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Sábado, Julho 24, 2021

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Passe pela Biblioteca | “A Queda de um Homem”, de Luís Osório

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “A Queda de um Homem”, de Luís Osório, é a sugestão apresentada esta semana por Margarida Teodora Trindade, da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

A Queda de um Homem promove um vínculo com o leitor do qual não nos libertamos com facilidade.

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Remete-nos esta obra, que é o primeiro romance do autor, para o universo da procura da salvação, onde através de uma viagem de comboio, sem regresso, que não é mais do que uma viagem ao íntimo, um manifesto peso das almas num purgatório individual, onde decorre o julgamento ao protagonista e o alcance da redenção se mede no reconhecimento daquilo que cada escolha sua representou ao longo de uma vida. Não obstante, o escritor leva-nos à incerteza constante de que se o que estamos a ler é parte da vida ou da morte, do sonho ou da realidade.

Luís Osório propôs-se, e bem, a descrever neste romance uma viagem ficcionada, na qual coloca um realismo excepcional, ultrapassado a espaços por insólitos de domínio quase surreal. A partir da ideia de identidade (ou da procura da mesma), o domínio narrativo alicerça-se em várias densidades: psicológicas, sentimentais, as mais cruas e racionais, os fantasmas e os pesadelos, os afectos, os preconceitos e até o inexplicável que é esse sentimento de bondade que mesmo os mais cruéis monstros da humanidade dizem ser o motor da sua acção.

A narrativa conduz-nos ao ambiente confuso e nublado dos sonhos, onde não impera a lógica, onde se esgota o tempo e domina o medo. O medo que domina os fracos, ainda que os fracos sejam os poderosos, incapazes de governar sem recurso ao mesmo.

Na procura desesperada pela liberdade, o bem e o mal estão aqui em permanente luta, não se sabendo porém — acredito que por intenção do autor — qual das personagens, na verdade, representa o quê, ou se ambas assumem, consciente e de forma deliberada essas características. E é nesta dicotomia firme que se constrói e se adensa a estrutura deste romance.

Impõe-se na leitura a ideia de salvação individual em paralelo com a de salvação universal, assim como as ideias de bem-comum, de política e a das boas-intenções (e do inferno que cheio delas está).

Num perturbador mergulho algures no existencialismo, enfrenta-se, numa constante, esse tema basilar e ancestral da literatura e da filosofia que é o do homem perante a inevitabilidade da morte, o reconhecimento da responsabilidade individual. O perdão, a redenção.

Capaz de nos desarmar, A Queda de um Homem fala-nos de vitórias e de derrotas, de sucessos e de fracassos, de vencedores e de vencidos. Consegue, por mérito próprio, que o vórtice narrativo que em crescendo se vai impondo absorva os leitores para essa forte cadência de interacção, habilidade de um livro que nos conquista. E o vínculo a que aludi no início materializa-se na ideia da aceitação do que somos, enquanto humanos, e daquilo que em que nos vamos tornando; a inevitabilidade, como parte do processo. Sem pretensões inócuas, mostra-nos o olhar individual sobre a realidade, sobre os outros e sobre nós próprios.

Admitindo com toda a certeza outras perspectivas — uma das maiores riquezas do livro — esta é tão-só uma das leituras possíveis. Uma leitura que nos remete, utopias à parte, sobretudo, para a ideia de “consciência”.

Um óptimo livro para começar o ano. Passe pela Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes e faça o seu empréstimo. Tenha boas leituras e um excelente 2018.

Diretora da Biblioteca Municipal de Torres Novas

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