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Sexta-feira, Setembro 24, 2021

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Passe pela Biblioteca | “O Mestre e Margarita”, de Mikhaíl Bulgákov

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “O Mestre e Margarita”, de Mikhaíl Bulgákov, é a sugestão apresentada por Sónia Lourenço, da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Esta edição do livro “O Mestre e Margarita”, de Mikhaíl Bulgákov, da Editorial Presença, foi traduzida do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra.

Nina Guerra assina um magistral prefácio onde, em poucas páginas, nos dá uma lição exímia, não apenas sobre o livro e Bulgákov, mas também sobre a literatura durante o período soviético. A tradução é distinta e brota de forma perfeita, transportando-nos para Moscovo e para a forma como o autor concluiu este extraordinário romance, à beira da morte, ditando-o à sua mulher Elena. O Mestre e Margarita só foi publicado em 1966, com cortes e intromissões da censura, antes de ser lançado em Paris no ano seguinte (versão integral).

Mikhaíl Bulgákov nasceu, em 1891, na cidade de Kiev, numa Ucrânia dominada pelo Império Russo, no seio de uma família de elite intelectual russa, e morreu em Moscovo em 1940. Estudou medicina e exerceu a profissão, mas o seu interesse por literatura russa e por toda a europeia mudou o seu caminho. Fruto da época atribulada na qual viveu, veio a participar, como cirurgião, na Primeira Guerra Mundial e na Guerra Civil Russa. Em 1921, Bulgakov mudou-se para Moscovo e inicia a sua vida como escritor, abandonando o ofício de médico.

O livro “O Mestre e Margarita” abre com uma citação do poema trágico Fausto, do escritor alemão Johann Wolfgang Von Goethe:
… quem és, afinal?
– Sou parte daquela força que deseja eternamente o Mal e faz eternamente o Bem.

Inspirado pelos dois temas que marcavam a sociedade russa da época, uma campanha antirreligiosa acérrima e uma forte repressão da produção criativa livre, “O Mestre e Margarita” é o último livro de Mikhaíl Bulgákov. O enredo, em plena ditadura de Stalin, nos anos 30, começa com dois escritores a discutir a existência de Jesus, no Largo do Patriarca, em Moscovo. A certa altura, surge Woland, uma das personagens centrais do livro, um professor e mágico, que nenhum deles conhece, e que garante saber a verdade sobre este tema. Woland prevê que um destes escritores irá morrer e, alguns minutos depois, o seu palpite acaba mesmo por se materializar, o que desencadeia uma série de situações estranhas e inesperadas, com mortes e desaparecimentos.

Existem capítulos, pelo meio, com a figura de Pôncio Pilatos muito presente, a narrar a crucificação de Jesus Cristo. Representando a imagem de Satanás, Woland vem analisar o estado moral de uma Rússia com novos valores. Ficamos finalmente a conhecer, na segunda parte, o Mestre e a Margarita que dão título ao livro. Enquanto o Mestre é um escritor oprimido pela burocracia e censura literária do período soviético, em tratamento numa clínica psiquiátrica, Margarita, a sua amada, é capaz de fazer um pacto com o diabo para o ajudar a publicar a sua obra.

Escrito com um realismo rigoroso, fantástico, profundamente satírico e humorístico, o livro “O Mestre e Margarita” é uma reprodução da vida soviética, repleto de personagens memoráveis, que disputam o Bem e o Mal, com muitos elementos mágicos de ficção relacionados com bruxaria ou magia. Com uma estrutura pouco comum, vemos o mal, representado pela personagem Woland, a perseguir personagens que representam, em sentido figurado, muitas das vítimas de Stalin naquela altura. O retrato feito seria o de uma espécie de diabo social, um homem rico que persegue o povo. Isto leva-nos a questionar o que, de facto, será um diabo nos dias de hoje.

À semelhança de quase todas as obras de Bulgákov, também “O Mestre e Margarita” é baseada, não só na sua própria experiência de vida, mas também constitui uma espécie de autobiografia do seu povo, do seu país e, em várias circunstâncias, do mundo. Bulgákov deixou-nos o seu legado e, apesar de poder originar diferentes interpretações, fica, acima de tudo, o sentimento humano, tendo inspirado, pela sua diversidade de personagens, tanto ao nível da personalidade como do aspeto, séries de televisão, filmes, peças de teatro, músicas, desenhos e pinturas.

Passe pela Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, e requisite este livro e/ou outros livros que se encontram disponíveis para empréstimo domiciliário.

Coordenadora do Serviço de Bibliotecas de Abrantes / Biblioteca Municipal António Botto

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