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Domingo, Julho 25, 2021

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Passe pela Biblioteca | “A Morte do Palhaço”, de Raul Brandão

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as semanas. “A Morte do Palhaço”, do escritor Raul Brandão, é o livro sugerido por Amílcar Correia, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Decorrem as comemorações dos 150 anos do nascimento de Raul Brandão (1867-1930), autor pósromântico, considerado um dos iniciadores da moderna ficção portuguesa. Há, mesmo, quem veja a sua obra Húmus (1917), como a obra em que Fernando Pessoa se terá inspirado para o seu Livro do Desassossego. Raul Brandão fez parte da Geração de 70, tendo sido um dos fundadores da Revista Seara Nova (1921).

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Romancista considerado, por muitos críticos, como um dos mais importantes escritores do início do séc. XX e que, por isso, tem várias das suas obras integradas no Plano Nacional de Leitura, nomeadamente: A pedra ainda espera dar flor; A pesca da baleia e outras narrativas; As ilhas desconhecidas; Os pescadores e este, que agora vos proponho. Procurei, mas não encontrei, o Húmus no PNL, considerado a grande referência da sua obra.

Capa do livro
Capa do livro

A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, editado em 1926, é uma reorganização do segundo livro escrito pelo autor, História de um palhaço (A vida e o diário de K. Maurício), editado em 1896.

Tudo começa na casa de hóspedes da D.ª Felicidade, onde se albergam, além do Pita, um doido, um anarquista, o Gregório, chefe de repartição reformado, a velha e o Palhaço. Curiosa amálgama de personagens em fim de vida das quais saliento o Pita, um homem sem estudos, de muitas artimanhas, mas que sabia alinhavar boas dissertações que lhe defendiam as suas convicções. De consistência argumentativa nas opiniões e de conselhos bem alicerçados, que dava, sempre a pedido. Pita é um “filósofo”, licenciado pela vida.

Raul Brandão descreve a realidade, com todas as suas belezas, fealdades e contradições existenciais, o que faz, com uma linguagem paradoxalmente lírica. A vida, a morte e o amor e todas as suas dramaticidades intrínsecas, são os vértices desta obra.

História contada na terceira pessoa, A Morte do Palhaço é seguida de um diário de K. Maurício, o verdadeiro nome do palhaço, contada na primeira pessoa, em que este, abertamente, revela todos os seus pensamentos sobre o seu drama existencial que serve a personagem do palhaço. É uma inovação estrutural que Raul Brandão introduz na construção do romance.

A Morte do Palhaço é a história de um amor trágico, como muitos outros, que deram vida a tantas obras famosas. Mas este, é protagonizado por grotesco e velho palhaço. Mas não tem um palhaço, mesmo feio e hediondo, direito a amar? Como podia ele travar esse seu amor puro pela bela Camélia, trapezista do circo, amor que mantinha secreto, pelo medo de expor-se ao ridículo, à chacota? Morreria de vergonha.

K. Maurício, o palhaço, tem, neste seu amor um rival, Lídio, também trapezista, amante de Camélia. Camélia, que até ao fim da história ignora, por completo, o amor idolátrico que nutre ao pobre palhaço.

Um dia, o palhaço percebe que a mulher que ama, que julgava fazer rir com as suas interpretações profissionais, destinadas a provocar o riso no público, mas, também, para ter a admiração da que era a razão de ser do seu amor, mas, afinal, Camélia, ria das suas lágrimas, dos seus sentimentos, quiçá da sua fealdade. É esta perceção, que o deixa desnorteado e o faz confidenciar este seu amor secreto ao Pita, a quem muitos recorrem para um conselho, pelo bom ombro que este sempre se revela. Pita faz o impensável. Ao concluir que não há a menor hipótese de sucesso para este amor puro de K. Maurício, o Palhaço, e, depois de lhe tentar tirar esse amor da mente com as mais variadas artimanhas filosóficas, resolve, por em toda a sua sapiência não encontrar outra saída e, em desespero de causa, aconselha-o a morrer por esse amor, mas que o declarasse antes de morrer.

Seria uma morte honrosa, por contraposição com a desilusão angustiante que consumia a alma do pobre Palhaço, e lhe corroía a carne e lhe colava a pele aos ossos. Seria um fim digno e épico para o seu amor impossível, como aqueles que costumam acontecer na vida real ou, mesmo, na mais digna ficção. Seria o momento de glória do grotesco palhaço. Pita chega, mesmo, a prometer-lhe um reencontro com a amada na “outra vida”, dimensão em que só os sentimentos e o amor contassem. Aí, teria a possibilidade de “viver” o amor que a sua fealdade física, enquanto ser vivo, lho impedia.

Pita, para o palhaço:

“- Tens então uma única coisa a fazer… Vou-ta dizer sem frases, como se fosse teu amigo desde pequenino… Morre por ela… A vida é lastimosa e estúpida para nós que estamos gastos e nulos. A vida é uma série de desgraças, de maldades e coisas importunas e reles…

… És grotesco, é verdade. Mais um passo e ficas sozinho dentro de um palácio desabitado. Eis aqui que aparece uma bela ocasião para morreres por uma criatura que adoras. Não a deixes fugir.”

O Palhaço segue-lhe o conselho, sabendo nós, pelo autor, que o Pita não digeriu bem este conselho dado em momento de exaltação, num momento de exacerbamento sentimental.

Uma noite, numa atuação de Lídio no trapézio, percebem Camélia e os artistas do palco circense, que a corda do trapézio está cortada e, por fios, prestes ao fatal desenlace, a morte do trapezista, que não tem rede. O horror invade todos os que assistem na arena do circo. O trapezista não ousa fazer qualquer movimento aterrorizado com os fios que o separam de uma queda mortal no solo. Quem terá cortado a corda do trapézio? Quem terá sido? – questionam-se os que têm a noção do que sucede. É, então, que o Palhaço se dirige a Camélia e exclama:

– “Amar ou morrer? Amar ou morrer?”

– “Amar ou morrer? Amar ou morrer?”

Camélia, primeiro sem perceber, e depois de uma fulminante perceção do que, realmente, se passa, a leva a exclamar, sem hesitação e em ansiosa súplica:

– “Amar, amar!”

O Palhaço sobe lesto ao trapézio, ajudando Lídio, e faz do seu corpo de palhaço grotesco, mas ágil, qual ponte para a vida, deixando Lídio para a sua Camélia. Depois.. Deixa-se cair.

“… Viu-se, então, um trapo negro, bordado a cores escarlate, vir lá de cima, lá do alto do circo, e com todo o ruído das bexigas de porco, que prendia na túnica, o Palhaço estoirou na arena, grotesco até na morte…”

Enquanto este drama acontecia, a música tocava triunfante e o público, em êxtase, aplaudia o que julgava ser uma farsa de génio.

Bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento

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