Passe pela Biblioteca | “Na Massa do Sangue”, de Evelina Gaspar

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “Na Massa do Sangue”, de Evelina Gaspar, é a sugestão apresentada esta semana por Margarida Teodora Trindade, da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes , em Torres Novas.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

“Nunca percebi porque escolhemos sempre, os três, esse lugar para chorar sozinhos. Talvez o poço, por líquida sugestão, atraísse as nossas águas profundas à flor dos olhos.”

Na Massa do Sangue, Evelina Gaspar (pág. 20, último parágrafo)

A frase acima — que por si só dá um belíssimo poema — pode ler-se no romance de Evelina Gaspar (1974), Na Massa do Sangue (Origami Livros/Médio Tejo Edições), vencedor na categoria de Romance do Prémio Literário Médio Tejo Edições 2017.

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Certeira na tentativa de escrever uma biografia ficcionada, mas inspirada, crê-se, em histórias verídicas, contadas no seu todo a partir da primeira pessoa do singular, provida de uma densidade psicológica intimista, em forma de memórias, Evelina Gaspar surpreende os leitores pela qualidade que empresta à narrativa.

Desde logo, a estilística tão particular que a autora utiliza ao longo da obra é muito própria.

Referimo-nos às dinâmicas dos ritmos de narração, que se entrecruzam entre o desabafo, a revolta e a confissão e que incluem, sem reservas, o leitor na narrativa. Realçamos a descrição dos ambientes, quer nos episódios relatados, mas, sobretudo, a singularidade que a autora confere a cada uma das personagens que nos vai apresentando ao longo deste romance.

Recuamos neste livro ao Portugal dos anos sessenta do século XX, à triste condição de mulheres amputadas na vontade, na liberdade e na identidade. Recordamos e associamos à nossa infância e juventude paisagens de um país rural, atrasado, onde a miséria, a fome e a violência eram quadros usuais.

Consequentemente, vimos aqui refletido, em grande parte também, o contexto da Emigração. A circunstância árdua de recomeçar a vida num país estrangeiro, a luta, a resistência e, mais uma vez, o papel da mulher-mãe como alicerce quotidiano.

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Arrojado na construção da narrativa, somos nós, leitores insuspeitos e crédulos, os espectadores da construção de uma família, e quantas vezes nesta leitura invadidos pelas alegrias e pelos revezes do crescimento da mesma. Porém, e sobretudo, somos neste romance testemunhas da emancipação de uma mulher e da ruptura necessária com outros tempos que a História nos legou como passado. Numa linguagem simples, despojada, quando não árida, mas bela, profunda e íntima. Quase silenciosa.

Usufruímos de cada capítulo com sensações várias de cumplicidade com o texto: de transgressão, de divertimento também, de redenção, de justiça, mas acima de tudo de sabedoria.

Transcrevemos aqui o que ficou patente na deliberação do júri — que muito nos honrou integrar— do Prémio Literário Médio Tejo Edições 2017: “Uma narrativa que num instante nos faz soltar uma gargalhada genuína e no outro nos prende à leitura pela empatia, pelo arrebatamento, pela autenticidade. Um romance que não cai em tentação, longe dos lugares comuns da nossa era.”

Fica a nossa sugestão de leitura.

Passe pela Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes e faça o empréstimo desta obra.

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Boas leituras e, se for caso disso, votos também de umas excelentes férias.

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