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Sexta-feira, Janeiro 28, 2022
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Passe pela Biblioteca | “Caros Fanáticos”, de Amos Oz

Os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Caros fanáticos”, de Amos Oz, é a sugestão hoje apresentada por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

“Caros Fanáticos – Fé, fanatismo e convivência no século XXI”, Amos Oz (Ed. Dom Quixote, 2018)
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«Nunca encontrei fanáticos com sentido de humor. Nunca vi que alguém capaz de rir de si próprio que se tenha tornado fanático. (…) O humor contém um distanciamento que nos permite ver, pelo menos por instantes, as coisas numa luz completamente nova. Ou ver-nos a nós próprios (…) como os outros nos veem. Esse distanciamento leva-nos a reduzir o excesso de importância que se atribui a algo e em particular a nós próprios. E mais: o humor implica em geral uma certa relativização, uma desvalorização do sublime (…). Mesmo que sejamos maravilhosos, puros como a neve e cheios de razão — é conveniente que surja por vezes, nem que seja por um momento, algum diabinho, um diabinho bufão, que nos pisque o olho e ria um pouco da nossa razão absoluta, da nossa pureza excecional, da nossa santidade e do acima de qualquer dúvida e fustigue um pouco essa importância e santidade transbordantes.»

Escritor, romancista, ensaísta e jornalista de vária obra, Amos Oz (Jerusalém 1939 – 2018) sempre se posicionou na origem da fundação de movimentos pacifistas. Foi um homem clarividente, um construtor da paz.

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Deixou-nos, entre muitos outros, este pequeno livro que contém três reflexões sobre a convivência pacífica entre povos no século XX.

Discorre aqui sobre as origens dos fanatismos, e não tendo qualquer solução que lhe pareça viável, presume que a consciência de que haverá um fanático adormecido em cada um de nós será um grande contributo para que possamos, a partir de cada uma das nossas casa e das nossas famílias, contrariar esse fatalismo que é a guerra entre os que não professam a mesma fé ou as mesmas ideologias.

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Na sua exposição, parte da realidade que lhe era mais próxima e mais conhecida, o conflito israelo-palestiniano, contudo alude ao fanatismo quotidiano, aliás aos vários, aos que nem por isso são visíveis mas que se mostram evidentes nas manifestações do dia-a-dia. Refere também a importância de distinguirmos os vários graus do mal: «Quem não é capaz ou não quer hierarquizar o mal acaba prestando um serviço a esse mesmo mal.»

De uma lucidez impressionante, Amos Oz coloca-nos a todos perante o espelho da realidade. E nós, ali no meio, somos refletidos por esse mesmo espelho. Fazemos parte.

Desconstrói as intenções dos fanáticos, coloca-as tão claramente à nossa frente para que as vejamos sem qualquer disfarce. Se não, reparem: «A crescente infantilização de milhões de seres humanos em todo o mundo não é fortuita: há quem tenha interesse nela e se aproveite dela, seja por desejo de poder seja por ambição monetária. O publicitário e quem o financia têm o maior interesse em que nos tornemos todos crianças pequenas e mimadas, porque as crianças pequenas e mimadas são os consumidores mais fáceis de aliciar. (…) Nas eleições são cada vez mais as pessoas que votam por quem consegue emocioná-las e diverti-las, por quem domina todas as regras do jogo, Votam pela “cena, pela “galhofa”, pela “piada”. (…) 
Tudo isto é aparentemente o oposto da sisudez austera dos fanáticos (…). Mas essa diferença é uma ilusão.»

Um livro a ler, mas só para quem verdadeiramente não teme o confronto com as suas próprias fragilidades e as assume como, eventualmente, perigosas.

Passe pela biblioteca… ou consulte o nosso catálogo.

Diretora da Biblioteca Municipal de Torres Novas

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