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Domingo, Agosto 1, 2021

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PASSE PELA BIBLIOTECA: O HOMEM QUEBRADO, DE TAHAR BEN JELLOUN

Francisco Lopes, coordenador do Serviço de Bibliotecas e Arquivo da Câmara Municipal de Abrantes
Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes

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Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “O Homem Quebrado”, de Tahar Bem Jelloun, é o livro sugerido por Francisco Lopes, Director da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Um livro que se encontra esgotado no mercado e que, por isso, é um bom pretexto para ir às bibliotecas.

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

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Tahar Ben Jelloun, marroquino francófono, romancista, ensaísta e poeta com inúmeros prémios relevantes, entre os quais o Goncourt e o Prémio das Nações Unidas para a Paz, escreve para intervir socialmente e compreender os anseios dos humanos.

o homem quebrado       O Homem quebrado conta a história de Mourad, engenheiro marroquino dum serviço público, onde é responsável pela emissão de licenças de construção. O homem é um mouro de trabalho, ocupa um lugar invejado mas que não lhe permite alimentar a família, simplesmente porque é honesto, virtuoso, não se deixa corromper e não aceita os envelopes introduzidos sub-repticiamente nos dossiês que supervisiona.

A sogra despreza-o e inquina as relações familiares até a própria esposa lhe chamar pequeno, pobre, sub-homem e assim por diante. Asfixiado entre os encargos com os estudos do filho mais velho, a asma da filha e os gritos da mulher, Murad não tem escapatória. Resistente às tentações num mundo corrupto, continua pobre, suporta pacientemente o desprezo da família e a zombaria dos colegas, para quem ele é o que não faz nem deixa fazer. Tudo o empurra cada vez mais para a corrupção. Ele é um resistente entrincheirado na leitura e nos seus devaneios, mas as suas capacidades defensivas esgotam-se quando lhe montam uma armadilha que o faz cair numa pequena e inconsciente irregularidade processual e o acusam de corrupção.

Mourad cai na amargura sem limites de quem não consegue viver renunciando aos seus princípios e leva-nos então através do labirinto da sua consciência e da própria sobrevivência, num país onde a corrupção alimenta uma economia paralela difícil de quebrar, porque assenta numa moral que admira o sucesso independentemente dos meios.

O que Tahar Ben Jelloun nos traça é o retrato sem concessões dum país que não renega e de uma sociedade que se parece com muitas outras. O tema é sempre atual, mas ele teve o mérito de o denunciar em 1994, quando publicou este livro que é tanto um bom ensaio como um bom romance sobre o assunto.

Mas o livro é tão eficaz para expor os mecanismos da corrupção precisamente porque é um romance. A vantagem do romancista sobre o ensaísta é precisamente ser capaz de colocar o leitor na situação dos seus personagens e fazê-lo sentir o que eles sentem.

O quadro é dominante em países onde a maioria dos salários são simbólicos e em que, como “eles” dizem, a vida e os mercados avançam sem nos pedir opinião. O Estado, essa entidade que ninguém quer mas de que todos se querem servir, diz-nos então que nos adaptemos, que sejamos flexíveis, e sabe que a necessidade aguça o engenho. Por isso fecha convenientemente os olhos aos estratagemas que a inteligência humana engendra para compensar a escassez, porque senão poderá haver revolta e, no fim de contas, esta é uma maneira de cada um contribuir segundo as suas capacidades para tapar os buracos. Torna-se assim uma situação normal, um consenso nacional em que o Estado até devia agradecer a todos os que o ajudam assegurando a estabilidade e até a prosperidade da nação. Basta que as coisas sejam feitas com discrição e se possível com elegância. Tudo menos alguém que levante a voz nem que seja para denunciar a pior injustiça. Tudo menos alguém sem gravata.

Na realidade, para muitos é difícil resistir quando uma voz interior lhes sussurra que são pobres mas podiam deixar de o ser. Basta que acordem e pensem no futuro dos filhos, porque aquilo a que uns chamam corrupção, para muitos outros é, na verdade, uma forma subtil de recuperação. Se toda a gente se arranja o importante é ser-se flexível. Nesta matéria como noutras, flexibilidade é vida. Porque a pobreza é muitas vezes má conselheira. Faz as pessoas cometerem delitos, roubos, fraudes, mentirem. É de tudo isto que fala Tahar Ben Jelloun e é por isso que penso que, para ele, a literatura é uma arma.

Francisco Lopes

Entrou no mundo do jornalismo há cerca de 13 anos pelo gosto de informar o público sobre o que acontece e dar a conhecer histórias e projetos interessantes. Acredita numa sociedade informada e com valores. Tem 35 anos, já plantou uma árvore e tem três filhos. Só lhe falta escrever um livro.

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