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Trincanela

Quarta-feira, Julho 28, 2021

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“Papas e bolos”, por Armando Fernandes

Pessoas de discernimento entaipado, em duas baias, ou duas claves sem chaves ou notas, escarnecem dos fazedores de papas, atribuem algum talento aos pasteleiros, sacodem os ombros repletos de nótulas de caspa quando ouvem elogios a quem consegue de pouco conceber sopa rescendente. E, não estou a referir-me à astuciosa sopa de pedra concebida através do engano de ingénua moçoila.

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Início desta forma a crónica natalícia porque ao longo dos milénios as nossas ancestrais avós desprovidas de quase tudo conseguiam alegrar culinariamente a Consoada de maneira a os velhos e os novos de cada família desdentados ou donos de leitosos dentes afagarem o palato não obstante as inúmeras dificuldades.

Não se pode senão ficar espantado perante a micrologia alimentar tudo aproveitando destas mulheres singulares e a sua estranha ortodoxia. Sim, cumpriam os preceitos no tocante à forma de transformarem as matérias-primas em comida dando ênfase ao anexim – cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso – podendo-se acrescentar em cada casa seu tempero, seu estrugido, sua tempo de cozedura. Não por acaso as grandes Mestras calculavam as quantidades a olho levando em atenção o apetite ou vontade de comer da parentela.

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Nos dias festivos o tirar a barriga de misérias levava à consumição de quantidades mais elevadas de alimentos por essa razão a descrição das quantidades é coisa da cozinha escrita seja conventual, monacal, nobilitada ou burguesa, na popular prevaleceu a idade e «ânimo comedor» dos manducantes.

As papas tiverem destaque na alimentação dos egípcios, os gregos engrossavam-nas com azeitonas, os legionários romanos comiam papas de aveia ou espelta, de um modo geral todos os povos as comiam ao modo de ceia utilizando farinhas, legumes e frutos, sendo essenciais na mantença das crianças e pessoas desprovidas de dentição. Os receituários portugueses de índole tradicional enunciam várias receitas de papas, por seu turno provérbios e cantares aludem a papas, o mesmo fazem romanceiros e contos tradicionais a atestarem a sua valia no quadro dietético antigo.

Bolos grandes, bolos pequenos, bolos secos, bolos húmidos, bolos sem brilho, bolos cintilantes, berrantes, antropomórficos, estão associados a efemérides e acontecimentos festivos a pautarem o calendário das comunidades. Atente-se: bolo de nascimento ou de baptismo, bolo de aniversário, bolo de casamento, bolos e bolinhos no dia de Todos-os-Santos, bolo de Reis (bolo-rei), bolo de Páscoa ou bolo de festa em honra do orago.

No domínio do fazer e mais tarde da fabricação os bolos principiaram por serem rústicos e grosseiros, posteriormente, os pasteleiros conferiram-lhe múltiplas formas, cores, recheios e sabores. Há bolos farinhentos, esponjosos, espumosos, azeitados ou oleosos, suaves e, de forma geral, todos são doces, quando não muito doces.

A Epifania é tempo de apreciação de bolos, também de papas doces. Desafio todos quantos lerem este texto a tentarem conceber uma papa e um bolo, num exercício destinado a examinarem o grau de destreza na concepção de recordações agradáveis dos tempos idos.

O provérbio proclama: com papas e bolos se enganam os tolos. E, está bem. Se eles são tolos! Não o serão, fazendo-se, aconchegam o estômago e a adoçam o palato. Chamem-lhe tolos!

Bom Natal.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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