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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

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“Partiste, mas eu fico com um pedacinho de ti”, por Hália Santos

Nunca estamos preparados para a partida de alguém antes do tempo. A morte inesperada primeiro surpreende-nos, depois choca-nos, depois revolta-nos. Porquê? Queremos saber o porquê. Queremos encontrar explicações. Queremos procurar sentido no que não tem sentido. Por muito que a vida nos vá pregando partidas, por muito que nos queiramos preparar para tudo, nunca conseguimos.

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Ficam pedaços dos outros em nós. Quando alguém deixa de viver deixa em nós uma parte daquilo que foi. Na exata proporção do que foi a sua relação com cada um de nós. O tempo que viveu com cada um de nós. As conversas que teve com cada um de nós. Os sorrisos que ofereceu a cada um de nós. As cumplicidades que partilhou com cada um de nós. As marcas que deixou em cada um de nós.

Leva tempo a digerir uma notícia inesperada. Ou talvez o tempo todo que nos resta não chegue para o fazer. Talvez venhamos a viver mais uma, duas ou três décadas e nos continuemos a lembrar do dia em que alguém foi cedo demais. Um alguém especial, que inspirou, que partilhou, que tocou.

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Dizem que o tempo cura tudo. Não cura nada. Atenua. Talvez faça sorrir levemente, mais tarde. Com as memórias boas que ficam. Mas o tempo não cura a ausência. Nem de quem parte num suposto tempo certo, quanto mais de quem parte antes do tempo. Por isso é que vamos mantendo o número de telefone memorizado no aparelho, como se continuássemos à espera do telefonema que sabemos que não voltará a acontecer.

Recebemos a notícia e procuramos fotos. Queremos voltar a ver o sorriso, o olhar, a expressão. Procuramos as últimas mensagens trocadas. No telefone e no mail. Vamos às redes sociais. Vemos as publicações. Os olhos turvam. Apetece bater. Talvez em Deus, se ele existir. Alguma vez vamos ter uma explicação para isto tudo?

Dizem que os olhos são o espelho da alma. Mas a voz também é. Como era a voz? Não queremos esquecer a voz. Será que conseguimos? Durante quanto tempo vamos conseguir ouvir a voz? Queremos agarrar tudo o que pudermos. Deixar de ouvir a voz não é sinal de gostar menos. Mas achamos que sim, como se estivéssemos a deixar ir. Não, não deixamos.

Um pedacinho de ti – um belo pedacinho de ti – fica comigo, Luís Moreira.

 

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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