Passe pela Biblioteca | “Perguntem a Sara Gross”, de João Pinto Coelho

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Perguntem a Sara Gross”, de João Pinto Coelho, é a sugestão hoje apresentada por Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, de Abrantes. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

O livro que sugiro hoje, Perguntem a Sara Gross, publicado em 2012, será apresentado na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, no próximo dia 27 de fevereiro, com a presença do autor. Trata-se do primeiro romance de João Pinto Coelho, finalista em 2014 do prémio LeYa, o qual viria a ganhar em 2017, com Os loucos da rua Mazur.

Arquiteto de formação, integrou duas ações do Conselho da Europa em Auschwitz e trabalhou com diversos investigadores sobre o Holocausto, vindo a conceber e implementar o projeto Auschwitz in1st person/A letter to Meir Berkovitch. Neste contexto, juntou jovens portugueses e polacos e voltou à cidade e aos campos de concentração e extermínio de Auschwitz/Birkenau. Essa imersão no tema tornou-o num especialista com várias intervenções públicas sobre ele, culminando na escrita dos dois referidos romances.

A ação de Perguntem a Sara Gross começa em 1968, mas no essencial alterna a entre a narração dos acontecimentos na Polónia, de 1923 a 1943, e o que se passa na América, entre fevereiro de 1968 e dezembro de 1969, com epílogo em 2013.

O enredo é altamente cinematográfico pela efabulação do roteiro, pela imagética, pelos pormenores cenográficos, pelos diálogos e até pela banda sonora implícita, mas também por um elenco de personagens encabeçadas por Kimberly Parker e Sara Gross.

 Kimberly, jovem professora de Literatura, a sua vistosa e saliente colega Miranda e o sensível sedutor Clement, são as figuras principais da parte americana da narrativa, acompanhadas pela misteriosa e carismática Sara Gross que, nas cenas polacas da ação, é secundada, entre outros, pelo pai Henry e pela amiga Esther.

Os cenários principais são Nova York e sobretudo um colégio em Shelton, Connecticut – altamente elitista e preferido pela aristocracia industrial – na América; Göttingen, na Alemanha; e uma cidade polaca com três nomes: Oshpitzin para os judeus, Oswiécim para os restantes polacos, Auschwitz para os alemães.

Entre um lado e outro subsistem conflitos, preconceito, ódio racial, discriminação basicamente por duas razões: por tudo e por nada. 

Perguntem a Sara Gross é um livro para refletirmos num mundo que nele se pode ver ao espelho. Na incomensurável dimensão da estupidez humana e na sua incapacidade de aprender com as experiências passadas. Um mundo em que, a certa altura, como na história real, as mesquinhas figuras secundárias se tornam protagonistas e transviam o rebanho em direção ao abismo. 

Perguntem a Sara Gross revisita um tempo em que as «ditaduras consolidadas em Itália ou na Alemanha polinizavam sementes totalitárias pelo continente» europeu. Um tempo em que «a afirmação da Alemanha e do seu Führer no jogo geoestratégico europeu» rapidamente vem a comprovar que a «Europa sofre de medievalismo e, de vez em quando, tem uma recaída.». Mas também uma América em que a hipocrisia e o egoísmo se transformam em ódio e discriminação insanas.

É também um romance sobre os mais profundos mistérios e paradoxos da natureza humana. As contradições dos seus personagens, colocados pela história nas situações mais extremas, interpelam a nossa capacidade de compreensão. De outro modo, seria impossível compreendermos como é que alguém se sente liberto, apenas quando aúltima luz se extingue e se livra para sempre da esperança. Como é que isso pode dar a segurança aos que não têm nada a perder e o poder de enfrentar a morte e a iniquidade, olhos nos olhos, como aconteceu com tantos prisoneiros de Auschwitz. Ou como é que um criminoso de guerra, colocado no «esgoto do mundo», encontra no fascínio pela botânica e pela criação de crisântemos, o último resquício de humanidade, entre os seus contraditórios traços de personalidade.

Estamos perante um livro que certamente também não deixou o seu autor igual. No seu laboratório de escrita, incluindo testemunhos na primeira pessoa, dos famigerados campos de extermínio, houve certamente alturas em que «todos os demónios irrompiam pela sala ao mesmo tempo». Momentos em que as testemunhas voltaram a perguntar-se «Como se pede a uma mãe que escolha entre o ar que respira e o filho que lhe pende dos braços? Como se pede a um homem solidário que o seja ainda, quando, para viver mais uns instantes, tem de pisar o rosto de um amigo?», momentos em que «Os gritos eram a única expressão com que se podia dizer adeus a um filho, a um pai, a um irmão». 

Presto homenagem a João Pinto Coelho pela coragem que precisou para escrever um livro como este. Mas quando diz que «No final, mais de um milhão de vidas haviam sido consumidas em Auschwitz e o mundo perdera a inocência para sempre», lamento, mas não concordo. Esse certamente é o seu desejo e devia ser o de todos nós. Mas a perda de inocência que nos devia pôr em alerta permanente, é contrariada pela facilidade com reincidimos. Manipulados por populismos, cinismos, outros ismos e a ignorância propositada e tão conveniente com que facilmente voltamos ao descaminho.

Na realidade, julgo que João Pinto Coelho o compreendeu. Mas depois de ouvir todos aqueles testemunhos, de percorrer as ruas onde a vida normal floriu, mas também as do gueto onde foi aprisionada e mais ainda depois de entrar na caserna, na câmara de gás, no crematório, não pode, não deve senão querer acreditar que aquilo jamais se possa repetir.

Ninguém consegue compreender o sofrimento alheio: «Nunca cedi à arrogância de tentar compreender aquilo que Esther possa ter sentido naquele lugar», diz pela boca de Kimberly Parker, a jovem professora. Esta humildade, transmutada em humilhação sem culpa, certamente foi também acompanhada, no autor, por uma vontade, quase missão, de querer contribuir para que tal jamais se repita: estudar o tema, fazer conferências, escrever livros, operacionalizar projetos, ou acreditar, tal como Sarah Gross, quando constatou que «o colégio parecia uma fábrica de parafusos, todos os alunos saíam iguais, a rodar para o mesmo lado», na força transformadora da educação e da cidadania. Não há outro remédio, porque se «vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar» e porque, é bom que tenhamos consciência, como diz Esther, que «- Sair com vida de Auschwitz não é o fim de nada […] só se sobrevive aos campos na hora em que se morre» e os campos, demasiadas vezes, têm persistido em repetir-se.

Leiamos, pois, Perguntem a Sarah Gross, enquanto ouvimos estilhaçar os corações de Piece of my heart, na voz de Janis Joplin, e o apelo solidário e humanista do poema de Sophia, na voz de Fanhais, Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.

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