Passe pela Biblioteca | “O pavilhão dos cancerosos”, de Alexander Issaiévich Soljenítsin

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “O pavilhão dos cancerosos”, de Alexander Issaiévich Soljenítsin, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Alexander Issaiévich Soljenítsin (1918-2008), de nacionalidade russa, autor deste romance, foi, além de escritor, dramaturgo e historiador. Politicamente era opositor ao regime estalinista o que lhe causou conhecer a dureza e violência dos campos de trabalho para presos soviéticos e o exílio. Expulso do país em 1974, a ele voltou, vinte anos depois, em maio de 1994, já depois da queda do muro de Berlim, tendo sido recebido, então, com grande pompa. Soljenitsine regressa já com vasta obra publicada e com um Nobel da Literatura (1970) na mala. Da obra constam, entre outros, títulos como: O arquipélago de Gulag; Um dia na vida de Ivan Denisovish; O declínio da coragem; Agosto, 1914=1914 : o primeiro nó e este que agora é abordado. O pavilhão dos cancerosos, escrito entre 1966 e 1968, é um romance que relata o dia a dia de uma enfermaria oncológica, falha de asseio, de espaço e de meios. A disponibilidade económica para a gestão do hospital é escassa e concretizar os tratamentos que os médicos prescrevem é uma tarefa contornada com habilidosos estratagemas, que nem sempre beneficiam a qualidade das sessões curativas.

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Abre o romance o internamento de Pavel Nicolaievitch, funcionário da máquina partidária soviética, com uma vida pessoal e profissional estável e organizada, torna-se vítima dum protuberante tumor cervical. A sua conturbada admissão no hospital, mais concretamente no “Pavilhão 13”, que albergava por detrás daquele número, para muitos azarento, um grupo de doentes que, na maioria, tinham o seu destino traçado. É, com o internamento deste homem que, apesar da sua posição política, enquanto funcionário de algum destaque na máquina partidária vigente, não lhe vê abrirem-se as portas a um tratamento privilegiado que Pavel tinha como certo e com direito. A única exceção que lhe é concedida seria a dispensa do regulamentar banho à entrada e o uso da roupa hospitalar. Homem de posses, bem que tentaram comprar-lhe os privilégios, quando a mulher tenta meter um maço de notas nas mãos de Mita, enfermeira que os recebeu, suborno que foi prontamente negado. Mita afastou-se indignada. Ali todos recebiam tratamento igual, mal seria se se sujeitassem a beneficiar uns em detrimento de outros. Qualquer benefício a mais para um seria uma indignidade cometida para com os restantes. Bem bastava os cortes orçamentais de que o hospital trazerem, por vezes, consequências discriminatórias nos tratamentos aplicados.

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Este ambiente, denso e sombrio, é descrito com base na experiência pessoal do autor, que aí esteve hospitalizado nos anos cinquenta. O drama descrito nesta obra, tem como trama principal, a autêntica “via-sacra” que os doentes sofriam, com raras tréguas, nas garras da doença. Alguém escreveu que Soljenitsine passou, através daquele pavilhão e dos seus ocupantes, a imagem do purgatório, em que todos expiavam os seus pecados, classe médica incluída. Aí, o materialismo não foi eficaz, para muitos, para resolver a ansiedade do medo e da angústia que sobre cada um se abatia. Alguns enveredavam pela espiritualidade, pelo humanismo metafísico, o próprio Soljenitsine se converteria, mais tarde, ao cristianismo, como aconteceu com outros escritores – Dostoievksy, por exemplo. O “Pavilhão 13” é uma enfermaria em que não há tréguas, todos são vítimas, da doença, da logística hospitalar ou de ambos.

Foi durante o seu internamento, já atrás referido, que o autor absorveu o dia a dia do sofrimento e onde constata, que mesmo em grupo, cada paciente convive com o seu sofrimento e a expetativa da morte de forma pessoal e solitária. A Soljenitsine, a doença foi diagnosticada numa altura em que se encontrava exilado perpetuamente, como frisa na obra, numa aldeia do Cazaquistão, destino que lhe é atribuído, depois de ter passado pelos campos de trabalho soviéticos. Hospitalizado no Usbequistão, durante o declínio do estalinismo, regime que ele aborda, mais ou menos, subtilmente. Desta doença, segundo os historiadores e o testemunho da longa vida que ainda gozou, terá tido remissão completa, caso raro nesta doença, ainda por cima com os meios terapêuticos disponíveis à época. Nessa altura, com radiações das quais ainda o perigo não era bem conhecido e que afetavam tanto doentes como os técnicos que os aplicavam. O romance, bem escrito e com conteúdo capaz de agarrar o leitor da primeira à última página, merece que as suas 656 páginas sejam lidas com atenção e alguma sofreguidão. Mesmo no meio de todo o ambiente dramático, a leitura agarra-nos com o realismo que se sente, a descrição e os diálogos profundos entre alguns dos doentes e o pessoal médico, pela noite dentro.

Todo o enredo é construído tendo como fundo o estalinismo e a “Grande purga” (1936-38), ordenada por Estaline, que condenou milhares ao extermínio, à detenção em campos de trabalho forçado e ao exílio. No conjunto de personagens que criou neste romance, Soljenitsine todo o tipo de intervenientes nessa “caça às bruxas”, uns mais envolvidos que outros e outros vítimas, como o autor, que cria para o representar o personagem Kostoglotov, a quem veste a sua própria história pessoal. As espectativas, as desilusões, as esperanças, quer no tratamento recebido quer num qualquer remédio marginal à prescrição médica, em que acreditam estar a sua cura ou, pelo menos, alívio para o sofrimento. Também, o pessoal médico é abordado pelo lado humano, com as suas dificuldades profissionais e pessoais, que se vão revelando ao longo da obra, contribuindo de maneira excecional para o desenrolar do drama existencial do grupo do “Pavilhão 13”. Também as conversas de Kostoglov com Zoia, enfermeira e estudante de medicina, são interessantes e profundas, ainda com Vedra, médica, com quem tenta, depois do insucesso com Zoia, recomeçar uma nova vida, lá na sua aldeia de exílio. Mas, no fim, nem tudo correu como desejava e voltou só. O realismo da narração sente-se, e só assim podia ser, porque o autor esteve lá e regressou para nos contar.

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