Passe pela Biblioteca | “Olho de Gato”, de Margaret Atwood

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “Olho de Gato”, de Margaret Atwood, é a sugestão apresentada esta semana por Evelina Gaspar, da Biblioteca Municipal de Vila Nova da Barquinha.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Logo nas primeiras linhas deste Olho de Gato sugere-se a ideia do tempo como uma série de transparências líquidas sobrepostas por camadas, ao contrário do correr horizontal de trás para diante a que estamos habituados. O tempo assim visto faz com que a vida seja entendida como um caminhar sobre águas, as águas do nosso passado. Olhando-se, não para trás mas para baixo, veem-se aparecer fragmentos à superfície; isto, aquilo, às vezes nada.

É a partir desta perspetiva que Margaret Atwood nos apresenta a história de vida de uma pintora que, chegada à maturidade e à consagração artística, se vê perscrutando as memórias que conduziram os seus passos até ao lugar em que se encontra no presente. A liberdade andarilha da época em que Elaine e a família calcam os caminhos da floresta no encalço de lagartas e insectos e a posterior fixação em Toronto onde ela ingressa na escola impõem uma dualidade de realidades que vai tingir de desencantadas cores o seu quotidiano.

Num mundo em que os mais jovens, na sua inocência, sofrem frequentemente de solidão acompanhada, a protagonista vai travar um combate mudo pela integração no seio de uma comunidade conservadora e, sobretudo, num certo grupo de amigas. Todavia a degeneração da amizade em impiedade desencadeia a despersonalização de Elaine e quase a leva à morte.

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Mais tarde a descoberta súbita de uma vocação insuspeita traz-lhe uma possibilidade de caminho a que ela se entrega com uma obstinação instintiva. Com os anos a superação da dor e a digestão das vivências acabarão por ressumar numa arte pejada de simbologias transgressoras na qual ela firma a sua identidade e se resgata de um não-destino.

Ficou-me da leitura deste romance a reflexão de que pode ser tortuoso o processo de alguém se tornar quem é; no caso de Elaine Risley ela constata que tendo chegado onde queria, o lugar do seu destino não é nenhum oásis de paz e certos fantasmas do passado teimam em permanecer.

Passe pela Biblioteca Municipal de Vila Nova da Barquinha e requisite este livro finalista do Booker Prize de 1989 de Margaret Atwood, premiadíssima escritora canadiana e activista de diversas causas sociais que invoca em romances perturbadores como A História de Uma Serva (que deu recentemente origem à serie televisiva The Handmaid’s Tale) cenários distópicos que devem constituir um alarme nos dias que correm.

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