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“Para além do Bem e do Mal”, por José Rafael Nascimento

“Aquilo que é feito por Amor, acontece sempre para além do Bem e do Mal.”
– Friedrich Nietzsche

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Usamos o simplismo maniqueísta do Bem e do Mal, encarados de forma (quase) pura, para conseguirmos lidar com uma realidade que é (cada vez mais) complexa e que desafia a nossa capacidade de discernimento. Categorizar e estereotipar os inúmeros pedaços da realidade é um mecanismo automático da condição humana, arrumando-os num maior ou menor número e tipos de gavetas perceptivas, consoante o grau de conhecimento e experiência que se possui.

Assim sendo, todos somos susceptíveis à simplificação da realidade. Contudo, há um aspecto fundamental que nos distingue e nos faz estar melhor ou pior alinhados com a mesma: a consciência de que a “realidade” que percepcionamos não é a verdadeira realidade, estando tanto mais afastados dela quanto a simplificamos (ou a complexificamos). De facto, como diz um provérbio chinês, existem três verdades: a minha, a tua e a verdade. Ora, quem está interessado em viver de forma realista (muitos não estão…), tem de esforçar-se por conhecê-la e compreendê-la bem, com empatia e visão de 360º.

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Este é um processo contínuo e nunca totalmente alcançado, porque a realidade à nossa volta é mutante (assim como nós próprios). Acontece que há indivíduos e organizações que, tendo plena consciência desta limitação perceptiva, usam-na para enganar e não para esclarecer. Esses sujeitos tentam fazer crer que o Bem está (só) do lado deles e o Mal (só) do lado dos outros. E que o Bem é só (e sempre) Bem e o Mal só (e sempre) Mal. Ora, isso não é verdade e eles sabem-no bem, procurando ludibriar os mais distraídos, ingénuos ou ignorantes.

Na filosofia chinesa, o Yin e o Yang representam as duas forças opostas e complementares que compõem tudo o que existe no Universo e cujo equilíbrio dinâmico determina todo o movimento e mudança.

A realidade é mais complexa do que este maniqueísmo pretende fazer crer: existe o Bem no Mal, assim como o Mal no Bem, haja ou não intenção ou consciência disso. Poder-se-ia, até, ir mais longe e citar a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino: “Não há nada no mundo que seja totalmente mau, porque o Mal tem sempre o seu fundamento no Bem” (I, 103, 7). […] “O Mal não é conhecível por si próprio, porque o que caracteriza o Mal é ser privação do Bem” (I, 14, 10). 

Numa entrevista dada recentemente ao jornal I, o neurocientista António Damásio afirmou que “há pessoas que são extraordinariamente horríveis em matéria de mentira, em matéria de falsificação da verdade, em matéria de desprezo pelos outros. Mas estas pessoas são, do ponto de vista exterior, iguais a outras que podem estar a criar, por exemplo, uma vacina contra a Covid-19. Temos de fazer justiça a essa complexidade dos seres humanos. E de reconhecer que há grandes capacidades de criação, mas, ao mesmo tempo, há a lamentar – e há que precavermo-nos contra, também – as enormes capacidades de destruição que certos indivíduos têm”.

E o que considerar menos inaceitável, o Mal praticado por motivos justos ou compreensíveis (como fazer justiça privada quando a justiça pública não funciona) ou o Bem praticado por motivos injustos ou repugnantes (como favorecer o emprego de familiares e amigos em serviços públicos)? O certo é que aquele Mal faz perder a razão a quem a tem (causando vergonha alheia em quem está ao seu lado) e este Bem não passa a dar razão a quem não a tem (ainda que quem esteja do seu lado aplauda), pois a razão da força jamais poderá ser confundida com a força da razão.

Como mostra a Alegoria das Colheres Longas, a vida em sociedade implica a interdependência dos seus membros. Ninguém pode estar bem se os outros não estiverem minimamente bem, mas é espantoso como muitos parecem ignorar ou esquecer esta evidência. Ilustração de Stuart McMillen

Infelizmente, a arena política é pródiga nestas manobras, apostando alguns em confundir e manipular os cidadãos, ao invés de os esclarecer e guiar com sentido ético e competência. A esta ignomínia se devem opor as forças políticas e sociais, assim como as personalidades de referência que reivindicam, com credibilidade, a decência e o rigor na gestão da coisa pública. A todas elas se exige a palavra e a acção incumbidas à democracia representativa e participativa.

De nada serve, a quem procura salvar a pele ou obter ilegítimos dividendos políticos, tentar instrumentalizar o poder judicial e apropriar-se das suas decisões, confundindo a realidade forense com a realidade política e moral (social). Por variadíssimas razões, pode-se ganhar a causa em qualquer uma delas e perder nas demais, por exemplo vencendo no plano judicial e perdendo nos planos político e moral. Note-se que, a um juiz, compete aplicar a lei elaborada pelos legisladores e não necessariamente ser justo ou fazer justiça.

Todos sabem (ou deviam saber) que a absolvição de um arguido em tribunal não declara nem confirma que ele é inocente ou tem razão, apenas que não se apurou a sua culpabilidade. E há tantos motivos para que isto aconteça, a começar pela falta de provas ou os incidentes processuais… Como afirmou Bertrand Russell, “a guerra não determina quem tem razão, apenas quem sobrevive”. Bem podem os oportunistas e demagogos ensaiar o branqueamento de responsabilidades, e os “elefantes na sala” permanecer em cúmplice silêncio, que a verdade vem sempre ao de cima, como o azeite.

Confundir intencionalmente os planos judicial, político e moral, assim como os conceitos de absolvição e inocência, revela má-fé e sórdida tentativa de manipulação da opinião pública. Ilustração de James Hilston

Georg Lichtenberg, um filósofo e escritor alemão do Século XVIII, terá afirmado que “quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”. Não interpreto este pensamento como justificação a posteriori para a prática de qualquer Mal, mas como iluminação a priori para a prática de todo o Bem. E “perder a vergonha” é comandar com soberba e demagogia, distorcer a verdade e manipular, e desrespeitar e perseguir adversários e (até) colaboradores. Consegue-se enganar alguém toda a vida ou todos alguma vez, não se consegue é enganar todos toda a vida.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

Crónicas anteriores relacionadas com este tema:

“Sobre o discernimento e a ecologia da percepção”, por José Rafael Nascimento

“Fair-play democrático”, por José Rafael Nascimento

 

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José Rafael Nascimento
José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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