Passe pela Biblioteca | “Em nome da terra”, de Virgílio Ferreira

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações de leitura neste jornal, todas as semanas. “Em nome da terra”, de Virgílio Ferreira, é a sugestão hoje apresentada por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Vergílio Ferreira nasceu na Serra da Estrela, em Melo, concelho de Gouveia, em 1916. Iniciou os estudos no seminário do Fundão que abandonou em 1936, para os concluir no Liceu da Guarda. Formou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra. Foram os anos que passou no seminário que lhe haviam de proporcionar a escrita de “Manhã Submersa”, um dos romances mais conhecidos do autor.

Iniciou a sua carreira de escritor com “O caminho fica longe”, em 1943, que o alinhou na corrente neorrealista. Sete anos depois, com o romance “Mudança”, enfileira no existencialismo francês que encontramos na sua obra até 1959. A partir daí passa a escrever uma prosa narrativa num estilo muito próprio.

Em 1990, publica “Em nome da Terra”, que tem como narrador o principal personagem da obra, João, um juiz viúvo e reformado.

João revisita o passado numa carta que vai escrevendo dirigida a sua mulher, já falecida, cujo conteúdo é, afinal, todo o texto do livro.

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“Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei, vou-te escrever. Mas não quero amar-te no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece.”

Assim inicia o livro, em que a redação da carta é uma espécie de fuga ao presente, a sua estadia no lar, cujo quotidiano vai descrevendo como assunto secundário, mas muito analítico. Reflexões sobre o quotidiano na instituição, a segregação dos utentes, o perfil dos residentes e funcionários, enfim, todo género de observações possíveis de encontrar nos dias de hoje.

“– As raparigas vão preparar o quarto e enquanto o preparam o senhor doutor vai tomar banho.

– Eu dispo-me.
– Doutorzinho rabugento.
E sem dar atenção, continuou a despir-me.

Eu tomo o banho! berrei-lhe para ela acreditar na minha força de homem. E ela disse ora não querem lá ver este menino birrento. Estou nu e sem razão para ter vergonha de estar nu, que era apenas o que me podia vestir agora. 

E imediatamente começou a lavar-me. Tão desprotegido, Mónica. Tão desapossado do meu ser. Lavava-me a cabeça, o tronco, lavava-me as partes amorosamente. E eu pensei – depois vai pôr-me cueiros lavados.

– E agora vamo-nos limpar – diz-me a Antónia.

Ele, que sempre se opusera ao internamento da sua mulher num lar, apesar das insistências da sua filha Márcia, voluntariara-se para ingressar num.

Mónica, a mulher, acabaria a sua vida em casa, cuidada por ele e Camila, uma empregada da casa. Nunca quisera, em nome da memória do seu passado com Mónica, a todo os bons momentos que tinha vivido com ela, a toda uma vida a dois, “abandoná-la” numa instituição, como quem se livra dum fardo. Opôs-se a Márcia e conseguiu manter Mónica em casa até ao fim.

Para o lar levou alguns livros, o retrato da mulher, o “Cristo mutilado”, escultura de Cristo, sem a cruz e sem um bocado do pé esquerdo; uma reprodução de um fresco de Pompeia sobre a primavera, onde está desenhada a deusa romana Flora, e um disco de vinil, contendo um concerto de Mozart para oboé, que tinha a particularidade de ser dedicado a Mónica, o nome da sua mulher.

Todos os objetos que escolhe vão ter o seu papel na construção da narrativa que se espraia na carta a Mónica, estivesse ela onde estivesse. O Cristo a quem pede meças sobre sofrimento e com quem mantêm diálogos de profunda reflexão. A deusa Flora, que lhe lembrava a mulher no auge da sua beleza e energia. As memórias que levava e lhe serviriam para revisitar episódios do passado, com uma profundidade e minúcia que caraterizam o estilo peculiar da sua escrita.

“Agora que tudo findou, agora posso criar-te como Deus não soube e eu sei. Não conheces o fresco de Pompeia, tenho de to mostrar.
É uma deusa linda num instante do seu movimento leve, mas não se lhe vê a face. Porque a beleza não é dela, mas da leveza do seu passar.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               …
Tenho de deixar de olhar esta deusa efémera no breve instante de ser deusa, tenho de ir ter contigo ao fundo do corredor talvez, a Camila chama-me de lá aos berros
– Senhor doutor! A senhora sujou-se outra vez!”

As referências ao lar aparecem, na maioria das vezes, como episódios inconvenientes, que se intrometem na narrativa epistolar da revisitação à sua vida, quando ela era uma vida muito vivida e sem fim à vista.

Num texto denso e filosófico, Vergílio, na pessoa de João, juiz reformado e viúvo, visita o passado, fala do seu presente e filosofa sobre o seu futuro próximo, o encontro com o “Alma Grande”.

Boas leituras.

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