Passe pela Biblioteca | “Fanny Owen”, de Agustina Bessa-Luís

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “Fanny Owen”, de Agustina Bessa-Luís, é a sugestão apresentada esta semana por Margarida Teodora Trindade, da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

É inevitável trazer aqui, esta semana, Agustina Bessa-Luís. Sugere-se a leitura de Fanny Owen (Guimarães Editores, 2009), mas nesta sugestão encerra-se a obra toda.

Encontramos em Fanny Owen, como no universo da escrita de Agustina, a simultaneidade da intimidade e do distanciamento. Mordaz, mas generosa, a escritora cedo nos inclui nas linhas da paixão e do desdém. Mas, as dicotomias que suportam este romance são bastantes e por isso é incontornável referir aquela que provoca a narrativa e que é a da amizade-rivalidade.

Todas as bifurcações e vínculos na relação entre personagens desembocam na trama de um romance que nos transporta para o imaginário do ambiente intelectual e boémio da cidade do Porto, e dos seus arredores campestres, em meados do século XIX, e que se desenrola a partir de acontecimentos verídicos.

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Encontramos nele a voz de Camilo Castelo Branco justificada por Agustina no prefácio da obra em apreço: “Pareceu-me necessário e útil trazer Camilo Castelo Branco à luz da nossa experiência humana sem o traduzir na opinião de escritor que é a minha.”.

Importa referir que foi também a partir de Fanny Owen que Manoel de Oliveira realizou o filme FRANCISCA, em 1981.

Ostensivamente fora de certa banalização da atual literatura contemporânea, diziam-na “versada no conhecimento profundo da alma humana”. Sábia e arguta, Agustina inscreve pois em cada um dos seus leitores o interior de cada uma das suas personagens.

A obra dura e contracorrente da escrita de Agustina Bessa-Luís não permite ligeireza na abordagem. A consistência semântica e a profundidade, quer do estilo, quer da linguagem, requerem que o leitor esteja preparado para encarar um mergulho denso e demorado. Para tal, e para quem nunca a leu, avisa-se da coragem necessária para esse começo. Mas, dizem que a sorte sorri aos audazes. Lê-la é levar para casa o primeiro prémio.

Todavia, Agustina não é para meninos. Prestigiada, a sua escrita é aquela extraordinária refeição caseira e antiga que, sem ser demasiado sofisticada, é elegante. Ao mesmo tempo é tão farta e nutritiva que a leitura obriga a maturidade, à consciência do alimento e à demora necessária da digestão. Faz-nos crescer e esse mesmo processo encerra em si um verdadeiro ritual de passagem. A partir daí nenhuma leitura será como antes.

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Mas, muito se tem escrito na última semana sobre Agustina e a sua obra, quase nada se consegue acrescentar e, também por prudência, não temos aqui essa veleidade.

“Cada livro é uma peregrinação; não precisa de passaporte e aviso que o distinga e lhe assegure hospitalidade.” Assim diz ela no prefácio que a própria redigiu para Fanny Owen, nesta edição da Guimarães Editores (2009).

Parece-nos ser este o motivo ideal para que este livro encaixe na sugestão de leitura desta semana. Abusivo seria dizer mais.

Passe pela biblioteca ou consulte o catálogo online da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes e verifique se este, ou outro, livro de Agustina está disponível para empréstimo.

Consagremos a escritora na leitura da obra que nos deixou.

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