Passe pela Biblioteca | “O Anjo dos esquecidos”, de Heinz G. Konsalik

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “O Anjo dos esquecidos”, de Heinz G. Konsalik, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Heinz Günter Konsalik (1921-1999), escritor alemão nascido em Colónia, estudou medicina, tendo em seguida cursado dramaturgia em Munique e literaturas germânicas na Universidade de Viena. Envereda, depois da II Grande Guerra, pela escrita, uma paixão que lhe surge ainda criança, tendo escrito dezenas de livros. A maioria e os mais apreciados dos seus livros têm por cenário a guerra e a medicina.

O Dr. Reinmar Haller, personagem principal deste romance, era um cirurgião de renome mundial que, alvo de uma vingança, se vê, injustamente, condenado por uma intervenção cirúrgica que resultou na morte da paciente. O médico, apesar de clamar a sua inocência, acaba por ser condenado a dois anos de trabalho numa prisão, sendo-lhe retirada a licença de exercício da medicina. Haller, conhecido pela introdução de novas técnicas em cirurgia, como a aplicação de teflon na substituição de artérias, cai em desespero e entrega-se à bebida para atenuar o sentimento de revolta e desespero que o assolava.

Sem poder exercer a profissão, Haller descobre um sítio onde vê oportunidade de exercer medicina clandestinamente. Um sítio onde pensava acabar os seus dias. Nongkai, uma colónia de leprosos perdida na selva birmanesa, é o seu destino. Aí, vem a descobrir a miséria sem fim de uma aldeia habitada por leprosos, cercada por uma paliçada envolta numa rede eletrificada, cujo fim era impedir os doentes de saírem e contaminarem a população saudável. Mas, o mais grave, era que os encontrou nas piores condições possíveis, sem tratamentos adequados, abandonados à sua sorte. Não era por falta de financiamentos e de medicamentos, que para aí eram enviados em quantidade. Nongkai era considerada, oficialmente, como tendo o melhor hospital da Birmânia no tratamento da lepra.

O médico alemão depressa se apercebe que dinheiro e medicamentos são efetivamente enviados, mas não chegam ao hospital. Os medicamentos são vendidos e a maior parte do dinheiro fica nos bolsos das duas pessoas que governam o hospital. Para que tudo o que se passava ficasse impune, subornavam ou faziam desaparecer misteriosamente todos os que podiam criar entraves ao seu enriquecimento criminoso.

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O drama, passa-se depois da segunda guerra mundial, tempo em que a lepra ainda é uma doença que estigmatiza os doentes e os ostraciza, pelo menos em países como a Birmânia. É aqui, nesta leprosaria, que o médico vai encontrar uma espécie de luta redentora dos fantasmas que lhe povoam a cabeça. Numa entrega completa à causa dos doentes, na luta feroz com a direção médica e administrativa da colónia de leprosos. Taikky e Karipuri, respetivamente diretores administrativo e clínico do hospital, estabeleceram uma adulteração documental que deixava transparecer sucesso, onde só havia morte e sofrimento. Os dois dividiam entre si os dinheiros que subtraiam ao tratamento dos doentes.

Haller, contudo, não luta só, tem a seu lado fieis aliados que abraçam a sua causa, que é afinal a causa de todos os que têm nos doentes a sua missão. A bela Siri, enfermeira, Adripur, um jovem médico indiano, Pala, enfermeiro birmanense e Bettina, enfermeira alemã que chegaria depois de Haller a Nongkai. Mas, o grande apoio, vem da comunidade de leprosos, que nele vê o anjo que os vai salvar da cruel doença. É com o apoio deles, vivendo numa das suas cabanas, que consegue sobreviver à morte que lhe procuram infligir os maquiavélicos Taikky e Karipuri. A bela Siri, apaixonada por Haller, dedica-lhe um amor inabalável que é a força de Haller nos momentos difíceis que se lhe deparam.

Apesar de todas as vicissitudes, Haller e os seus apoiantes conseguem transformar Nongkai num caso de sucesso, o que, inevitavelmente chega aos ouvidos do mundo. Como em todas as sugestões, só com a leitura da obra podemos viver esta magnífica luta pelos leprosos e pela sua cura, que já nessa altura era possível, desde que os meios fossem disponibilizados.

O romance acaba com a despenalização do crime pelo qual Haller fora condenado, por um testemunho no leito de morte da pessoa que o levara a ser condenado. Mas esta vitória já vem encontrar um Haller debilitado, que sofrera um ataque de apoplexia, consequência dos excessos do álcool e da sua luta em Nongkai.

Um romance cativante, exótico, que acompanha a luta de Haller e dos seus indefetíveis aliados na luta contra a corrupção e pela causa da população de Nongkai. Um romance que, incompreensivelmente, nunca foi adaptado ao grande ecrã e que possui todas as condições para ter sucesso.

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1 COMENTÁRIO

  1. Este livro merecia um filme. Li mais de 50 livros deste autor. Ganhei o primeiro, Amores sobre o Dom, e fiquei encantada com o seu jeito de escrever, sua narrativa rica, só um entre os mais de 50 que li não gostei muito e a história acontecia aqui no Brasil, muito fraco, nem parecia ter sido escrito por Heinz Konzalik. Doei tem uns dois anos os livros para a Biblioteca Municipal da Minha cidade. A capacidade criativa dele me Impressionava.

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