Passe pela Biblioteca | “O Grande Meaulnes”, de Alain Fournier

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “O Grande Meaulnes”, de Alain Fournier, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

O Grande Meaulnes, da autoria de Alain-Fournier (1886-1914), é um romance dramático, publicado em 1913, em que a magia do amor na adolescência e as cruéis contingências da realidade se digladiam em toda a narração.

Meaulnes é o novo aluno da Escola de Santa-Águeda, uma escola perdida no meio de França, em ambiente rural, na qual se preparam os alunos para o magistério do ensino primário, orientados pelo senhor Seurel, professor e pai de Francisco, o narrador. Millie, esposa do senhor Seurel, ensina os alunos mais novos na instrução primária.

Santa-Águeda era, até aí, uma escola pacata, onde o dia-a-dia escolar decorria normal, seguindo o calendário escolar sem sobressaltos. Meaulnes, que ingressa como interno, o único interno da escola, dorme no mesmo quarto amplo de Francisco. Depressa se tornam amigos e confidentes, cúmplices nos casos do quotidiano escolar e cúmplices continuam, até depois de terminarem a escolaridade e já professores em exercício, do intrincado drama que Francisco narra ao longo do romance.

Jovem, de dezassete anos, de boa compleição física e de espírito irrequieto, Meaulnes cria uma forte empatia entre os colegas, os quais, depois de numa tarde de verão Meaulnes ter salvo uma das crianças da escola primária de afogamento, o passam a tratar por Grande Meaulnes.

Na véspera duma das habituais visitas que os avós de Francisco faziam, na época natalícia, a Santa-Águeda, o senhor Seurel decidia quais os dois alunos que levariam a charrete que transportaria os avós de Francisco de Vierzon, localidade servida pela estação, para a escola. Ao contrário do esperado, Meaulnes não foi escolhido, mesmo porque o senhor Seurel sabia que o rapaz não conhecendo bem as redondezas, o mais provável era que se perdesse nesse dezembro invernio, em que a neve camuflava caminhos, deixando a paisagem irreconhecível para os menos avisados.

Meaulnes, inconformado, no dia seguinte sai da sala para, momentos depois e para espanto de todos os colegas, passar a toda a brida no átrio da escola conduzindo a charrete puxada pela égua Boa Estrela.

Meaulnes procurava impressionar todos, trazendo, sozinho, os avós de Francisco, num regresso que imaginou rápido e triunfal. Acontece que Meaulnes era novo naquelas paragens e sucedeu que, sem novidade, em breve se perdeu nas encruzilhadas a caminho da estação. Foram quatro dias que passaram até regressar a Santa-Águeda. A charrete e a Boa Estrela regressaram no dia seguinte, depois de Meaulnes desatolar a charrete de um buraco, momento que foi aproveitado pela égua para partir, sozinha, a toda a brida para Santa-Águeda.

É nesse período de tempo que acaba por viver uma atribulada e fantástica aventura que vai condicionar todo o desenrolar do romance.

Tentando regressar, acaba por encontrar ao entardecer do segundo dia um lugar, onde se depara com uma estranha e maravilhosa festa, com extraordinárias personagens vestidos com trajes medievais, onde se vislumbravam arlequins, palhaços, damas da corte, nobres, bispos, todos contribuindo para o ambiente fantasioso que o luar e as tochas tornavam mais idílicos com a sua luz. Próximo, num rio polvilhado de gôndolas, passeiam-se alguns dos personagens. Meaulnes vê-se, inesperadamente, no mesmo barco que uma jovem, que já lhe captara a atenção na margem, quer pela sua beleza quer pela sua simpatia.

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No breve passeio de barco, fica-lhe na memória o instante em que o barqueiro aperta os passageiros para poder abrir o portão do barco e, naquele aperto a sua face fica muito próxima da dela. Na outra margem do rio entabulam uma breve conversa, revelam os seus nomes e despedem-se na promessa de um próximo encontro naquele local. É o primeiro contato que terá com Ivone de Galais, a jovem por quem, irremediavelmente se apaixona. Entre os dois criam-se expectativas, que o tempo irá demorar a realizar. Nesse lugar, conhecerá, ainda, Frantz de Galais, irmão de Ivone, a quem a fantasiosa festa se destinava, porque era suposto casar no dia seguinte com Valentina a sua noiva, que nunca apareceria, o que deixou Frantz em desespero. Valentina, será uma personagem que se irá cruzar na vida de Meaulnes, em circunstâncias dramáticas.

A festa é, assim, desmobilizada no dia seguinte, quando se sabe da ausência da noiva (Valentina) e pelo misterioso desaparecimento de Frantz, que Meaulnes durante a noite conheceria e que através de uma missiva escrita que Frantz lhe deixou, fica a saber que Frantz partira em demanda de Valentina.

Meaulnes regressa a Santa-Águeda à boleia, quatro dias depois da sua inopinada partida. Quando chega dirige-se diretamente à sala de aulas, entrando em pleno decurso de uma aula. O senhor Seurel, discreto, e numa tentativa de não agitar ainda mais os restantes alunos, continua a aula como se nada de especial tivesse acontecido. Instantes depois, Meaulnes pede para se recolher no quarto, confessando que não dormia há quatro dias.

Estranho e inquieto, passa parte das noites seguintes acordado, caminhando de um lado para o outro, tentando, em vão, reconstituir o caminho que o levara a esse paraíso perdido, e poder, assim, ir ao encontro de Ivone. O tal “paraíso” era constituído por um velho castelo com capela, ladeada por um bosque e um rio. Muito tempo se passará até redescobrir o lugar e encontrar Ivone.

Inicialmente, a leitura leva-nos a pensar que se trata de um romance pueril, passado numa escola, onde as peripécias parecem as triviais de um ambiente escolar repleto de adolescentes, mas a trama vai, em crescendo, acompanhar a vida dos personagens até à última página, sempre numa constante revelação de novos factos, que nos prendem curiosos e expectantes aos acontecimentos, mesmo para além do que fica revelado.

É preciso resistir à simplicidade inicial para mergulhar, romance adentro, no profundo drama, à morte precoce de Ivone de Galais, consumida pela doença, quiçá pelas vicissitudes cruéis que a vida lhe deu. Morre, mas deixa a sua linda filha, testemunha desse amor, do breve tempo que partilhou com Meaulnes após o casamento. A menina fica à guarda de Francisco, por morte dos pais de Ivone e devido à ausência, em parte incerta, de Meaulnes.

Quem se atrever a ler este magnífico romance, escrito por um jovem de 25 anos, não vai encontrar uma história de amor com final feliz. Vai conhecer não só o drama, mas também amizade, amor, compromisso, lealdade e aventura.

Alain-Fournier é o pseudónimo de Henri-Alban Fournier, um promissor escritor que, como tantos da sua geração, perdeu a vida na 1ª Grande Guerra, deixando este romance de estrutura formal exemplar, que já foi adaptado a romance radiofónico pela BBC, a audiolivro e ao cinema em 2006, por Jean-Daniel Verhaeghe.

Sabe-se que, em 1905, o autor conhece, num porto de embarque, Yvonne de Quièvrecourt, por quem se apaixona. Acontece que, por circunstâncias várias, só viria a reencontrá-la oito anos depois, casada e mãe de dois filhos. Há quem seja da opinião que o nome de Yvonne de Galais tenha origem nessa sua paixão e talvez algum do enredo o tenha tirado da sua própria aventura amorosa. Sabemos, que o autor também se viu impedido, durante muitos anos, de reencontrar Yvonne Quièvrecourt, tal como Meaulnes, de reencontrar a sua “Yvonne de Galais”.

Atreva-se a ler este romance e, quem sabe, descobrir que memórias da sua própria adolescência, próxima ou distante, lhe irá despertar.

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