Domingo, Dezembro 5, 2021

Passe pela Biblioteca | “As velas ardem até ao fim”, de Sándor Márai

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “As velas ardem até ao fim”, do escritor Sándor Márai, é o livro sugerido esta semana por Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.

- Publicidade -

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Já ninguém escreve como Sándor Márai. Digo frequentemente que quem não leu os clássicos só leu rascunhos e, As velas ardem até ao fim, seria um clássico nem que tivesse sido publicado ontem.

- Publicidade -

Já se usaram todos os superlativos para exaltar este pequeno esmagador romance, considerado um dos melhores, e por vezes o melhor, do século XX. Frequentemente qualificado como uma obra-prima sobre a amizade, trata-se efetivamente de uma deslumbrante e incomparável narrativa, com uma prosa inteligente, nostálgica e tranquilamente bela. Psicologicamente profunda, envolvente, lúcida e perspicaz, não se consegue abandonar a sua leitura, da primeira à última página, pois é simultaneamente sedutora e inquietante.

A ação decorre quase totalmente num castelo de caça, isolado, mas não imune ao processo de corrosão de um mundo em turbulenta mudança. Solitário como a árvore na clareira da sua floresta, desiludido, mas resiliente, um homem espera. Tudo envelhece consigo. Ao fim de quarenta e um anos alguém chega.

Primeiro o homem recebe o seu convidado, num jantar a dois, com a elegância aristocrática que herdou do berço. Falam os dois. Memórias, trivialidades passadas. Depois, durante cerca de noventa páginas e enquanto as velas ardem, só um fala. O outro escuta, mas o seu silêncio, cortado por raras palavras, é sempre uma forma de responder e cria no leitor/ouvinte uma avassaladora diversidade de interpelações. O monólogo é, por isso, uma interlocução, um diálogo que por vezes não se limita aos dois personagens, porque inclui o leitor, mantido em expetativa, quase a querer entrar no enredo, mas sem nunca saber como será o desenlace, até que a luz das velas esmoreça e se apague.

Não é possível falar deste livro sem usar muitos adjetivos, porque se trata de uma obra sobre a vida, e são eles que marcam a intensidade duma ação que, no entanto, decorre quase toda numa sala, de um antigo castelo, decadente e ermo.

Há sobretudo uma subtil e avassaladora diversidade de sentimentos: amizade, amor, inveja, sinceridade, desejo, cumplicidade, paixão, deslumbramento, confiança, frontalidade, vingança, traição, ilusão, solidão, tédio, esperança, simpatia, vaidade, camaradagem, companheirismo, altruísmo, fidelidade, culpa, cavalheirismo, maldade, carinho, segurança, ciúme, presunção, arrogância, altivez, afabilidade, orgulho, heroísmo, medo, loucura, compreensão, desespero, exaltação, ridículo, falsidade, revelação, vergonha, gratidão, felicidade, inquietação, infelicidade, crueldade, cordialidade, amabilidade, curiosidade, tranquilidade, fatalidade, deceção, indiferença, intimidade, engano, egoísmo, incompreensão, ressentimento, piedade, ódio, cobardia, respeito, seriedade, cortesia, vileza, reverência profunda… enfim, os ingredientes que temperam as vidas.

Se a literatura é para emocionar, em As velas ardem até ao fim, sentimentos e emoções misturaram-se em doses q.b., à procura de uma receita para o sentido da vida e resultaram num livro que não podemos ler e não partilhar, porque gostaríamos de impregnar com ele as pessoas de quem gostamos. É impossível descrevê-lo como merece, mas lê-lo é uma experiência maravilhosa, pois trata-se, sem dúvida, de um monumento literário.

Diretor da Biblioteca Municipal de Abrantes

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome