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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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PASSE PELA BIBLIOTECA: O HOMEM LENTO, DE JOHN MAXWELL COETZEE

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “O Homem Lento”, de John Maxwell Coetzee, é o livro sugerido por Amílcar Correia, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

“É o sorriso de Msugestão leitura entroncamentoarijanna, a pairar na sua recordação, que ocasiona a mudança, há muito ansiada, há muito necessária. De repente a depressão vai-se, vão-se todas as nuvens negras. É o patrão de Marijanna, o chefe dela, aquele cujo desejos é paga para satisfazer, e contudo, todos os dias, antes dela chegar, atarefa-se pelo apartamento fora, fazendo os possíveis por que tudo esteja imaculado para ela. Até manda vir flores, para animar a insipidez.

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A situação é absurda. Que quer ele daquela mulher? Quer que sorria de novo, decerto, quer que sorria para ele. Quer conquistar um lugar no seu coração, por mais pequeno que seja. Quererá tornar-se também seu amante? Sim, decerto modo quer, ardentemente.

O Homem Lento é um drama existencial escrito por John Maxwell Coetzee, autor sul-africano laureado com o Nobel da Literatura em 2003.

Paul Rayment, personagem central do romance, divorciado de sessenta anos, é atropelado por um carro, quando passeava na sua bicicleta, em Adelaide, Austrália, onde reside. Como resultado é-lhe amputada uma perna e, ao mesmo tempo, a sua autonomia, transformando-se num inválido motor, que sempre recusará a prótese que lhe substituiria o membro perdido. Paul, de um dia para o outro, vê-se na necessidade de contratar alguém para cuidar de si, nos tratamentos que precisa e nas mais elementares tarefas do dia a dia. Toda a rotina de vida, até aí pacífica, deste ex-fotógrafo que vive, apesar de tudo, com algum desafogo financeiro, é destruída, como uma casa reduzida a escombros. Esta nova situação leva-o a reflexões sobre o seu futuro e à velhice que o preocupa, como sessentão solitário que se sente. Aconselhado a contratar uma cuidadora, depressa se incompatibiliza com ela, pela insensibilidade com que se sente tratado e pela sua maneira de o fazer sentir ainda um velho tolo. Despede-a e arrisca a sugestão de uma segunda, de seu nome Marijana, enfermeira na casa dos trinta anos, a quem Paul reconhece competência, respeito sem comiserações ou condescendência no trato que lhe presta, tudo o que faltava na primeira cuidadora.

Paul sente que uma lufada de ar fresco entrou na sua casa, o que lhe faz ver a vida com novas perspetivas. Acaba por reconhecer, com o passar do tempo, uma grande atração, não só alicerçada na personalidade de Marijana, mas também na sua vigorosa feminilidade. Arrebatado por uma paixão que tenta manter escondida, até um dia em que lha declara, um momento de arrebatamento de que se arrependeria de imediato pela reação da enfermeira. Infelizmente, Marijana, croata, é casada e mãe de três filhos e esse facto deveria ser suficiente para o levar a ter uma atitude mais sensata. Paul fecha-se numa reflexão profunda sobre a vida, a sua velhice, as normas sociais de conduta… dúvidas existenciais que o consomem. Mas, o que o preocupa também é em manter Marijana no seu dia a dia, na sua vida. Refém da sua paixão procura sublimá-la, de algum modo, com uma oferta de ajuda económica a Drago, o filho mais velho de Marijana, um atraente jovem de invulgares capacidades artísticas, que torne possível ao jovem de realizar o sonho de frequentar uma boa universidade. Procura, com este gesto, envolver-se no ambiente familiar da mulher que ama. Esta atitude torna-se, obviamente, razão de mais conflitos, pois a sua proposta é tida como ofensiva, mesmo maliciosa, pelo menos de início, antes de Paul Raymond tentar garantir que a intenção é nobre. A proposta é aceite, com algumas reservas, como um empréstimo mediado por contrato. A história é adensada, com a ‘omnipresente’ Elizabeth Costello, uma célebre escritora sueca (criada por Coetzee noutro dos seus romances com o título “Elizabeth Costello”). Caída, não se sabe de onde, na vida de Paul e que ele julga, de início, uma alucinação da sua perturbada mente. A escritora vai-se tornando cada vez mais presente, intrometendo-se com as suas considerações moralistas nas decisões e pensamentos de Paul, com quem mantém longas discussões sobre a forma como Paul orienta os princípios da sua vida. De quase tudo o que Paul faz ou pensa, a escritora está a par, como se fora possuidora de capacidades mediúnicas, ou fosse ela um alter-ego do autor que, assim, confronta o seu próprio personagem nos seus devaneios existenciais. Penetrando no íntimo de Paul, discute e procura influenciar as suas ideias, principalmente sobre o seu relacionamento com Marijana e a família desta. Com essa finalidade, Elizabeth introduz em casa de Paul, Marianna, uma estranha, que Paul vislumbrara uma vez no hospital onde faz tratamento. Marianna, que Paul desconhecia em absoluto, foi a primeira mulher a fazer-lhe renascer uma atração sexual pela sua apresentação enigmática, as suas linhas voluptuosas e seios generosos. Na tentativa de fazer Paul esquecer Marijana, Elizabeth proporciona-lhes um encontro em casa de Paul, uma tentativa de união entre um amputado e uma cega, porque Mariana era cega, o que, na ótica de Elizabeth, eram duas incapacidades que os complementariam na relação para que ela os tentava aproximar. O encontro acontece em condições tão bizarras, que acaba por ser de uma só noite.

E de drama em drama, desenrola-se este romance em que as personagens se cruzam de uma maneira nem sempre ortodoxa, nem sempre coerente, mas viva, inesperada e empolgante. A vida, o amor, a solidão, as barreiras sociais, as eternas dúvidas entre decisão certa ou errada, no que vale ou não a pena investir a vida são considerandos que concorrem na tecedura deste emaranhado enredo.

Não sendo considerado, por muitos, como o melhor romance de Coetzee, o autor atrai o leitor desde a primeira página história com uma escrita sedutora, mesmo quando o enredo se adensa, deixando-nos cativados e apreensivos, talvez connosco, com o nosso futuro.

Um romance onde se levantam muitas questões comuns à maioria dos mortais, que se revêm neste drama existencial de envelhecer, de perder faculdades físicas e o de viver um amor tardio e proíbido.

E o romance acaba, sem final feliz, onde a história continua numa vida perto de nós.

Amílcar Correia, Bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento

Entrou no mundo do jornalismo há cerca de 13 anos pelo gosto de informar o público sobre o que acontece e dar a conhecer histórias e projetos interessantes. Acredita numa sociedade informada e com valores. Tem 35 anos, já plantou uma árvore e tem três filhos. Só lhe falta escrever um livro.

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