PASSE PELA BIBLIOTECA: “Os Casais das Vaginhas”, de Luís M. Preto Batista

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “Os Casais das Vaginhas”, de Luís Miguel Preto Batista, uma monografia sobre a história de uma aldeia, é o livro sugerido por Amílcar Correia, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Luís Miguel Preto Batista é natural de Castelo Branco, onde nasceu em 04-10-1968. Licenciou-se em História, na Universidade Autónoma de Lisboa em 1990, tendo apresentado como tese um estudo de investigação com o nome “Cardiga ou a História de uma entroncamento_casais das vaginhasQuinta”. Tem-se revelado profícuo investigador que já escreveu outras obras com estudos de locais históricos como a Quinta da Ponte da Pedra, a Quinta da Cardiga, a Igreja Matriz do Entroncamento, a História da Imprensa no Entroncamento e outras.

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“Os Casais das Vaginhas” é uma monografia sobre uma histórica aldeola perto da qual nasceu o Entroncamento e que hoje faz parte integrante dele.

Como muitos já sabem, o Entroncamento nasceu como localidade devido ao avanço da linha férrea. Foi este, após outras localidades, ao que consta, terem rejeitado o empreendimento nas suas terras, o local escolhido para construir o entroncamento da linha de Lisboa com o Norte e o Leste. Tem esta cidade, por isso, uma existência curta, quando comparada com a maioria das terras portuguesas, e nem precisamos de sair do médio Tejo para encontrarmos concelhos com raízes históricas ligadas à formação de Portugal. Uma data importante na história do Entroncamento é, sem dúvida, 14 de Setembro de 1859, data da celebração do contrato para a construção da linhas férreas do Norte e do Leste. Outras datas significativas na sua evolução são a da passagem a freguesia a 24 de Agosto de 1926, a sua elevação a vila em 1932,  a sede de concelho em 24 de Novembro de 1945 e a da sua promoção a cidade em 20 de Junho de 1991.

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Com população superior a 20.000 habitantes e área de 13.71 km2, o Entroncamento é dos concelhos mais pequenos de Portugal em termos de área. Hoje com duas freguesias. A norte a nova freguesia de N.ª Sr.ª de Fátima, criada em 2003, e a sul, desde 1926, a freguesia do Entroncamento, agora denominada de S. João Batista. Verificamos que de uma freguesia desde 1926, passou a ter duas desde 2003.

A monografia, cuja leitura aqui proponho, é um estudo sobre os Casais das Vaginhas, uma aldeola que se localizava perto do local da construção da ferrovia e que o entroncamento acabou por absorver na sua expansão territorial.

A existência dos Casais das Vaginhas já era referenciada em 1549, no 1º Livro de Baptismos da Paróquia de Atalaia. Aí se encontra registado o batismo de uma criança cujos pais habitavam nos “Casais das Baginhas”. Baginhas, como inicialmente era referida, e que por  “oscilação fonética” passou a denominar-se Vaginhas.

Neste local existia e existe, uma capela dedicada a São João Batista, cuja construção terá sido no séc. XVII, como é referido neste estudo e que se baseia em documento escrito pelo Padre António Carvalho da Costa na “Corografia Portugueza”, tomo II, de 1712. Avança o autor que, devido à morosidade da escrita e publicação deste tipo de obras, que à época demorava vários anos, se possa afirmar que a sua construção tivesse sido seguramente no séc. XVII.

Em 1758, após o terramoto de 1755, são enviados ao Marquês de Pombal relatórios da situação do país, sendo um deles da autoria do pároco da Atalaia, onde este refere:

“… além destas há mais quatro ermidas dispersas pelos povos donde se administra o Santo viático aos enfermos, hua de de S. João, no lugar das Baginhas, outra de N.ª Sr.ª dos Remédios, no lugar da Mouta, outra de St.º António no lugar da Barquinha…”.

Refere o mesmo relatório que não se encontraram estragos do referido terramoto.

Em 1919 é pedida autorização, que foi concedida, para a celebração quinzenal de missa por qualquer sacerdote na qualidade de capelão aí pudesse celebrar de 15 em 15 dias. A partir de 1920 as missas já são semanais e foi autorizado a realização de baptizados no dia das Festividades de S. João Batista. Em 20 de Junho de 1920 há registos de seis registos de baptismos. Durante o resto do ano os baptismos dos entroncamentenses eram realizados na Capela da Cardiga ou na Igreja da Atalaia. De referir que em muitos casos os pais esperavam pela festa do Santo para baptizarem os seus filhos na Capela de S. João. Em 1927, a nova freguesia civil foi reconhecida pelas autoridades eclesiásticas e passaram a celebrar-se todos os eventos de culto na capela por falta de templo próprio. O Patriarcado de Lisboa consagrou a freguesia do Entroncamento ao orago das Vaginhas, São João Baptista, cuja data de nascimento se comemora, ainda hoje, com festa e procissão no dia 24 de Junho.

Esta capela sofreu restauros nos anos sessenta e em 1982/3, nesta última década era pároco o Sr. Pe. Armando Delgado Marques. Os restauros realizaram-se quando a capela já estava parcialmente ruída. Nesta restauração, empenho do Padre Armando e de alguns residentes, os entroncamentenses, em geral,  manifestaram o seu apreço histórico  por esta capela onde os primeiros habitantes do Entroncamento encontraram amparo para o seu culto religioso.

As invasões francesas também aqui são abordadas, pois por aqui passaram as tropas de Massena (3ª invasão 1810-1811), quando debandavam das Linhas de Torres Vedras para Torres Novas onde se aquartelaram em 1810. Nessa altura cometeram todo o tipo de atrocidades tendo só na Atalaia chacinado 400 habitantes. Aqui se distinguiu um célebre guerrilheiro chamado Madrugo que infligiu uma dura derrota a um contingente francês em trânsito no local onde hoje se situa a estação dos caminhos de ferro e que à época era um olival. Nessa refrega foram mortos 20 franceses, tendo os do Madrugo tido só duas baixas. Foi, aliás, durante a construção da estação dos caminhos de ferro que se encontraram vestígios dessa batalha, na maioria esqueletos e ornamentos do exército francês. Há relato de um guerrilheiro de seu nome José Vale, informador do Madrugo, que foi barbaramente assassinado no Casal das Vaginhas, onde tinha casa. Muitas atrocidades francesas foram registadas na charneca das Vaginhas.

Em 1932, já o Entroncamento era freguesia, a aldeia das Vaginhas é anexada fazendo, desde então, parte integrante da freguesia. Nesta monografia o autor aborda muitas outras questões de interesse tais como: a origem do nome deste Casal, estatísticas referentes à população do Casal das Vaginhas, tipo de construção das casas, o tipo de mobiliário mais comum, da arquitetura da capela e da evolução histórica deste local. Um trabalho com vastas fontes de informação que nos quer mostrar que o Entroncamento ao englobar os Casais das Vaginhas na sua área concelhia englobou-lhe a história e adoptou-a como sua.

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