PASSE PELA BIBLIOTECA: AS IDENTIDADES ASSASSINAS, DE AMIN MAALOUF

margarida trindade
Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “As Identidades Assassinas”, de Amin Maalouf, é o livro sugerido por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

 

identidades assassinas (Foto DR)

Aos que me fazem a pergunta (se se sente mais Libanês ou mais Francês), explico pois, pacientemente, que nasci no Líbano, aí vivi até aos 27 anos, que o árabe é a minha língua materna, que foi na tradução árabe que descobri Dumas, Dickens e as Viagens de Gulliver, e que foi na minha aldeia das montanhas, a aldeia dos meus antepassados, que conheci as primeiras alegrias de menino e ouvi certas histórias em que me iria inspirar mais tarde, para os meus romances. Como poderia esquecê-lo? Como poderia alguma vez desligar-me dessa realidade? Mas, por outro lado, vivo há vinte anos em França, bebo a sua água e o seu vinho, as minhas mãos acariciam todos os dias as suas velhas pedras e escrevo os meus livros em Francês. Nunca poderia senti-la como uma terra estrangeira.
Metade Francês, metade Libanês? De modo algum!
A identidade não se compartimenta, nem se reparte em metades, nem em terços, nem se delimita em margens fechadas. Não tenho várias identidades, tenho apenas uma, feita de todos os elementos que a moldaram, segundo uma “dosagem” particular que nunca é a mesma de pessoa para pessoa
”.

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Estas são as palavras com que Amin Maalouf (25 de fevereiro de 1949, Beirute) compõe os primeiros parágrafos de As Identidades Assassinas (Difel, 2009), o livro que hoje aqui recomendo.

A construção/desconstrução da identidade individual e coletiva assente na dicotomia Ocidente/Oriente é o tema transversal a este manifesto de Maalouf. Todavia, quer a análise, quer as conclusões que Maalouf nos apresenta, não são nem simplistas, nem maniqueístas.
O autor disserta sobre a sua recusa em entender a identidade individual e coletiva como se de uma construção acabada se tratasse. Pelo contrário, defende. A identidade de cada povo é dinâmica e está em permanente construção. A identidade não se encontra terminada no tempo de vida de cada um de nós. Nessa medida, nenhum de nós é proprietário de uma identidade fechada e concluída. “A identidade não é algo que nos seja entregue na sua forma inteira e definitiva…”, diz-nos Amin Maalouf.
São inúmeros os fatores que contribuem, todos os dias, e no mundo atual, para se estejamos em contínua formação da nossa identidade. A nossa identidade é “compósita”, diz-nos o autor. É constituída por uma multiplicidade de fatores que vão, entre outros, da língua, à religião e a todas as heranças e acrescentos que nos chegam, conforme o fluir do tempo. Esta constitui-se em termos não só locais, mas cada vez mais globais, em contínua interseção, interação e enriquecimento. A adição é constante, sobretudo porque nunca como hoje a informação esteve tão disponível. “… seria desolador para um povo, qualquer que fosse, venerar mais a sua história do que o seu futuro; futuro que se constituirá num certo espírito de continuidade, mas com profundas transformações e com contribuições exteriores significativas, como foi o caso nos grandes momentos do passado.”
Portanto, esta ótica é uma ótica de enriquecimento identitário a partir dos contributos que uns e outros, Ocidentais e Orientais, podem e devem trazer às sociedades de hoje, como trouxeram no passado, na sua relação de territorialidade ou de dinamismo populacional.
Toda a escrita deste livro, assenta num alerta contra os juízos de estereótipo ou de preconceito. Sem que isso nos seja dito de forma direta, esta obra diz-nos, à medida que a leitura se vai desenrolando, que a chave para a tolerância e para a aceitação do outro está no conhecimento.
A decomposição dos acontecimentos, apresentada para explicar as divergências, assente na análise historiográfica, tão necessária à compreensão do presente, sem paternalismos desnecessários, condescendência ou juízos de valor – que o passado não se deve julgar à luz do presente – ajudam o leitor, através de uma linguagem clara e um estilo acessível, a compreender os porquês das atuais lutas dentro do próprio mundo Islâmico, bem como os inultrapassáveis diferendos com a sociedade ocidental atual.
É esse conceito de “identidade”, em nome do qual o ser humano continua a cometer enormes atrocidades, que Amin Maalouf discute neste livro, pondo em aberto questões muito atuais, abrindo-nos clareiras de esclarecimento.
Colocando-se, logo no início do livro, sob o ponto de vista quer do migrante, quer daquele que é originário do território de imigração ou até de um território em transformação fronteiriça, Maalouf apela ao poder da abertura ao conhecimento como plataforma que derruba medos, com vista à tolerância. Aprender mais sobre os outros e sobre nós mesmos, é a via pela qual podemos optar.

A sabedoria é como um caminho na crista de uma montanha, uma via estreita entre dois precipícios, entre duas concepções extremas…”, diz-nos o autor.
Numa Europa que vive uma crise de refugiados sem precedentes, é esse caminho de equilíbrio e de sabedoria que Maalouf nos desafia a trilhar.

Margarida Teodora Trindade

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