Terça-feira, Dezembro 7, 2021

Passe pela Biblioteca | “Dentro do segredo: uma viagem na Coreia do Norte”, de José Luís Peixoto

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Dentro do segredo: uma viagem na Coreia do Norte”, de José Luís Peixoto, é a sugestão hoje apresentada por Sónia Lourenço, da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Passe pela biblioteca… e boas leituras!

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José Luís Peixoto é um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética encontra-se traduzida num vasto número de idiomas e está incorporada em dezenas de antologias, sendo estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras.

Foi atribuído a José Luís Peixoto, em 2001, ao romance “Nenhum olhar”, o Prémio Literário José Saramago, firmando um enorme reconhecimento da crítica e do público. Destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha, “Cemitério de pianos” recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, em 2007. Com “Livro”, venceu o Prémio Libro d’Europa, atribuído em Itália ao melhor romance europeu publicado no ano anterior, e em 2016 recebeu, no Brasil, o Prémio Oceanos com “Galveias”. Na poesia, o livro “Gaveta de papéis” recebeu o Prémio Daniel Faria e “A criança em ruínas” recebeu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. As suas obras foram ainda finalistas de prémios internacionais como o Femina (França), Impac Dublin (Irlanda) ou o Portugal Telecom (Brasil). As suas mais recentes obras são “Autobiografia” (2019), “Regresso a casa” (2020) e “Almoço de domingo” (2021).

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Em 2012, José Luís Peixoto publicou “Dentro do segredo: uma viagem na Coreia do Norte”, da Quetzal Editores, a sua primeira incursão na literatura de viagens. E, no dia 20 de dezembro de 2013, apresenta, com um olhar inédito, esta viagem surpreendente, na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Nesta sessão de apresentação do livro, em Abrantes, revelou que foi a biblioteca itinerante desta cidade que despertou em si o gosto pela leitura. A biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian saía de Abrantes para levar os livros a vários pontos do concelho e zonas limítrofes, sendo esta, para muitos, a única forma de acesso à leitura.

José Luís Peixoto, que é de Galveias, concelho de Ponte de Sor, nasceu, em 1974, na maternidade de Abrantes, no edifício agora ocupado pela Santa Casa da Misericórdia, reproduziu, com uma visão fascinante, nessa noite em que apresentou o seu livro em Abrantes, e em que estava presente o Sr. José Diniz, esses tempos em que a biblioteca itinerante saía de Abrantes, conduzida pelo Sr. José Diniz, e ia até à sua aldeia. “A minha relação com Abrantes, para além de ter sido a cidade onde nasci, prende-se com a biblioteca itinerante que, quando eu era mais pequeno, ia até às Galveias o que para mim foi um despertar importantíssimo para a leitura”, aludiu José Luís Peixoto. O escritor chega mesmo a afirmar que “se calhar, imagino, sem isso talvez hoje não estivéssemos aqui para a apresentação deste livro”.

José Luís Peixoto declara ser escritor devido à influência exercida pelo Sr. José Diniz, uma figura incontornável da sociedade abrantina, homem da cultura, figura carismática que foi dinamizador da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian durante mais de 30 anos, na segunda metade do século XX. O Sr. José Diniz faleceu a 11 de janeiro de 2021 e, em sua homenagem, a BIA passou a chamar-se Biblioteca Itinerante de Abrantes “José Diniz”.

Em 2013, essa noite de dezembro, em Abrantes, foi memorável e, talvez, por essa razão tenha voltado ao livro 2Dentro do segredo: uma viagem na Coreia do Norte”, e decidido que seria uma boa sugestão de leitura para apresentar.

O metafórico título da viagem de José Luís Peixoto (Dentro do segredo) remete para o mistério da Coreia do Norte, destino que o autor visita em abril de 2012, durante as comemorações exuberantes do centésimo aniversário de Kim Il-sung, em Pyongyang. Já o complemento de título (uma viagem na Coreia do Norte) remete para a escrita de viagens. O registo imprimido no livro assemelha-se ao da crónica de viagens e atribui- lhe um semblante, também, jornalístico.

José Luís Peixoto participou na viagem mais surpreendente, extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que, há mais de seis décadas, não recebiam visitantes estrangeiros. O escritor entrou dentro do país mais fechado do mundo, dentro da ditadura mais repressiva que se possa imaginar, dentro de um estado coberto por um absoluto isolamento, dentro do mistério, dentro do segredo.

Nas primeiras páginas do seu livro, José Luís Peixoto conta como surgiu a vontade de viajar até à Coreia do Norte. Ficamos a saber que pouco mais de um ano antes, em Los Angeles, tinha conhecido um homem chamado Chiwan, depois de terem participado juntos numa leitura pública em Glendale. Chiwan foi a primeira pessoa de origem coreana que ele conheceu. Os seus pais tinham fugido da Coreia do Norte para o Paraguai quando este era ainda uma criança, permanecendo aí durante cinco anos, antes de se mudarem para Los Angeles. José Luís Peixoto manteve-se em contacto com Chiwan, debatendo com ele alguns enfoques, nomeadamente o seu regresso pela primeira vez, desde os seus cinco anos, a Seul, em 1989, ocasião em que sentiu o impacto de estar numa cidade onde todos tinham a sua aparência. José Luís Peixoto refere que o seu desejo de visitar a Coreia do Norte poderá ter nascido da sua vontade de estar num lugar onde ninguém fosse parecido consigo (página 22). José Luís Peixoto revela, na mesma página, que a sua curiosidade pelo país se estendia muito para além disso, dado que sempre se deixou cativar por sociedades fechadas e sistemas políticos totalitários, apesar de ser absolutamente contra este tipo de regimes, como afirma no seu livro de forma sistemática e incansável. O seu interesse residia, sim, na perceção do quotidiano das pessoas que viviam nessas sociedades e não tanto na compreensão do contexto político.

Numa entrevista publicada no sítio online do Jornal i, em 27 de novembro de 2012, José Luís Peixoto remete para a velha tradição da viagem sem finalidade, pelo prazer e pela aventura, e afirma: “O grande motivo [da viagem à Coreia do Norte] foi justamente encontrar um desafio que me estimulasse, a possibilidade de ir a um país de tão difícil acesso.”

Passe pela Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, e requisite este livro e/ou outros livros que se encontram disponíveis para empréstimo domiciliário.

Coordenadora do Serviço de Bibliotecas de Abrantes / Biblioteca Municipal António Botto

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