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Domingo, Julho 25, 2021

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PASSE PELA BIBLIOTECA: “JESUSALÉM”, DE MIA COUTO

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “Jesusalém”, de Mia Couto, é o livro sugerido por Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

 

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Depois de ter estado pela primeira vez em Abrantes, ainda em finais dos anos 90, para participar no Festival do Imaginário, voltou aqui em 2009 para apresentar o romance Jesusalém. Sugerir a leitura desta obra é pois uma forma de reviver esse 21 de julho e me reencontrar com um extraordinário escritor, com uma poética narrativa incomparável, uma prosa mágica que permanentemente reinventa a língua portuguesa e nos interpela com as grandes questões da humanidade, de todos os tempos e todos os lugares.

JESUSALÉM_ MIA COUTOMia Couto atinge com esta obra todo o esplendor de uma mestria narrativa com recursos capazes de fundir, na mesma cena, tragédia e comédia, embrulhadas numa “encenação” épica em que todos se confrontam com a morte, como o supremo exorcismo capaz de fazer deflagrar o renascer das identidades.

Permanente confronto de personagens, espaços e tempos, onde se procura memória e esquecimento, expiação, culpa e redenção, habitado por pessoas levadas pela vertigem existencial, que acham, como Marta, que «A vida só sucede quando deixamos de a entender», Jesusalém é um lugar que se pretende «desabitado de memórias», nos confins da savana, para além do qual fica o Lado-de-Lá, um resto do mundo onde já nem há gente, porque a todos dominam «o medo e a culpa». «A fronteira entre Jesusalém e a cidade não foi nunca traçada pela distância [… porque] nenhum governo do mundo manda mais do que o medo e a culpa.» Por isso se fala aqui de gente que quer deixar de ser pessoa; personagens que fogem dos seus demónios interiores, como se na fuga apenas se transmutassem em invólucros vazios.

Silvestre Vitalício arrasta os seus para uma espécie de purgatório, dum silêncio eterno até que dure. A travessia desse silêncio é uma agonia sem fim, que só alguma finíssima melopeia poderá romper. Ir para longe, pode ser a única forma de evitar a loucura, ou apenas uma forma de enlouquecer, como se a loucura fosse só uma viagem de que não se sabe se há regresso.

Remeter-se ao mais denso dos silêncios é a forma de exorcismo encontrada para purgar todo o mal, fazendo-o coar e escorrer lentamente, até à difícil purificação, interrogando-nos se será preciso provar a peçonha, o pior dos venenos, para recuperarmos a lucidez?

O permanente viver em contradição – de vontades, de desejos, de obrigações, de condições – transforma o mundo num lugar difícil para se viver. De tal modo que como diz Silvestre, revelador, para Mwanito «[…] este mundo, para ser amado, precisa de muito ódio.» O que ele procurava na fuga para o Lado-de-Lá era o esquecimento, porque «Toda a paisagem em redor lhe doía, aleijava-o a cidade inteira, a miséria das ruas magoava-o mais que a contaminação do sangue.», doía-lhe ver «[…] como o luxo escandaloso se encosta na miséria». Mas até aqui se antecipa a chegada dos «investidores privados» do Lado-de-Lá, significando que até no fim do mundo, nas traseiras de parte nenhuma, se sofrem os efeitos da globalização.

Este livro fala de um mundo em que ninguém sabe andar por aí, porque os que têm escrúpulos se sentem sempre deslocados e se remetem ao silêncio. Um mundo em que «Quem nunca foi criança não precisa do tempo para envelhecer», em que a nossa terra é a nossa condenação e em que nos exilamos de nós mesmos.

Num mundo destes – um mundo de negação – só faz sentido a pergunta de Vitalício: «Amanhã? E quando é amanhã?», porque como diz Sophia, o mundo é um «[…] lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa».

Esta é pois uma história povoada de gente sem esperança. Também gente a quem o moralismo mata mais que a pobreza extrema e para quem a maior exclusão é a impossibilidade de qualquer fantasia. É um livro sobre a viagem. Sobretudo sobre essa incessante procura que é a viagem interior. Uma viagem em que não é certo que haja destino.

Num mundo assim, ainda haverá inocentes? Ou os que restam serão no mínimo cúmplices? Como disse Mwanito, «Nestas páginas tudo é a nossa vida. [Mas] viver, […] quando é de verdade?». O mundo morreu, ou ainda não chegou a nascer?

Afirma outro personagem que «[…] o mundo termina quando já não somos capazes de o amar», mas quem escreve um romance assim, como Mia Couto, de certeza que obstinadamente o ama de forma incondicional.

Diretor da Biblioteca Municipal de Abrantes

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