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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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Passe pela Biblioteca: “Confrarias Medievais da Região de Torres Novas: os bens e os compromissos”

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “Confrarias Medievais da Região de Torres Novas: os bens e os compromissos”, transcrição paleográfica de Leonor Damas Lopes, é o livro sugerido por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

 

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O livro CONFRARIAS MEDIEVAIS DA REGIÃO DE TORRES NOVAS: O BENS E OS COMPROMISSOS é, na realidade e na maioria do texto apresentado, a transcrição do Tombo das Capelas de Torres Novas, de 1502 a 1503.

tnovas_confrariasEste documento faz parte do conjunto das fontes mais importantes para se fazer a História de Torres Novas e do seu concelho. O Tombo das Capelas encerra não só o registo dos compromissos e dos bens das confrarias medievais da vila e do antigo termo torrejano, bem como o património da gafaria, o do próprio concelho e o de capelas particulares.

Este legado proporciona, assim, fontes de informação historiográficas que contribuem para uma quase reconstituição da Torres Novas quinhentista quanto à definição do espaço urbano, das confrontações de propriedades, da toponímia, da antroponímia, de profissões, de laços familiares, etc.

Não é uma edição recente, é, contudo, uma edição sempre actual, na medida em que permite que o investigador tenha ao seu alcance documentos, e a respectiva informação neles contida, com mais de 500 anos, devidamente salvaguardados e transcritos.

Deveu-se este precioso trabalho ao labor de Leonor Damas Lopes e deveu-se à vontade autárquica, nos idos de 2001, da publicação desta obra, que muito veio contribuir para o estudo da vila de Torres Novas nos primeiros anos do século XVI, permitindo-nos imaginar até que os cenários que nos são trazidos pelos escrivães pouco diferentes seriam dos mesmos nos anos imediatamente anteriores. Para esta edição e na qualidade de técnica do município de Torres Novas, redigi, sob forma de contextualização, a sua introdução.

O texto transcrito dá-nos a conhecer os compromissos das Confrarias, em primeiro lugar e, depois, os bens de cada uma, detalhadamente descritos, conforme determinação de D. Manuel I que fez realizar, nessa mesma época, inquéritos sobre os bens das confrarias, hospitais, capelas, albergarias e gafarias existentes no reino.

A partir da leitura deste e de outros textos que visam o mesmo assunto, no que respeita ao assistencialismo, confirma-se, nestas datas, a existência no concelho de Torres Novas, para além das vinte confrarias (sete delas na vila), de mais um hospital, uma gafaria, uma mercearia, três albergarias na vila, e de mais seis dispersas pelo termo do concelho. Distingue-se a confraria mais antiga, de Fungalvaz, que remonta na sua fundação a 1176.

Este Tombo das Capelas de Torres Novas, que se encontra à guarda da Torre de Tombo e que constitui o principal conteúdo transcrito da obra a que neste artigo fazemos referência, é uma fonte extremamente valiosa no que respeita à reconstituição, quer de parte do território, quer de parte do quotidiano da então vila de Torres Novas, na época em apreço.

Esta leitura pode constituir-se como um ponto de partida para que investigadores ou historiadores possam debruçar-se sobre certos detalhes no texto bem manifestos. Há, aliás, toda uma panóplia de topónimos, geográfica e urbanisticamente localizados nas confrontações que delimitam com precisão os bens. São, assim, o caso da cerca, de casas, de olivais, de pontes, de quintais, de pomares, de ruas e de certos nomes de algumas áreas da malha urbana da vila ou de áreas rurais. Outrossim, podem encontrar-se nos textos antropónimos variadíssimos respeitantes aos habitantes da vila, nomes esses relacionados, bastantes vezes, com as confrontações de determinadas propriedades ou com os bens de cada confraria. Não raramente, também, a esses nomes surgem acopladas as profissões ou o estatuto social das pessoas em causa.

Ainda a título de exemplo, e para elucidar, só na página 336, e respeitante ao arrolamento dos bens da confraria do Salvador, surge-nos à leitura as profissões de um tal João Afonso, Casqueiro; de um Vicente Gonçalves, porteiro do Almoxarifado; de um outro João Lopes, Albardeiro e o nome de sua mulher, Leonor Fernandes; e, ainda, a profissão de um outro, João Afonso, Andador.

Ora, o livro tem 564 páginas. É quase incalculável a riqueza de informação e de detalhes acerca da vila no início de quinhentos, nos seus mais variados aspectos. É, por isso, uma mais-valia preciosa para qualquer produção historiográfica sobre a vila nessas datas, mas também um contributo inexcedível para alimentar a imaginação dos mais curiosos sobre o tema, sobretudo no que toca à paisagem e ao tecido urbano de então.

Como um dos contributos, salientamos, só a título de exemplo, a certeza de que em 1502 já existia uma Praça Nova (p. 150) em contraponto a uma Praça Velha (p. 157) e que, pela localização e confrontações descritas no texto, esta Praça Nova poderá ser a atual Praça Cinco de Outubro, uma vez que e citamos: “E o dicto quintall  he de comprido quoremta couados E de larguo cimquo couados E estaa todo amtre os muros .scilicet. antre o muro E a barbacaa da parte de fora comtra a dicta praça noua ./”

Desde há sete anos que vem acontecendo em Torres Novas uma feira anual que reporta sempre a um determinado assunto no âmbito da História Local.

No presente ano, a temática toca exactamente na existência destas ancestrais Confrarias que estão mencionadas na obra acima, bem como traz à luz a figura de um torrejano ilustre, D. Jaime de Lencastre, intrinsecamente associado às mesmas.

Pouco conhecido da historiografia local, D. Jaime merece, por isso, o reconhecimento de figura ilustre da terra, pois a ele se deveu, por volta dos anos 30 do século XVI, a doação dos terrenos contíguos à ermida dos Fiéis de Deus e, posteriormente, nos anos 50, dos terrenos da ermida de S. Gregório Magno, situada no Carrascal. Os primeiros destinados à instalação da Irmandade e a consequente construção da Igreja da Misericórdia e os segundos à construção do convento do Carmo, respectivamente.

Exerceu D. Jaime de Lencastre elevados cargos junto da corte, como o de capelão-mor da rainha D. Catarina, mulher de D. João III. Neto bastardo de D. João II e irmão do primeiro Duque de Aveiro, D. Jaime possuía Paço de família (Almeidas e Lencastres) no coração da vila e detinha o cargo de prior das suas quatro freguesias.

Terá sido, mais tarde, bispo de Ceuta e inquisidor-mor do reino.
Ora, terá sido pelas fortes ligações à coroa que D. Jaime impulsionou a construção da Igreja da Misericórdia e paralelamente a incorporação dos bens das sete confrarias existentes na vila, naquele princípio do século XVI, nessa nova Irmandade.

E é, portanto, esta a temática da Feira Quinhentista do presente ano, que entre os dias 2 e 5 de Junho terá lugar em Torres Novas.

Por norma, os conteúdos historiográficos desta feira são, com o maior rigor possível, estudados, previamente, pelos técnicos municipais e, aos momentos de reconstituição e de recriação histórica, há a preocupação de, ao detalhe, respeitar as fontes historiográficas fidedignas, honrando o valor da História, ciência do conhecimento, sempre inacabada, que se vai sempre reescrevendo. Obviamente que todo este trabalho prévio é feito com a consciência de se saber que não há verdades cénicas a 500 anos de distância. Há, contudo, fontes, arquivos e livros aos quais convém recorrer. E isso, em Torres Novas, são recursos que não faltam.

Pouco se sabe, na realidade, sobre a figura de D. Jaime de Lencastre. Infelizmente, digo eu. Entendo, por isso, que não é porque determinadas personalidades ou factos são pouco conhecidos da História local que não devem ter, ou vir a ter, determinado destaque ou não vejam os seus nomes trazidos à luz. É, na minha óptica, exactamente o contrário. Aqueles que são pouco conhecidos da História podem também ter um papel de destaque. Quem sabe se, assim, não se desperta o interesse e a curiosidade de historiadores que almejem saber mais e procurar melhor? Assim o permitam as fontes e assim muitos se interessem mais e melhor pelos domínios da História local.

Os desconhecidos da História devem o seu anonimato, demasiadas vezes, e exactamente, à falta de pesquisa e/ou à falta de fontes ou à falta do estudo e da procura destas. Devem-no à falta de arquivos devidamente organizados, devem-no ao esquecimento a que foram votados. Ora, se nunca aludirmos a uma dada personalidade, alegando a sua parca significância para a História, dificilmente alguém se interessará por fazer a História dessa mesma personalidade ou do contexto em que a mesma viveu ou do seu contributo, ou falta dele, no decorrer dos acontecimentos. Interessa, por isso, dar a conhecer outros nomes e outros referenciais que, eventualmente, possam vir a merecer melhor atenção.

É também, como refere João Carlos Lopes na nota editorial, com o objectivo de dar a conhecer à comunidade um quadro histórico com aspectos pouco conhecidos da História local que recomendo a consulta e a leitura de CONFRARIAS MEDIEVAIS DA REGIÃO DE TORRES NOVAS: OS BENS E OS COMPROMISSOS.

Haja, assim, mais vontade de contribuir e de aguçar os espíritos para que mais conhecimento se produza, mais investigação, mais estudos e mais produção científica e historiográfica de qualidade, acerca de factos ou de personalidades ainda pouco conhecidas dos torrejanos, cheguem às prateleiras de uma biblioteca pública.

E, para isso, o livro que aqui vos recomendo, CONFRARIAS MEDIEVAIS DA REGIÃO DE TORRES NOVAS: OS BENS E OS COMPROMISSOS, que pode ser adquirido ou emprestado na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, é um excelente ponto de partida.

Diretora da Biblioteca Municipal de Torres Novas

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