Passe pela Biblioteca | “O homem que era Quinta-Feira”, de Gilbert Keith Chesterton

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as semanas, de forma alternada. “O homem que era Quinta-Feira”, de Gilbert Keith Chesterton, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Gilbert Keith Chesterton, autor do romance, nasceu em Londres em 1867, cidade em que frequentou a Escola de arte do University College London. Foi, nesta área da arte, que iniciou a sua carreira literária, quando começou a escrever, com muito sucesso, críticas de arte, que vieram balançá-lo para as mais de cem obras literárias que viria a escrever.

O homem que era Quinta-Feira, é um romance com laivos de surrealismo, movimento que só apareceria em França em 1917, dez anos depois desta obra ter sido escrita. Para além dos tiques surrealistas, podemos encontrar no cerne da obra uma visão dicotómica em que temos o mundo em luta. De um lado da barricada, o caos e a desordem; do outro, os defensores da ordem, das instituições e da respeitabilidade. O anarquismo estava, à época, pujante na política mundial e é, com base nesta dicotomia de valores, que Chesterton constrói esta fantasiosa e bem urdida história.

O livro abre com a descrição dos subúrbios de Saffron Park, onde tudo começa. Nestes subúrbios, moram pessoas, que aparentam o que não são, em casas construídas em tijolo vermelho e que, nesta tarde, como nunca antes, são iluminados por um estranhíssimo e apocalíptico pôr-do-sol. Saffron Park, que não sendo um antro de artistas, é descrita como sendo, no seu conjunto, um lugar artístico, tanto pela singularidade dos habitantes, como pela invulgar distribuição geométrica das habitações.

Lucian Gregory, habitante neste local, é um poeta anarquista, defensor do caos e da desordem, que se ocupa em divulgar os seus ideais entre os seus vizinhos e quem o queira ouvir. Acontece que, neste peculiar fim de tarde, se vê confrontado com um forasteiro, de seu nome Gabriel Syme, que se apresenta como poeta da lei, da ordem e da respeitabilidade. A esgrima de ideias torna-se inevitável. Gabriel Syme, após uns momentos de acesa discussão, diz, frontalmente, a Gregory que, apesar de toda a fleuma apresentada pelo seu oponente na defesa dos seus ideais, não o reconhece como um verdadeiro anarquista.

Foi a última gota de água para Lucien, que não encaixou a acusação de ser um farsante na sua lealdade aos princípios anarquistas. Num súbito acesso de desespero, resolve fazer um extraordinário convite ao seu opositor, que mais tarde se lhe revelará, no mínimo, desastroso. Gregory desafia Syme a passar uma noite inesquecível, durante a qual, Gregory, lhe pretenderá provar ser um verdadeiro anarquista. Gabriel Syme aceita o desafio depois de, a rogo de Gregory, jurar solenemente que nada contará do que ia ver a ninguém, especialmente à polícia.

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Gabriel Syme que, ironia das ironias, na realidade, para além de poeta, era, também, agente de um setor especial da Scotland Yard, cuja finalidade era identificar pessoas e organizações anarquistas, vai viver uma experiência de infiltrado na suposta organização anarquista, situação que jamais lhe passaria pela cabeça.

Começa a aventura. Syme é introduzido num dos antros do anarquismo, célula gerida por sete personagens, cada um com o nome de um dos dias da semana, em que “Domingo” era o temido presidente do Conselho anarquista. Gregory soube, momentos antes da abertura oficial da reunião anarquista, pela fantástica revelação do próprio Syme, que este era agente duma brigada anti anarquista. Sujeito à jura que fizera e que tencionava manter, embora com algumas tentações de a trair, Gregory, toma consciência da real dimensão do que acabara de fazer: tinha introduzido um polícia numa reunião de extrema importância do Conselho anarquista. Gregory fica perplexo… logo na reunião em que iam nomear um novo quinta-feira, cargo que tinha quase como certo para si. Tenta recompor-se e lutar pelo lugar de quinta-feira no Conselho, mas…

Inesperado e extraordinário golpe de teatro, só assim se pode descrever o que viria a acontecer na nomeação do lugar para quinta-feira. Syme, numa intervenção bem engendrada e inteligente, consegue ser eleito Quinta-feira. Gregory fica perplexo, mas cativo pela palavra dada de nada divulgar sobre a identidade de Syme e de, pelo embaraço que seria, ter de admitir, perante o Conselho e o seu presidente, que introduzira um agente da Scotland Yard no âmago da organização.

Daqui em diante, só nos esperam aventuras inesperadas, recheadas de mirabolantes surpresas, que se vão revelando, página a página, na leitura desta obra, talvez a mais fascinante de toda as de Chesterton.

“Também história exemplar sobre o poder e sobre o medo, O homem que era quinta-feira é um desafio. Interrogamo-nos sobre a validade dos sucessivos duplos de realidades diversas, numa vertiginosa substituição de máscaras que vão finalmente desencadear uma revelação de identidade.”

Na contracapa de: CHESTERTON, Gilbert Keith – O homem que era quinta-feira. – Lisboa : Estampa, 1989. – 198 p. ISBN 972-33-0809-6

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