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Quarta-feira, Julho 28, 2021

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Passe pela Biblioteca | “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato”, de Ana Margarida de Carvalho

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato”, da escritora Ana Margarida de Carvalho, é o livro sugerido esta semana por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

É toda uma linguagem muito particular aquela que neste romance nos transporta para tempos antigos e que nos atira para dentro da história de um naufrágio e dos seus sobreviventes, em finais do século XIX.

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nao-se-pode-morarTalvez a característica mais marcante deste romance de Ana Margarida de Carvalho seja exactamente a linguagem, a mesma que caracteriza e diferencia cada uma das personagens que nos é apresentada, que alude a um tempo simultâneo de medos e iras, de crenças e de uma profunda religiosidade. Uma linguagem crua, incisiva, por vezes carregada de simbolismo, com recurso a referências populares e recorrentes imagens telúricas.

A narrativa centra-se, a espaços, na dicotomia presente/passado, num regresso constante ao crescimento de cada uma das personagens, permitindo ao leitor perceber melhor a construção identitária de cada uma delas e, por conseguinte, os comportamentos e as decisões. Em suma, há uma constante desconstrução do puzzle narrativo, para depois se ir reconstruindo e consolidando, novamente, ao longo do texto.

Nesse tempo de procura da salvação, para o qual nos leva a leitura, que é o mesmo tempo da abolição da escravatura, o desenlace é construído, na mesma linha, a partir também da abolição  – inevitável – de qualquer estatuto social no enquadramento da acção. Neste romance, sobreviver às circunstâncias e a si próprio é o ditame principal. A organização é o caminho.

Mas de que trata afinal este livro que aqui se sugere? Vamos por partes.

As circunstâncias: um naufrágio e um grupo de sobreviventes.

O espaço: a exiguidade de uma praia acessível, mas que se extingue nas marés altas, e o refúgio numa gruta/penhasco. Toda uma dicotomia presente: as trevas e a luz; a sede e o acesso condicionado a água potável; a escassez e o alimento; o interior e o exterior, este só acessível pela condescendência do mar.

As personagens: um grupo de pessoas oriundas de diversas posições sociais, de diferentes cores de pele e compleições físicas, com profissões e educação distintas. Homens e mulheres, adultos e crianças.

A autora, Ana Margarida de Carvalho, coloca todos os elementos em pé de igualdade, no nível mais básico da vida. Em confronto com esta situação limite, deparam-se, todos, de forma inesperada, com a dependência exclusiva da conjugação de talentos, ou de forças e cumplicidades.

O grupo que habita aquela praia (com as suas memórias e os seus mortos por companhia)  luta pela construção e manutenção de uma aliança, sempre consciente desta dialéctica na qual o mar é, por vezes alimento, outras o monstro que devora e suga.

Por fim, o confronto: a ilusão e a realidade; a paralisia do terror e a audácia da acção; as circunstâncias imaginárias e as decisões tomadas perante as circunstâncias reais.

É um belíssimo romance, que nos agarra a uma leitura quase compulsiva.  Assenta numa linha fortemente filosófica, alicerçada nas forças e nas fraquezas do Homem, no regresso ao mais elementar atributo da natureza humana que se evidencia quando está em causa a sobrevivência, sobretudo a noção de solidariedade.

É uma narrativa onde tempo e acção impõem-se ao leitor e marcam a cadência da leitura, a partir do ritmo constante de uma natureza particular: maré cheia – maré vaza.

Ana Margarida de Carvalho é jornalista e autora de outras publicações literárias. Em 2014, foi vencedora do grande prémio da APE, com o seu romance de estreia, Que Importa a Fúria do Mar (Teorema, 2013). Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato (Teorema) foi publicado em Abril deste ano. Revisitando um verso de um poema de Alexandre O’ Neill – Poema do Desamor – o título deste romance remete-nos, a páginas tantas, para essa afirmação.

Passe pela biblioteca e saiba porquê.

Diretora da Biblioteca Municipal de Torres Novas

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