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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

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Passe pela Biblioteca | “Manobras de guerrilha: pugilistas, pokémons & génios”, de Bruno Vieira Amaral

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “Manobras de guerrilha: pugilistas, pokémons & génios”, de Bruno Vieira Amaral, é a sugestão apresentada esta semana por Francisco Lopes, da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Manobras de guerrilha, de Bruno Vieira Amaral, foi apresentado na Biblioteca Municipal António Botto no passado mês de abril, no contexto dos “Cadernos de Viagem de Abrantes”, apenas dois meses depois de aí termos apresentado o seu romance Estarás comigo no paraíso. A repetição tão próxima é mais do que justificada. Bruno Vieira Amaral não é só mais um escritor, é alguém que é senhor de uma voz invulgar no panorama da atual literatura portuguesa. Não são apenas os sucessivos e importantes prémios que o afirmam como um valor seguro entre os novos escritores portugueses, basta a leitura de uma ou duas páginas de um dos seus livros para ficarmos agarrados a uma escrita poderosa, sensível e emotiva.

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Manobras de guerrilha é um misto de ensaios, crónicas e bio ficções que além de percorrerem o ambiente dos festivais literários, se constitui como um reportório de mitologias populares contemporâneas.

Chalana, o “pequeno genial”, surge como paradigma da «força das mitologias identitárias das pequenas comunidades» – sobretudo o Barreiro, onde nasceu e cresceu, mas também Abrantes, que frequentou no auge da fama, por força do casamento com Anabela – e conto biográfico de exaltação do génio futebolístico tornado herói popular, cuja ingenuidade o torna vítima de oportunismos diversos e, sobretudo da maior das infâmias, o esquecimento: «os miúdos já não sabem quem foi o Chalana».

No universo futebolístico o livro evoca ainda génios como Messi ou Ronaldo, que no entender do autor não têm a dimensão humana de Chalana ou Maradona e, por isso, são apenas máquinas, génios profissionais, produtos do marketing e do futebol científico, sem as imperfeições que nos tornam humanos. Para o sermos é preciso algo de louco, patético ou mesmo trágico. Por isso, desaparecem do nosso imaginário quando desligamos a televisão e dificilmente chegarão à condição de mitos.

Do universo do boxe, Bruno Vieira Amaral recupera outros heróis populares como Mike Tyson e Muhammad Ali. Mas sobretudo Jack LaMotta, numa evocação cruzada com o melhor desempenho cinematográfico de Robert de Niro, em O touro enraivecido, em cujo sofrimento autoinfligido, quer na sua vida pessoal, quer no ringue, Bruno Vieira Amaral vê «algo de sacrificial, como se estivesse a pagar com o corpo não só pelos seus pecados, mas também pelos pecados dos outros».

Depois de percorrer os universos literários de Camus – na visão de Susan Sontag como exemplo de literatura moral – de Céline e do seu «pessimismo antropológico» e de Nelson Rodrigues «um especialista das zonas de tensão, dos conflitos contraditórios no interior do ser humano», seguem-se mais textos ricos em referências cruzadas sobre música e cinema, a propósito de Freddie Mercury e David Bowie.

Na sua extravagância épica o génio de Bohemian Rapsody é visto como alguém em que habita «tudo e o seu contrário, ópera e rock, túnicas e lantejoulas» comparando-o com a grandiosidade do cinema de Cecil B. DeMille em Os dez mandamentos e afirmando-o como alguém em que até o mau gosto é genial e digno de admiração.

Já o percurso de David Bowie, é visto como «a história de alguém a escapar permanentemente da imagem que construiu e da mitologia que os outros foram fazendo» de si, num processo de permanente escapismo e renovação que foi fazendo na música, ao mesmo tempo que no cinema obtinha colaborações memoráveis com realizadores como Nagisa Oshima, Martin Scorsese ou Lars von Trier.

O livro faz ainda incursões no universo dos festivais literários, em parte vistos como «confirmação de que a estupidez e as opiniões banais e formatadas se distribuem, com alguma harmonia, por todo o lado e não poupam esta elite de iluminados pontas-de-lança do pensamento com que pessoas mais ingénuas ainda insistem em confundir os escritores».

Em A inteligência é a alma dos livros, o autor conclui que essa é uma característica do leitor, que lhe permite «escolher, separar, ler entre linhas, para, no final do processo, chegar à alma do livro». Não há bons livros sem bons leitores e não há bons leitores sem inteligência. Sem ela não é possível compreender «a multiplicidade de leituras, as mil formas e disfarces que os livros assumem consoante a inteligência que deles se aproxima».

Sobretudo num tempo em que aos escritores não basta que escrevam bons livros. Também é preciso que não incomodem os leitores nem destruam as suas ilusões. Onde não há lugar para escritores imprevidentes que ousem enfrentar os leitores e os obriguem a pensar para chegarem à verdade do livro. Escritores que não se curvem perante o tirano caprichoso que é o leitor burro.

«E como a literatura precisa de leitores exigentes! Para a existência da grande literatura é necessário que o escritor escreva contra os seus leitores, contra si mesmo, contra as ideias feitas e a melodia fácil da má poesia. E essa que precisam aqueles que escrevem: não é a rebeldia política, a confortável rebeldia de salão de quem berra contra os poderes em público e depois pratica uma escrita mansinha, delicada e diluída; nem é a rebeldia social, de quem desafia convenções a que já ninguém liga; mas a rebeldia de quem se atreve a escrever contra o mundo, de quem abdica das muletas da linguagem mesmo que se arrisque a cair, de quem se desafia a si mesmo e desafia os seus leitores, de quem evita as fórmulas porque as fórmulas são respostas antigas a perguntas que já ninguém faz.

É essa rebeldia intrínseca à escrita — e não a rebeldia postiça da pose e da afirmação bombástica que colhe elogios unânimes e anestesiados — que é a alma dos grandes livros, livros que pedem a inteligência dos leitores e cujas ideias incómodas os obrigam a sair do marasmo e da inércia próprios do leitor que lê para que lhe venha o sono».

Em tudo isto, como se vê, o que interessa a Bruno Vieira Amaral é o humano, como é timbre de quem ficciona mesmo quando faz rigoroso trabalho ensaístico. Isso distingue-se na qualidade da observação e na perspetiva da abordagem. O que lhe importa é saber onde está a pessoa e o que ela é e sente. Nem que seja para a incomodar.

Diretor da Biblioteca Municipal de Abrantes

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