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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

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Passe pela Biblioteca | “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa)

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), é a sugestão hoje apresentada por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento. Passe pela Biblioteca… e boas leituras! 

“Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê.”

Assim, começa o “Livro do Desassossego”, cuja criação é explicada por Pessoa, na carta que escreveu ao poeta açoriano Armando Cortes-Rodrigues, em 1914, quando lhe diz: “O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego. Mas tudo fragmentos, fragmentos.”

E estes fragmentos surgem, como escreve Richard Zenith, prefaciador da obra:
“A inspiração chega de formas imprevisíveis. Uma imagem entrevista, uma frase entreouvida, um cheiro que desperta uma lembrança, uma conversação, uma notícia no jornal, uma repentina ideia surgida na cabeça – coisas tão simples podem dar origem a um poema, um quadro, uma sinfonia, ou até a um complexo sistema filosófico.”

Neste caso deu origem ao que era para ser um livro, mas que nunca Pessoa organizou como tal, mas a folhas dispersas de um diário que aborda vários assuntos. Escritos que surgiam a Pessoa em catadupa, e com uma emergência tal, que se via compelido a escrever «mesmo sem querer». Era o desassossego em que andava, um desassossego de que tem “…todos os sonhos do mundo”.

Assim, Zenith justifica a razão de ser desta obra, como tendo origem na palavra “desassossego”, que terá agitado a alma de Pessoa, em 1913, quando a inicia e que continua escrevendo nos 20 anos seguintes, sem nunca ter, em vida, como já disse, chegado a estruturá-la.

Os fragmentos, de que fala Pessoa, são retalhos de uma manta de desassossego que lhe cobre a vida de ajudante de guarda-livros, inicialmente representado por Vicente Guedes, um dos seus heterónimos, que assume essa missão até cerca de 1920, altura em que passa o testemunho a Bernardo Soares, que se apropria da existência de Guedes e se torna no autor assumido. Bernardo Soares é, afinal, segundo os estudiosos, um semi-heterónimo de Pessoa, um Fernando Pessoa desprovido de raciocínio e afetividade, como o próprio autor o define. Seria, por isso, mais próximo da personalidade de Pessoa, que os verdadeiros heterónimos, que se pretendem representar personagens com os seus cursos de vida, personalidades e escrita diversas de Pessoa.

A heterogeneidade dos textos, desprovidos de uma ligação ou organização óbvia, que tanto tem dificultado a vida a quem uma orientação lhes quer dar, são o reflexo de uma obra a que Pessoa se refere como:
“…um estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direções.”

São muitas as ideias que nascem na sua imaginação e lhe tiram a capacidade de se concentrar numa obra, indivisa, com princípio meio e fim, com um fio sólido de continuidade e homogeneidade. A própria duração da escrita leva a que seja dispersa e fragmentada, como foi dito.

Acaba sendo, declaradamente, um diário de inquietudes, espantos, medos, opiniões e desabafos de assuntos mais ou menos profundos, escritos de um modo magistral.

Pode dizer-se que Fernando Pessoa é um ser completamente desassossegado, tanto, que para se revelar teve a necessidade de se expressar através dos diferentes heterónimos, para exorcizar as diferentes personalidades que se digladiavam em si.

Uma obra extraordinária, não de um louco, mas talvez de um esdrúxulo, como disse numa entrevista Inês Pedrosa a propósito da personalidade de Pessoa.
Também numa palestra sobre figuras grandes da literatura portuguesa e das suas tertúlias, Fernando Dacosta confidenciou que em certos círculos se referiam a Pessoa como “o maluquinho do Chiado”.

Todo o génio tem a sua loucura, mais ou menos exuberante, mais ou menos conhecida, mais ou menos revelada.

Fernando era um escravo da sua escrita, também do álcool, a que nos últimos anos de vida se rendeu militantemente. Dizia que se alguém para escrever bem precisava de beber, que bebesse. E ele fê-lo, mas com um génio que o deixou imortal no panorama literário não só do português como internacional. Foi, por isso, foi profusamente traduzido e, recentemente, foi esta sua obra, nomeada no famoso jornal “Le Monde”, como um dos 100 melhores livros da literatura mundial (em 22 de junho de 2019), por um grupo de estudiosos contratados para a elaboração dessa seleção.

Quando o lemos, revemo-nos nele, quando identificamos como nossas algumas das suas próprias inquietações, algum do seu desassossego.

É, ainda, um livro que pode ser lido como se quiser. Ele próprio não foi escrito uno, mas fruto de uma compilação de textos dispersos, por isso, sintamo-nos livres de o ler, abrindo-o ao acaso.

Uma obra de leitura obrigatória.

Boas leituras.

Bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento

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