Passe pela Biblioteca | “A oficina dos livros proibidos: o conhecimento pode mudar o mundo”, de Eduardo Roca 

Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “A oficina dos livros proibidos: o conhecimento pode mudar o mundo”, de Eduardo Roca, é a sugestão hoje apresentada por Dulce Figueiredo, da Biblioteca Municipal do Sardoal. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

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O professor e investigador universitário catalão Eduardo Roca (1963) estreou-se no mundo da ficção com um romance histórico digno dos amantes do livro. Um relato credível e bem fundamentado sobre a transição do livro manuscrito – acessível apenas a uma minoria e resultante do trabalho moroso de copistas – para a génese da tipografia e da mudança cultural e mental que daí resultaria. 

Um livro bem escrito, historicamente verosímil, que nos coloca na cidade alemã de Colónia, no início do século XV, onde alguns poucos eruditos sonhavam com a divulgação da cultura, numa afronta direta aos privilégios dos poderosos e da Igreja em particular, uma vez que esta não admitia intermediários entre a doutrina e os crentes, facto que estes homens punham seriamente em causa ao desejar produzir em larga escala e de forma acessível, entre outros, escritos religiosos como os “Evangelhos”, em língua vernácula (a língua nacional de cada território), para que cada pessoa pudesse estabelecer uma relação direta e pessoal com Deus. Esta era por isso uma perigosa utopia face a uma Igreja omnipotente, que acusava de heresia todos quantos ousassem pensar diferente… E a heresia pagava-se com a vida!

Uma obra que romanceia as tentativas do ourives Lorenz Block na construção dos caracteres tipográficos e da prensa que viria a ficar na história como uma criação de Gutenberg. Seria mesmo? O romance lança várias teorias interessantes sobre este tema, nomeadamente, acerca de como podem ter surgido as ideias para estas invenções e do facto de os “incunábulos” imitarem o estilo dos manuscritos, não só dando continuidade à estética em uso, mas como um estratagema para a mecanização da escrita não ser imediatamente detetada por todos quantos ficariam a perder com ao aumento da produção do livro, a sua consequente baixa de preço, e a disseminação do conhecimento de forma mais livre e vulgarizada.

Um romance que começa por ter pouco ritmo, mas ainda assim mantém o interesse e que conforme o perigo circunda os personagens, ganha cadência e trás surpresas e reviravoltas.

Citações

“Tu sabe-lo bem, Johann, que tens assistido a alguma das minhas aulas. A propósito, aparecei lá quando vos aprouver visitar-me, tu e esse tal Lorenz. Sim, no diálogo, não só aprende o aluno como o docente. As opiniões que surgem enriquecem a todos, e as perguntas e dúvidas do aluno obrigam o professor a aprofundar mais o seu conhecimento, e estruturar o pensamento, a prevenir-se de possíveis falhas que pode haver nas suas teorias e a ver como resolvê-las.” p. 252

« – …a verdade far-vos-á livres.» Sim, conheço-o.
Os olhos de Lorenz estavam ligeiramente turvos de lágrimas.
– Não te apercebes, Johann? Esse é o motivo; por isso é que merece a pena fazer este livro [“Evangelhos”, em vernáculo] e todos os do mundo. Estou cada vez mais convencido de que aquela máquina precisava de ser inventada; eu fui só o canalizador dessa necessidade. Um mundo cheio de livros, de todo o tipo e em qualquer lugar! Esse é o mundo que quero para a minha filha: um mundo onde a verdade esteja ao alcance de todos.” p. 472

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