PASSE PELA BIBLIOTECA: O PRAZER E O TÉDIO, DE JOSÉ CARLOS BARROS

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “O prazer e o tédio”, de José Carlos Barros, é o livro sugerido por Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Depois de vinte anos a publicar poesia e a ganhar prémios, José Carlos Barros publica o seu primeiro romance em 2009, na Oficina o prazer e o tediodo Livro. Francisco José Viegas qualificou-o como «uma pequena maravilha romanesca», classificando-o de folhetim. E é bem possível que para escrever um livro assim, o autor tenha lido mestres do género como Camilo, Eça, Ramalho Ortigão, Machado de Assis, Tristram Shandy ou Lawrence Sterne.

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As suas personagens sofrem de melancolia rural, como Aline, para quem a esta é um fogo lento ainda para arder, que pode reacender-se ou apagar-se… enquanto «do tédio nunca se regressa; que o tédio é o fogo apagado ou a labareda incombustível».

Duma certa maneira, o romance é um encontro de aldeãs solitárias com forasteiros diplomados, e de uma descoberta da sexualidade, mais precoce no mundo rural. Aline viveu dezasseis anos na casa, mas quando lá volta e compara a fotografia com a memória da mesma, tem a sensação de que nunca lá viveu, porque a memória embrulhada em nostalgia usa sempre embalagens de luxo.

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O tédio é descrito como um desconforto feito de solidão e afastamento do mundo. O poeta, um dos poucos namorados de Aline, define-o como inversamente proporcional ao desassossego de estar vivo. O tédio e a necessidade de prazer alimentam-se um do outro, mas Aline, que procurou na grande cidade a proteção do anonimato, encontrou também aí o maior dos tédios, ao passo que ao olhar a fotografia da casa de infância «sente um súbito sobressalto». Aline, como todos nós, é alguém à procura da felicidade, afinal de um sentido para a vida, mas para quem «Talvez a procura implique o prévio reconhecimento da inevitabilidade da tristeza e da incompletude.» e «Talvez o prazer não seja mais que uma fogueira acesa no Inverno [… e] o tédio, provavelmente, delimita um território onde se erguem defesas contra a precaridade do prazer e as incertezas do mundo.». O que é afinal o prazer?

Será que tende sempre para o vício?

No livro fala-se também da amizade como um sentimento que mudou com o tempo e que hoje é volúvel e frívola e de como talvez tenha sido a evidência da precaridade do prazer que levou à invenção do amor. Talvez assim o amor seja esforço e vontade: «Talvez o amor, a ser assim, se constitua como uma das mais belas e perfeitas e comoventes construções humanas.»

O amor e a política são duas coisas complicadas. Diz João Pequeno que «da política convém ficar à distância ou acertar nas apostas.» e que «nunca sabemos lidar com as coisas do amor. Não há algoritmos para o amor.»

Trata-se também de um livro sobre a paisagem (contentor e conteúdo) entendida como uma espécie de jardim do Éden impossível, por o Criador ter coibido a mulher de sentir desejo e experimentar prazer. A paisagem é, de facto, um elemento central do livro. A paisagem e a sua constante reconstrução, a qual é mesmo a origem primeira do encontro e repositório privilegiado de memórias de várias personagens e também um exercício de contraposição entre um tempo em que modernidade significava humanismo e o sentido atual, em que todos somos modernos, mas em que tudo se massificou e desvalorizou.

Leonardo fala da paisagem como uma construção humana: contraponto entre a vontade do Estado e o interesse dos locais, em que se verifica que aquilo a que se chama o bem comum lesa sempre os interesses particulares: «a gente da província temia a intervenção do Estado [porque] onde [este] metesse a pata ou vinha foda ou canelada.». Fala-se do famoso RGEU e da “famosa” integração paisagística e do «está a ver, não se coaduna», e questiona-se como é isto de não se poder reconstruir uma casa, mas poder construir um terrapleno enorme para parque de máquinas e uma estrada larga de tout-venant, a rasgar a direito pelos campos agrícolas e pelas curvas de nível, com bermas instáveis e cortadas à faca, dependendo das circunstâncias?

Fala-se também – e bem a propósito – da impossibilidade da verdade objetiva, colocando a questão a partir do plano individual, sempre abordado por metáforas que filtram os nossos medos e desejos e que nos levam a mentir «mesmo quando pensamos estar a dizer a verdade.»; do plano social, em que quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto; e do científico, das ciências humanas, porque em retrospetiva não há factualidades objetivas, devido aos diferentes pontos de vista. Estamos pois sempre perante uma verdade relativa, porque é sempre uma mentira a que chamamos verdade e, tal como como nas vidas de todos nós, é neste contexto que se desenvolvem as relações desta trama romanesca.

Finalmente, realço ainda tratar-se de um livro que sugere intertextualidades interessantes, como com Pedro Páramo, de Juan Rulfo e Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Márquez, numa inquestionável atração pelo realismo fantástico sul-americano e um encanto por obras em que as frases, mais que constituídas por palavras, se transformam em música, regulam a nossa própria respiração e fazem-nos esquecer do mundo exterior.

Em o Prazer e o tédio, o próprio processo de construção da narrativa segue de perto a técnica de Garcia Márquez, ouvindo as testemunhas, analisando os documentos e escolhendo a história dentro da história.

O livro, em síntese, é uma reflexão sobre o sentido da vida e o que sabemos dela. Não num sentido social, mas profundamente humano, porque individual e único.

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