebidos para tratar, tanto técnica como humanamente. Transformar os hospitais em locais onde se morre, diz o autor, não faz sentido. Tudo o que foi pensado tanto na logística como na preparação dos técnicos foi orientado para o tratar, o salvar vidas. Ninguém espera que um bombeiro vá incendiar uma casa quando é chamado para a livrar das chamas. Muito menos está a orgânica hospitalar preparada para integrar na sua rotina a presença mais assídua da família, para que esta esteja presente, com o seu conforto e carinho, nos últimos dias da vida do seu ente querido.

“Morre mal o paciente que morre sozinho, ocultado dos companheiros de enfermaria por biombos ou retirado para uma sala de pensos; morre mal aquele a quem retiram o suporte respiratório horas depois de ter ocorrido a morte; morre mal a pessoa que não teve a companhia de familiares, amigos ou companheiros de trabalho ou o conforto dos ritos da sua religião. separado por cortinas dos outros pacientes da enfermaria, sem apoio nem consolo, em distanásia”.

 “O que urge é não apenas o reforço e a criação de cuidados paliativos (unidades autónomas ou sedeadas no hospital, cuidados domiciliários em articulação com unidades ou centros de saúde), mas a conversão de mentalidades de profissionais e de pacientes ou familiares para que se abram a este conceito de boa morte e a adotem na sua ação, sem esquecerem que, mais cedo ou mais tarde, todos estaremos em condições de a experienciarmos”.

(extraído da obra)

Nos cuidados paliativos a morte “natural” deve ser acompanhada sem usar meios técnicos desproporcionais à doença, não retardando nem acelerando o curso dos acontecimentos. Num caso retardaria o inevitável, noutro anteciparia o que está anunciado, o que poderia ser considerado uma forma camuflada de eutanásia.

O autor não defende nem hostiliza a eutanásia, apresenta factos sem deixar, aqui ou ali, como seria inevitável, de dar um parecer mais pessoal. Uma boa morte é o que pedimos para nós próprios, sempre esperando que ela venha naturalmente, mas há a quem tal desejo não seja atendido pelas circunstâncias e depois… poderemos tê-la a pedido? É a questão que se levanta.

Como Dante proclamou Un bel morir tutta la vita onora; afigura-se-me por isso um desafio apaixonante honrar toda a vida com uma bela morte.

Para isso, como nos adverte o grande Paul Ricoeur no título do seu livro, importa estarmos «Vivos até à morte».”

(extraído da obra)

A boa morte é mencionada como o proporcionar de um final de vida tranquilo, com a família e os amigos por perto e uma assistência clínica que atenue, tanto quanto possível, o sofrimento.

A possibilidade de se vir a legislar as condições para o exercício da eutanásia obriga o cidadão responsável a uma reflexão.

É, por tudo isto, que sugiro este livro como um passo para compreendermos aquilo que muitas das vezes não equacionamos, por um ou outro motivo, no nosso dia-a-dia. Também, para os que conhecem, por experiência própria, a realidade, se recomenda.

Bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento

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