Passe pela Biblioteca | “A vida no campo”, de Joel Neto

Os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “A vida no campo”, de Joel Neto, é a sugestão hoje apresentada por Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

“No campo, quando uma sirene ecoa, os ocupantes têm sempre nome.”
– Joel Neto, “A vida no campo”

Neste tempo em que o olho do drone tem mostrado praças e ruas vazias, muita gente confinada anseia talvez por um regresso às raízes campestres. Talvez a vida possa ser mais serena e livre se pudermos gozar a floração intensa do rosmaninho, num passeio de fim de tarde, no deambulatório deserto dos caminhos rurais.

O silêncio opressivo das cidades é um bom motivo para procurar aprender no campo a sabedoria dos que dividem a vida entre o largo, os bancos corridos na frontaria da taberna e a horta familiar, na harmonia e distanciamento de quem já está habituado a vidas pouco menos que confinadas, mas nunca sujeitas a quarentenas.

Ler este diário de Joel Neto, publicado em 2016 e com uma sequela de 2019, é também regressar ao encanto de uma escrita magistral, mas tranquila e nostálgica que celebra os lugares da infância e da memória e a grandiosidade das coisas simples.

O livro de Joel Neto ensina-nos o prazer de escutar os pássaros, perscrutar demoradamente o horizonte, apreciar a poesia de um cão abanando satisfeito a cauda por visível e literal inspiração dos cheiros do campo, a emoção da viagem a cada caminhada quotidiana. Há nele uma melancolia apaziguadora, um gozo tranquilo e sábio dos pequenos prazeres, uma enorme atenção aos detalhes, ao que fica e ao que passa. À naturalidade da natureza.

É uma escrita que na sua simplicidade nos ajuda a descobrir que também a vida pode ser chã e descomplicada, que entra na intimidade das coisas e das pessoas e se maravilha com o que descobre e até com o que já conhecia. Como a paisagem tantas vezes apreciada e os cheiros aspirados com prazer.

A vida no campo é um livro muito belo e profundamente humano. Um diário que funciona como um romance. Cheio de verde e de vacas felizes, de gente que sabe imenso de árvores e de pessoas, de sebes de hortênsias a perder de vista e de mar até ao infinito. É uma declaração de amor às origens, à natureza e à vida, de um escritor que é capaz de transformar o mais banal dos quotidianos em grande literatura. Joel Neto é um contador de histórias extraordinário, capaz de, com a mesma naturalidade, fazer rir e chorar. A humildade com que revela o seu grande conhecimento da vida e da natureza humana chega a ser enternecedora.

Este é um livro para ler devagar, para fazer durar o prazer, como fazem os leitores e os amantes maduros. E que estupidez se não persistir, na estúpida voragem do tempo e na ânsia pelo novo. Agora que todos somos ilhas é imperioso ler as vivências insulares de Joel Neto na sua geografia afetiva açoriana, para percebermos que afastamento físico não significa distância social e que este belo diário, romance, poema, é afinal um dos mais belos livros sobre o amor e a amizade, escrito por um notável escritor português.

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